Joanne Caddy: "As competências são a nova moeda, convém ter muitas no bolso"

Dentro do objetivo da definição de uma Estratégia Nacional de Competências, o governo português organizou um workshop, no Palácio Foz, em que participaram vários atores da sociedade, desde empresários a sindicatos e professores universitários. Joanne Caddy, especialista da diretoria de Educação e Competências da OCDE, que tem ajudado a coordenar programas em vários países, explica por que é que envolver a sociedade neste tipo de programas pode fazer a diferença, do diagnóstico à ação.

Todos concordam que melhores competências conduzem a empregos e prosperidade económica. Mas como se define uma estratégia de competências para o futuro num mundo que muda tão rapidamente?

Na OCDE esta questão das competências tem-se tornado mais central. O debate tem sido focado na questão das competências para o futuro mas também sobre como lançá-las e com que fins. O objetivo também é perceber - e é aqui que incide o nosso trabalho especificamente - o que caracteriza um sistema nacional de competências a funcionar de forma harmoniosa, produzindo competências que serão úteis para a economia e também para a sociedade. Porque, tal como sugere a sua pergunta, isto não é uma caixa de seleção onde eu, como pessoa, identifico cinco das sete coisas que a OCDE diz que preciso de ter. Há outras coisas que serão necessárias. Uma das grandes discussões é: quais são as competências fundamentais que nos permitirão continuar a aprender ao longo da vida.

As estratégias terão sempre de apontar para resultados a longo prazo ou há também ganhos a curto prazo?

O que sentimos é que a atividade de nos focarmos nas competências como um ativo para a economia e a sociedade tem de continuar além de qualquer ciclo político. Estamos a olhar para dez países e a mensagem é sempre: não se trata apenas de encontrar o melhor lote de competências, as que têm melhor saída hoje mas também de ter resiliência no futuro. E isso é um processo em curso, um debate permanente com a economia real, com a sociedade, com professores, educadores e com os alunos adultos. Uma das questões é como criar uma infraestrutura que permita ao sistema ajustar-se a si próprio. O que continua a ser importante - e não é feito em muitos países - é alinhar as políticas educativas com as necessidades do mercado de trabalho, com o que está a acontecer nas empresas, nomeadamente ao nível da inovação. Temos de pensar como tudo funciona como sistema. Honestamente, em termos de informação para a tomada de decisões, não há grande visão estratégica...

Não existe uma direção clara?

Exatamente. Por exemplo, como apoiar os ministérios, se pensarmos apenas em termos de políticas públicas. Como é que garantimos que não se atropelam uns aos outros e que existe complementaridade e eficiência? Na OCDE dedicamos muita atenção à medição dos retornos das competências. Os testes PISA [que avaliam alunos de 15 anos] e PIAAC [dedicado a avaliar competências de adultos] são medidas das competências que as pessoas têm. Podemos ganhar muitas qualificações em pedaços de papel mas será que isso se traduz em competências? Na OCDE estamos a pensar mais em competências do que em qualificações em papel. Precisamos de evoluir para uma sociedade em que o que sabemos, e a forma como o aplicamos, é considerado importante pelas próprias pessoas mas também pela sociedade em geral e pelos empregadores.

Vemos muitas medidas políticas bem-intencionadas esfumarem-se por falta de adesão. Como é que envolvemos a sociedade nestas decisões?

Toda a arquitetura deste projeto específico é assente nessa questão. Nada do que lerá nos relatórios sobre Portugal, a Coreia ou a Noruega é uma novidade. Tudo foi visto e é conhecido. A questão é: se sabemos tudo isso, por que é que não fizemos correções? Porque é que as medidas dos governos não atingiram os seus fins? E parte da resposta - e por isso é que este projeto é importante como etapa de diagnóstico - é o envolvimento da população. Se os empregadores, estudantes, sindicatos, não fazem parte da fase de diagnóstico, e não chegam a um entendimento comum, não podem evoluir para a ação.

Por vezes, também será difícil projetar os resultados. Estando a aconselhar vários países, pode dar exemplos dos benefícios que podem ser obtidos com esta visão estratégica?

Estamos a trabalhar com um lote de países muito diversificado. Os objetivos, ambições e capacidades são muito diferentes. No relatório holandês, que lançámos recentemente, verificámos que há uma grande preocupação no país com o que serão as novas fronteiras da economia holandesa. Se olharmos para a Holanda de hoje, tem resultados muito bons, ao nível do mercado, da educação, não se passa nada de errado no reino dos Países Baixos. No entanto, a preocupação deles é como serão capazes de se projetar no futuro. Mesmo num sistema que funciona bem, há ganhos a obter. Sobre os setores emergentes, os mercados de trabalho que serão necessários.

Em Portugal, alguns setores da indústria, como a têxtil, foram afetados pela concorrência de países emergentes, com custos de produção mais baixos, mas estão a recuperar apostando na qualidade e em profissionais mais qualificados. Este é um bom exemplo de que, de uma forma mais ampla, a aposta nas qualificações pode substituir o petróleo que não temos?

Sem dúvida. Não há outra explicação que possa ser dada para o facto de todos os 35 países da OCDE estarem a olhar para as competências. Percebem que será "a" vantagem competitiva no futuro. Não serão necessariamente investimentos de capital ou recursos naturais. Será a capacidade das pessoas de criarem valor, todos os tipos de valor - económico e social -, com o conjunto de competências que elas têm. É um investimento. Se as competências são a moeda do século XXI, convém termos muitas no nosso bolso.

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