Investigação ao roubo das Glock parada. Agentes voltaram ao serviço

O maior roubo de armas de uma força policial não teve consequências disciplinares na hierarquia

A investigação ao roubo das 57 pistolas Glock do quartel-general da PSP, conduzida pela própria polícia e pelo Ministério Público (MP), está parada. O inquérito criminal foi aberto há mais de oito meses, quando o roubo foi detetado. As pistolas foram furtadas do armeiro, localizado na direção nacional, em estojos juntamente com 18 munições e dois carregadores em cada um.

Os investigadores não têm conseguido novas pistas desde que, a 25 de janeiro passado, uma das Glock foi apreendida na posse de um suspeito traficante de droga, no Porto, e outras três, dias depois, apreendidas pela polícia espanhola numa operação em Ceuta, facto que alargou a dimensão da investigação para suspeitas de haver organizações de tráfico internacional envolvidas. Apesar deste já ser um crime da competência da PJ, o MP manteve a confiança na PSP para investigar.

Logo a seguir à apreensão das quatro pistolas em operações policiais, a PSP suspendeu os dois agentes responsáveis pelo armazém os quais, sem terem sido acusados judicialmente nem terem sobre si sanções disciplinares ativas, voltaram de novo ao trabalho. Ao que o DN apurou junto de fonte daquela polícia, depois de algumas semanas na Direção Nacional, sem funções atribuídas, foram colocados no Comando Metropolitano de Lisboa. Fonte oficial da PSP, confirma que ambos os agentes "regressaram ao serviço por se ter esgotado o prazo da suspensão provisória e estão em funções administrativas. As armas de serviço foram retiradas a ambos".

Exoneração por concretizar

Um inquérito interno da PSP, instaurado por ordem da ministra da Administração Interna, revelou que tinha havido "falhas de supervisão e controlo" no Departamento de Apoio Geral (DAG), que estava na dependência direta do Diretor Nacional, Luís Farinha. Na sequência destas conclusões, Constança Urbano de Sousa anunciou, em março, "processos disciplinares à cadeia hierárquica da DAG". O número total de processos não foi partilhado com a comunicação social, tendo sido apenas divulgada a exoneração do ex-diretor do DAG, o superintendente Paulo Sampaio, que tinha sido nomeado pela ministra, dois meses antes, para ser oficial de ligação do ministério da Administração Interna na Guiné Bissau. Esta decisão não foi, no entanto, ainda cumprida, uma vez que o oficial, reclamando-se inocente, interpôs uma providência cautelar a contestar a exoneração e o tribunal validou-a. O ex-diretor já teria alertado, através de ofícios escritos, Luís Farinha sobre a falta de recursos, humanos e materiais, para garantir a segurança daquele sensível armazém. Apesar da insistência do DN, nem oficial, nem a PSP, confirmaram estes avisos. O oficial está em Bissau desde 23 de janeiro e a sua comissão de serviço tem a duração de três anos.

Esta ausência de consequências práticas, principalmente na direção, daquele que foi o maior roubo de armas operacionais numa força de segurança, acabou por criar um crescente mal-estar interno. "A confiança dos cidadãos na PSP foi posta em causa e a única coisa que poderia compensar a quebra de credibilidade era terem sido vistas consequências, com punições, até ao mais alto nível da hierarquia, mas nada aconteceu", confidenciou ao DN um influente oficial. Outro alto responsável lamenta que o roubo das Glock "esteja a cair no esquecimento, sendo tão ou mais grave do que Tancos, uma vez que neste caso já se sabe que as armas foram mesmo parar a organizações criminosas". O descontentamento com a "inação" do Diretor Nacional tem-se agravado naquela força de segurança, confirmou o DN junto a várias fontes.

Do lado do ministério da Administração Interna, diz fonte oficial, aguarda-se "a decisão do tribunal" sobre a providência cautelar.

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