Viagem pela Lisboa de Mário Soares

Da casa na Gomes Freire, onde nasceu Gigi, ao Guincho - lugares íntimos. No meio desta vida, a Lisboa que foi marcada pelo homem mais importante do Portugal contemporâneo

Nos seus últimos anos, Mário Soares pedia com frequência ao motorista para passar por uma certa rua. A rua, que ontem o inverno enchia de folhas douradas, vale pelo nome histórico, o símbolo de um português das Luzes, precursor europeu - da corte de Catarina da Rússia à França napoleónica, Gomes Freire de Andrade andou a combater pela ideia da Europa. Este ano cumprem-se dois séculos desde que ele foi enforcado e queimado, ele e os seus, a maioria no Campo de Santana, onde vão desembocar os carros dessa rua de sentido único e com o seu nome na placa toponímica: "Rua Gomes Freire".

É lenda que o ministro que em outubro de 1817 mandou atear as fogueiras no Campo de Santana, sabendo que as execuções iam demorar, ficou satisfeito por os astros permitirem que os lisboetas as pudessem continuar a ver: "Felizmente há luar!", disse o algoz (e Sttau Monteiro, no título e na adaptação teatral do seu texto, prolongou a lenda). Mas não era a grande História que levava Mário Soares a pedir para se passar por aquela rua, apesar de também ele próprio ter sido um exilado e sempre um europeu convicto.

Na rua há um prédio desinteressante como são quase todos os construídos nos anos 60, caixotes e varandas com marquises, encostado ao velho e alto muro do Hospital Miguel Bombarda. Só pelo muro vizinho Mário Soares confirmava que ali nasceu. O que o levava a passar por lá, nos passeios de automóvel, era a madalena de Proust, a evocação da infância, o primeiro andar onde ele foi Gigi, o menino do seu pai e da sua mãe. O peregrino, que ontem quisesse passear-se pelos lugares de Mário Soares na sua cidade, poderia começar por ali. E ali acabava o passeio íntimo. Tudo o mais, tocado pela vida de Soares, era nossa História contemporânea.

Numa rua, ao Campo Grande, um guarda da PSP, de plantão a uma porta, trajava com cordões e luvas brancas, pois o dia era de gala, como indiciavam, desde manhã cedo, as câmaras televisivas com tripés no passeio fronteiro. Durante o dia, o corpo de Mário Soares iria ser velado pela família, na casa que foi a sua, na rua cuja placa diz: "Rua Dr. João Soares", homenagem ao pai do ex-Presidente, antigo ministro da República e várias vezes preso por lutar contra a ditadura. Ao fundo dessa rua, um arco em pedra de lioz, abre para o Colégio Moderno, de seus pais, e onde Mário Soares fez quase todo o liceu.

Lugares pessoais? "Fui sempre almofadado", ele dirá para explicar o cuidado dos pais. Mas esse "almofadado" não só era partilhar com o filho a convivência com a elite cultural e cívica que o pedagogo João Lopes Soares trazia de republicano e democrata, mas também por lhe dar o exemplo paternal de oposicionista. Outros jovens iniciavam a "carreira" de luta política com os perigos que esta trazia, acrescidos da angústia pela incompreensão, se não oposição familiar. Mas Soares não teve disso. De costas para o Campo Grande, voltado para essa rua estreita, da casa ao colégio, ontem, o peregrino à procura de uma Lisboa de Mário Soares, deveria olhar para aquela que era nos anos 30 e 40, a estrada de Malpique, não só como o ninho familiar, mas também como o lugar iniciático do cidadão.

E, antes de partir para outras romagens, imaginar Mário Soares a sair de casa, de manhã, durante décadas - advogado antes de se exilar, líder político de regresso, governante e Presidente - entrar na porta vizinha, na galeria de arte e livraria do seu amigo Manuel de Brito. O galerista morreu em 2005, mas Soares continuou a breve visita para comprar livros, ou não, e, sempre, olhar os quadros com o olhar experimentado de quem esteve preso na mesma cela com Júlio Pomar. As montras, ontem, ainda lá estavam - as cidades são assim, transformam-se em memória.

Não vale a pena a deslocação a um lugar onde Soares, ainda em vida, já tinha uma placa: "Praça Mário Soares", inóspita rotunda cortada por eixos viários, entre o cemitério de Benfica e a Pontinha. Não vai com ele, é lugar seco, onde as pessoas só atravessam sentadas em automóvel e se cruzam segundo as regras de prioridade e sem lembrança, nem de ontem, quanto mais da infância. Um erro de casting, o nome daquela praça.

Se querem perceber, ponham um chapéu e sigam pelo passeio, bem encostados às paredes da Sé, em Alfama. Era assim que fazia, no fim dos anos 40, o velho republicano Mário Azevedo Gomes, todos os dias, só para tirar o chapéu aos jovens, como Mário Soares, que estavam presos nas celas do 3º andar, do Aljube. Poderia ser que a homenagem até fosse em vão com Soares, porque acontecia ele estar num curro, solitário e sem acesso à janela e à chapelada. E, no curro, a dormir com a bonomia, otimismo e desdramatização de quem era assim porque sim. Ou porque o pai assim o formou?

Seguindo o caminho da formação, outra passagem breve por uma frontaria, hoje pintada de rosa lisboeta, na Travessa da Bela Vista, cruzada com a rua do Quelhas, no alto da Madragoa. No nº 5, rés-do-chão, a meados do século passado, era a sede da candidatura presidencial de Norton de Matos, que concorria contra o marechal Carmona, candidato da ditadura. No primeiro andar, eram os aposentos de Norton de Matos. A casa já tinha história, em 1917 fora saqueada. Ministro das Colónias, e por isso adepto de Portugal entrar na Grande Guerra para não ser usurpado dos seus territórios depois dela, Norton de Matos era odiado por militares que não queriam ser mobilizados. Depois, veio o Estado Novo, ao qual nunca aderiu. Nas presidenciais de 1949, ele foi visto como o candidato da unidade da oposição.

Os comunistas, na clandestinidade, também apoiavam Norton de Matos e tinham introduzido, sem o conhecimento do candidato, um seu militante, Mário Soares, então com 24 anos, que ganhou a inteira confiança e até amizade de Norton de Matos. Há sete anos que Soares era comunista, desde 1942, e outra placa de rua até lhe cunhou o nome de clandestinidade: tendo isso acontecido numa reunião na Fontes Pereira de Melo, Soares ficou "Fontes", Otávio Pato (que muito mais tarde chegou a ser apontado como sucessor de Cunhal), "Melo", ficando o terceiro modesto camarada da reunião com o pseudónimo do meio, "Pereira". Voltando à Travessa da Bela Vista: obrigado pelo PC a revelar a sua militância a Norton de Matos, Soares viu nisso uma manobra do partido para o comprometer, isto é, empurrá-lo para a luta clandestina, sem que a sua decisão fosse tomada em conta.

Mas a sua decisão contou: confessou ao general a sua ligação aos comunistas e, por outro lado, o episódio levou-o a cortar com o partido. A confissão foi feita no rés-do-chão, finda a qual o general candidato se retirou para os seus aposentos, no andar superior, sublinhando o corte de relações pessoais. Este subir de escadas de um desiludido candidato (que iria, aliás, desistir da eleição) ainda não sabia que era o começo do afrontamento, um quarto de século depois, no Verão Quente de 1975, entre a esquerda democrática e os comunistas. Quer dizer, o viajante olhando para uma janela do rés-do-chão e depois para outra do andar de cima pode dizer que viu esse salto da História.

Para trás ficava a militância de Mário Soares no PCP, que foi marcada por momentos/lugares que podem ser revisitados. De uma janela da Escola Politécnica, na manifestação estudantil que saudou a derrota do nazismo, a 8 de maio de 1945, fez o seu primeiro discurso às massas. À força da voz, porque ainda não tinha sido inventado o megafone com que a 28 de abril de 1974, de regresso do exílio em Paris, falou da varanda da estação de Santa Apolónia, ao lado de um velho dirigente comunista Dias Lourenço que foi recebê-lo. Nem, se é para fazer elipses históricas, os potentes altifalantes virados para a Praça do Saldanha, e rádios e televisão a dar eco, em 1986, garantindo que ele passaria a ser "Presidentes de todos os portugueses." Orador e condutor de multidões, como o demonstrou em 1948, no funeral de Bento Jesus Caraça, matemático e comunista. Jesus Caraça morava a dois quarteirões do cemitério dos Prazeres, onde devia ser enterrado. Mas Soares conduziu o féretro por várias ruas de Campo de Ourique, para fazer durar a homenagem por duas horas.

Saído do PCP, faz o curso de Direito e, porque é a personalidade pública que aqui perseguimos, rumemos à Baixa. O escritório de advogado é na Rua do Ouro, 87, num 2.º andar, onde a irmã de Otávio Pato vai pedir a Soares para defender o antigo camarada, acabado de ser preso. Como era uso entre a maioria dos advogados dos presos políticos, Soares lá estará, sem honorários, no Tribunal da Boa Hora, então tribunal plenário onde os réus têm direitos escassos. Pato tem direito a ser batido pela polícia na sala de julgamento, enquanto Soares grita contra o abuso permitido pelos juízes. Também a viúva do general Humberto Delgado - galvanizador das presidenciais de 1958 (Soares saiu abraçado a ele no comício do Liceu Camões) e que fora desapossado de eleições honestas - vai à Rua do Ouro pedir-lhe que faça luz sobre o assassínio do marido, em Espanha, na fronteira portuguesa, em 1965. Desta vez, o caso já não é só de advogado defensor de presos políticos, é o "crime" de implicar a polícia política de Salazar nos assassínios do general e da sua secretária. A sentença foi mandar Soares para São Tomé.

No primeiro dia que Marcelo Caetano tomou posse da sucessão de Salazar, quis limpar o seu começo de governo sem essa ignomínia: deu ordens para o degredado regressar a Lisboa. Amigos aconselharam Soares a ir agradecer o gesto, o que ajudaria talvez a aprofundar a primavera marcelista... Não há lugar, nem data, para esse encontro, nem portanto, romagem a fazer: Soares recusou agradecer o favor, que não era nenhum. Por outro lado, quando anos mais tarde regressou de Paris, três dias depois do 25 de Abril de 1974, a primeira visita foi à Cova da Moura, cumprimentar António Spínola, representante das Forças Armadas que devolveram a liberdade a Portugal.

Entretanto, tinha acontecido o fenecer das promessas de Caetano, a ameaça de ser de novo degredado e a sorte grande de decidir ir para o exílio, onde pôde estabelecer os laços internacionais que tanto jeito lhe deram e a Portugal, em 1974.

Três lugares de romaria obrigatórios. Ao estádio da FNAT, onde a 1 de maio de 1974 todas as esperanças eram possíveis: Mário Soares discursa, empolgado, ladeado por um marinheiro e por Álvaro Cunhal, tenso. O marinheiro lembra a ala mais radical dos militares da revolução bolchevique... Segundo lugar a revisitar, os portões do estádio ex-FNAT, já rebatizado 1.º de Maio - e que, a 1 de maio de 1975, não se abriram a Soares e ao PS, já acusados de contrarrevolucionários. Terceiro lugar, a Alameda da Fonte Luminosa, onde Mário Soares, a 19 de julho de 1975, travou a deriva perigosa da revolução portuguesa. Esses "obrigado" que tanto se têm ouvido e lido por estes dias, nasceram ali.

Nos seus últimos anos, Mário Soares pediu com frequência ao motorista para rumar ao Guincho, ver o mar. Mas isso é demasiado pessoal. Aqui fala-se do guia da Lisboa marcada pelo homem que mais nos marcou no último meio século - assunto público e nacional.

*A viagem que aqui se fez bebeu muito na leitura da biografia "Mário Soares - Uma Vida", de Joaquim Vieira, publicado pela editora Esfera dos Livros

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