Vargas Llosa: "As utopias não trazem o paraíso à terra. Criam o inferno"

O escritor e prémio Nobel da Literatura destacou a corrupção e o terrorismo como as maiores ameaças à democracia

Um encerramento com chave de ouro. Coube a Mário Vargas Llosa a palestra de encerramento da conferência "Que democracia", promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que decorreu esta sexta-feira em Lisboa.

Vargas Llosa trouxe avisos e palavras de esperança para todos aqueles que vivem em sistemas democráticos. Alertas para a corrupção, que constitui, no seu entender, uma das "gangrenas" dos sistemas democráticos "do primeiro e do terceiro mundo que provocou o desencanto das sociedades, principalmente dos jovens", e para o "terrorismo islâmico" que tem provocado movimentos "a defender medidas anti-democráticas" para o combater.

Para Vargas Llosa a democracia "está de boa saúde". Ela "não é perfeita, mas cria a coexistência na diversidade", ao contrário dos sistemas "utópicos, como foi o comunismo" e que teve essa falha como "pecado capital". Outros sistemas, além do comunismo que, "tentaram travar a democracia, como o nazismo e o fascismo, também morreram". E porquê? "Porque nenhum, como a democracia, contribuiu tanto para diminuir a violência entre os seres humanos, pois é um sistema que põe e repõe os governos através de eleições, sem necessidade de ninguém matar ninguém".

Mas há ameaças no horizonte. O escritor olha para Espanha, "que foi um exemplo de um final feliz, depois de 40 anos de ditadura". A culpa é, precisamente da "gangrena da corrupção que atingiu os dois grandes partidos, o PP e o PSOE, que mais contribuíram para a modernização da sociedade". Isso, "criou um enorme desencanto na sociedade, principalmente entre os mais jovens, que se afastaram da política como se fosse algo desprezível e procuraram as utopias".

Fazendo uma retrospetiva da evolução dos sistemas políticos na América Latina, onde "ainda há poucos anos se acredita que a democracia era uma máscara para a exploração e a sociedade se dividia nos utópicos do comunismo/socialismo, com os trágicos exemplos de Cuba e Venezuela, e os que achavam que com golpes militares se governava", Llosa deixa o alerta: "Hoje há democracias mais ou menos perfeitas, mais ou menos corruptas, mas a América Latina já aprendeu que as utopias não trazem o paraíso à terra, nem a igualdade para todos. Criam o inferno".

Para o escritor, "não há no horizonte nenhum outro sistema que ameace neste momento a democracia", embora lamente o "inesperado resultado do referendo em Inglaterra", pelo saída da UE. "Nunca pensei que uma sociedade tão evoluída democraticamente fosse influenciada por uma demagogia tão repugnante!".

Concluiu com palavras de esperança e uma história do filósofo Karl Popper. "Uma vez foi a Espanha dar uma conferência e foi questionado por um jornalista sobre como podia ser tão otimista, quando todos os dias se havia notícias de violência, de guerra, em todo o mundo. Respondeu que era verdade mas que, apesar de estar mal, o mundo nunca esteve melhor", referiu.

Para Mário Vargas Llosa, "nunca houve tantos instrumentos na história da humanidade houve tantos instrumentos para lutar contra os grandes demónios que mais gente mataram, como as doenças e a fome. Não faz sentido haver hoje fome no mundo. Pela primeira vez podemos escolher a vida que temos, em que deuses acreditamos, o que queremos para a nossa sociedade". Na verdade, "pela primeira vez na história, depende só de nós haver um mundo melhor.".

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