Vara: "Emprestar dinheiro contém sempre um risco"

O ex-administrador da Caixa quebrou o silêncio para vir defender a realização de uma comissão de inquérito à gestão da CGD

O PSD conta agora com um inesperado apoio à sua iniciativa de desencadear uma comissão parlamentar de inquérito para investigar a gestão da Caixa Geral de Depósitos (CGD): Armando Vara, ex-ministro dos governos de António Guterres e ex-administrador da Caixa num período que tem sido alvo de mais ataques.

Vara, condenado a cinco anos de prisão por tráfico de influências no caso Face Oculta (de cuja sentença recorreu e aguarda decisão) e indiciado no processo Operação Marquês por suspeita de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção passiva, relacionada, precisamente com um crédito da Caixa ao empreendimento de Vale de Lobo (que está na lista dos créditos problemáticos), defende a comissão de inquérito.

"Emprestar dinheiro contém sempre um risco", declarou ao DN Armando Vara, quando questionado sobre este crédito. Quebrando o silêncio pela primeira vez desde a sua condenação no Face Oculta, Vara diz que este empréstimo, de mais de 200 milhões de euros, "foi avaliado e decidido com os mesmos critérios de sempre. O que ninguém previu foi a crise que veio a seguir no mundo inteiro. E não é sério fazer de conta que só houve crise para alguns".

Em carta enviada esta terça-feira ao presidente da Assembleia da República e aos grupos parlamentares, o ex-governante assinala que uma comissão de inquérito permitirá "esclarecer, em toda a sua extensão, a evolução da situação financeira da CGD ao longo deste período e apurar as causas que possam estar na origem desta eventual necessidade de recapitalização".

Assumindo não querer ser "hipócrita", reconhece que também tem interesse em explicar tudo o que diz respeito ao período em que foi administrador, entre 2005 e 2007.

Acredita que esta sua posição, que contrataria a dos socialistas - bem como a do próprio José Sócrates - não vai prejudicar o seu partido. "Estou certo que no PS compreenderão as minhas razões. E uma andorinha não faz a Primavera", salienta.

O ex-dirigente socialista sublinha que, embora até aqui, defendesse que "um inquérito parlamentar à gestão de uma determinada empresa constitui um poderoso fator de desvalorização da mesma e, por isso, um meio que não se justifica quando existem outras formas de levar a cabo a fiscalização pública da sua atuação".

Ferro procura consenso

Quanto à constituição da comissão de inquérito propriamente dita, a proposta do PSD e do CDS deu entrada na mesa de Eduardo Ferro Rodrigues logo na segunda-feira e deverá ser discutida na conferência de líderes de amanhã.

Ainda que a iniciativa dos sociais-democratas (com apoio dos centristas) tenha caráter potestativo, forçando a sua realização, o presidente da Assembleia da República procurará - como tentou noutras matérias, em particular com a rejeição de eventuais sanções da Comissão Europeia a Portugal - um consenso o mais amplo possível em torno do inquérito, conforme apurou o DN junto de fonte próxima de Ferro Rodrigues.

Neste espírito, também o calendário da comissão poderá ser ajustado entre as diversas bancadas para que se evite que os trabalhos decorram durante o habitual período de férias dos deputados. Isto porque, ao abrigo do regime jurídico dos inquéritos parlamentares, o presidente do Parlamento tem de formar a CPI até ao oitavo dia a contar a da publicação do requerimento no Diário da Assembleia da República, sobrepondo-se à interrupção do funcionamento do hemiciclo.

Por outro lado, ainda não há fumo branco acerca da auditoria que PSD e CDS vão propor à Caixa Geral de Depósitos. Ninguém adianta, para já, os contornos do projeto de resolução - nem revela se a intenção, como a do Bloco de Esquerda, passa por empurrar para o Ministério das Finanças essa diligência.

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