Valor da exportação de medicamentos duplicou esta década

O país terminou 2016 com vendas de medicamentos próximas dos mil milhões de euros. EUA e Alemanha são os grandes compradores

Portugal duplicou o valor da exportação de medicamentos desde o início desta década: passou de 444 milhões de euros em 2010 para 910 milhões de euros nos primeiros 11 meses do ano passado. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) enviados ao DN, o aumento foi também significativo quando comparado com 2015: mais 13,8%. Nesse ano, as exportações valeram 799 milhões de euros. Entre os principais países compradores estão os Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido.

Nos últimos anos, na lista de produtos exportados estão vacinas, antibióticos, analgésicos, medicamentos para o sistema nervoso central, cardiovasculares, epilepsia. Genéricos, produção de substâncias ativas para outros laboratórios e também produtos inovadores, como é o caso da Bial. A farmacêutica assinou recentemente um acordo com o Estado no valor de 37 milhões de euros com o objetivo de aumentar a investigação e o desenvolvimento da empresa nas áreas dos sistemas nervoso central e cardiovascular.

Os dados do INE - 2015 ainda são provisórios e os do ano passado preliminares - mostram que a lista dos cinco principais compradores a Portugal se tem mantido estável, com os Estados Unidos à cabeça, desde 2014. No ano passado os norte-americanos compraram 221 milhões de euros a Portugal, valor que tem vindo sempre a crescer, e que representa 24% do total das vendas. Segue-se a Alemanha (com 16% do total das vendas), Reino Unido (12%), Irlanda (9%) e Angola (5,5%). A zona do Médio Oriente, para onde partem hoje uma delegação da Associação Empresarial de Portugal e 13 empresas do setor da Saúde para participar numa feira, no Dubai, é outra das apostas. Apesar do aumento das exportações, os valores ainda estão longe do que o país gasta em compras nesta área. Entre janeiro e novembro do ano passado foram 1,7 mil milhões de euros.

Em entrevista ao DN, o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, salienta as indicações "muito boas" das exportações na área da saúde. "Não só das exportações de medicamentos e produtos farmacêuticos, mas também os princípios base de produtos farmacêuticos e dispositivos médicos estão a ter um crescimento muito interessante, que pode ser superior a 10% ao longo do ano. Penso que em 2016 - os dados ainda não estão fechados - os produtos de saúde deverão ultrapassar os 1,3 mil milhões de euros de exportações", refere o responsável, estimando que no total das exportações o peso da saúde seja pelo menos de 1,5%. "Um aspeto muito interessantes é a expansão que está a acontecer de produtos de inovação de base portuguesa, nomeadamente os da Bial, no mercado dos Estados Unidos que é o maior mercado do mundo em consumo de medicamentos. O setor dos produtos de saúde inclui também dispositivos médicos e hospitalares e há também nessa área várias empresas a fazer investimento e a aumentar a capacidade de produção".

Receita para o futuro: inovação

Em 2000 a companhia suíça OM Pharma decidiu deslocalizar parte da produção para Portugal. Hoje a fábrica de Lisboa assegura parte significativa da produção da empresa e exporta para 65 países. E estão a construir uma nova fábrica em Alfragide para a produção de um novo medicamento para todo o mundo, à exceção dos Estados Unidos. "Produzimos duas vacinas para infeções respiratórias e urinárias que são os principais produtos para exportação e um anti-hemorrágico. Depois para Portugal temos o Aero-OM", diz António Jordão, diretor-geral da OM Pharma Portugal & Head of Southern Europe Vifor Pharma, que salienta que os números das exportações devem ser lidos com cautela, há valor gerado através da exportação paralela e não por criação de valor no país.

Feita a ressalva, salienta o desenvolvimento que o país tem registado e que contribuiu para a subida do valor das exportações. "Temos muitas empresas como a Bial que está na área dos inovadores e tem vindo a crescer, há uma parte importante de produção para terceiros e outra de genéricos. Temos uma estrutura de custos de produção muito equilibrada, com pessoas com muita qualidade e experiência e custos de produção mais baixos que outros países, cumprimos prazos. Foi isso que nos permitiu ganhar o concurso para a nova fábrica", explica, referindo que os principais mercados de exportação da empresa são a Europa, principalmente Itália, América-Latina, Médio Oriente e alguns países da Ásia, tendo também contacto com os países africanos de língua portuguesa. A receita para o futuro é "apostar em inovação e em investigação para se chegar a preços mais competitivos e fazer crescer o valor do mercado de exportações".

Para Joaquim Cunha, diretor executivo da associação Health Cluster Portugal, o aumento das exportações "é o resultado do trabalho feito ao longo dos últimos anos, que demora a aparecer pelo processo de desenvolvimento dos medicamentos inovadores, a própria afirmação externa é um processo lento de consolidação". "Uma vez que a máquina comece a funcionar, anda por ela. Estamos a tirar benefícios disso", diz, salientando a exigência de mercados tão grandes como o dos Estados Unidos, que se torna também "um bom cartão de visita" da capacidade portuguesa. Quanto ao futuro, fala de dois objetivos: "Olhar para a saúde como um setor que gera riqueza, como motor de desenvolvimento de emprego, de exportação. Outro é trabalhar a imagem externa do país no seu todo, a reputação da prestação de cuidados, a produção científica, mostrar que a saúde é uma aposta do país."

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