Uma disputa à moda antiga que transborda no baixo Mondego

A luta pelo poder vai ser renhida em Montemor-o-Velho, com o regresso ao ativo do ex-presidente Luís Leal (PSD/CDS), e a determinação de Emílio Torrão (PS) em voltar a ganhar. A CDU acredita que pode ser mais expressiva, e há ainda um movimento independente que o PDR de Marinho Pinto apadrinhou.

É um discurso extremado e muito partidarizado aquele que nesta campanha autárquica corre pelo Baixo Mondego. Há quatro anos, Emílio Torrão recuperou a câmara para o PS, quando o então presidente social-democrata, Luís Leal, ficou de fora por causa da limitação de mandatos. Só que Leal regressou agora, à cabeça da coligação PSD/CDS.

Em Montemor-o-Velho há pouco mais de 20 mil eleitores, e desses, quase metade não vota. A vitória de Emílio Torrão em 2013 foi por uma unha negra (3 vereadores para o PS e 3 para o PSD) e por isso o autarca viu-se obrigado a estabelecer parceria com o vereador que a CDU conseguiu eleger, Jorge Camarneiro.

Está bom de ver que o discurso político de Torrão incide na necessidade de dilatar a maioria. "Estou confiante, de consciência tranquila", diz ao DN, enquanto faz a retrospetiva do que foi este seu primeiro mandato: "Entrei em Outubro de 2013 para uma câmara que estava quase falida, recuperámos a câmara financeiramente e neste momento temos em curso cerca de três milhões de obra, desde infraestrutura rodoviária a arranjos urbanísticos".

Torrão e Leal confiam na vitória

Como sempre aconteceu ao longo de todo o mandato, Luís Leal prefere não se pronunciar, já que supostamente a situação a que se refere o sucessor foi criada por ele. "Não faço comentários à gestão política local atual. Os meus concidadãos conhecem-se de 12 anos de prática, foi um ciclo que terminou, dando origem a um novo. E agora respondi ao desafio que me foi feito, de me apresentar de novo como candidato".

Já Emílio Torrão mostra-se confiante na vitória: "O que sinto é que as pessoas estão muito agradadas com aquilo que estamos a fazer, e a expectativa é naturalmente positiva. O que peço é que me deixem continuar o trabalho que estou a desenvolver e me deem condições para eu o fazer de forma mais célebre", sustenta o candidato do PS num concelho que é estruturalmente socialista, como o mostram os resultados das legislativas.

Não admira por isso que, na apresentação da sua candidatura, se apelasse tanto ao voto no partido, chamando a terreiro os êxitos do governo e de António Costa. Porém, é o mesmo concelho que sabe fazer a destrinça nas eleições autárquicas. Assim se percebe que Luís Leal tenha sido presidente por 12 anos, sempre com maioria, e que há quatro anos tenha aumentado exponencialmente a votação na CDU, devolvendo-lhe o vereador perdido.

E Jorge Camarneiro (de novo candidato pela coligação de Comunistas e Verdes, nestas autárquicas) revelou-se importante para o minoritário PS, no executivo. Mas foi sol de pouca dura. Camarneiro, economista e empresário local, aceitou alguns pelouros que foi gerindo sem nunca assumir qualquer tempo na Câmara.

"Fi-lo roubando horas à minha vida profissional. Mas depois percebi que o PS só estava interessado no vereador da CDU para garantir as votações e não a governação. Por exemplo, criei um regulamento para implementar empresas no espaço urbano, nos edifícios fechados ou devolutos, que nunca chegou sequer a ir a reunião de Câmara. Percebi que nada do que eu propus avançava". É que entretanto o PS conseguira outra aliada, a vereadora Alexandra Ferreira, eleita pelo PSD.

Emílio Torrão insiste que sempre conseguiu "trabalhar com a oposição e fazer todas as pontes, mas é sempre mais complexo quando queremos tomar decisões". E por isso pede a maioria clara. "Durante três anos estive a pagar dívida, pagámos mais de 12 milhões de compromissos assumidos. Temos um orçamento de 14 milhões, é muito difícil fazer obra nestas condições, e aquilo que queremos num próximo mandato é consolidar as políticas que tínhamos previsto para Montemor, de dignificação urbanística das sedes de freguesia e da sede do concelho, já em curso. Depois criar políticas sociais efetivas, com a população sénior, com os jovens. Projetos e ações que dizem respeito às pessoas", conclui.

Aí o discurso converge com o do candidato Luís Leal, que fala em "privilegiar de novo a pessoa, o cidadão, com o objetivo claro de melhorar as condições de vida dos diferentes segmentos e níveis etários". Espera por isso "vir a ter todas as oportunidades de poder concretizar um novo ciclo da vida política e sobretudo na vida da terra que me viu nascer, viver e onde espero morrer".

Tem a expectativas realista de ganhar. "Mais do que ganhar é estar disponível, estar com fé, com vontade e com crença do que se pode vir a desempenhar". Até porque se agarra à imagem que ficou do tempo de autarca. "Providenciei muitas infraestruturas de que o concelho estava carente, desde a biblioteca municipal, piscina, centro de alto rendimento, rodovias, requalificações urbanas. Foram pagos mais de 93 milhões de euros. Hoje há que completar alguns desses desígnios , mas são já mais residuais".

Sobrevivência em causa

Fixar população para a sobrevivência do próprio concelho é desígnio de todos, mas muito salientado por Jorge Camarneiro. Fala de um município com "30% de reformados, em que 40% da população é já idosa", e onde nestas eleições espera ver expressa em votos a confiança que conquistou ao eleitorado.

Na verdade, foi com ele que a Coligação Democrática Unitária duplicou o número de votos em 2013. Já o PDR (de Marinho Pinto) empresta o nome a um movimento de cidadãos que nasceu nessas autárquicas, com Armando Maia à cabeça. O professor foi presidente da Junta de Meãs do Campo durante dois mandatos, um dos quais pelo PS.

"Faz muita falta na câmara ter alguém que tenha sido presidente de uma junta", sublinha, enquanto elenca desafios vários, como a criação do orçamento participativo, por exemplo. Das 11 freguesias, o PDR concorre a 5. E junta-se ainda à corrida o Bloco de Esquerda , com Artur Silva. Este combate tem tudo para ganhar adeptos.

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