Um terramoto que ergueu grandes obras em Lisboa

"A Expo"98 teve a inovação relativamente às anteriores exposições internacionais de se preocupar com o período que viria depois de a exposição fechar", diz ao DN António Barreiros Ferreira numa visita à FIL, que projetou nos anos 1990 e que é vizinha de várias obras determinantes que foram construídas naquele tempo no lugar que é hoje o Parque das Nações

"O grande desafio foi fazer cidade", começa o arquiteto António Barreiros Ferreira, no lugar que ele conheceu repleto de lama e onde agora, numa manhã de sol, se ergue a colossal Feira Internacional de Lisboa (FIL), que hoje recebe eventos como a Web Summit e que na Expo"98 acolhia os pavilhões dos países participantes da zona norte (os da zona sul eram desmontáveis e haveriam de ter outras utilidades país fora).

"A Expo"98 teve a inovação relativamente às anteriores exposições internacionais de se preocupar com o período que viria depois de a exposição fechar. A de Sevilha foi um êxito enquanto exposição, mas estava muito presente o grande fracasso urbano que constituiu a intervenção." Não aproveitar para a cidade o impulso desta que foi a última exposição mundial do século XX, e por onde haveriam de circular 11 milhões de visitantes, seria ter uma oportunidade e falhá-la, defende o arquiteto, que reconhece o mérito à comissão que organizou a Expo"98, destacando a figura de Cardoso e Cunha, comissário-geral, e de António Mega Ferreira, mentor (com Vasco Graça Moura) e comissário da exposição. "Hoje essa consciência está generalizada e sabemos que as cidades avançam em função das oportunidades que se criam. Outrora foram cataclismos, como o terramoto de Lisboa, que permitiram uma renovação da cidade. Hoje não estamos à espera de cataclismos para que isso aconteça."

Foi aberto um concurso de ideias para o recinto, com o propósito de "partir pedra", recorda ao DN um antigo colaborador da comissão. No júri, além de Cardoso e Cunha, Mega Ferreira ou arquitetos portugueses como Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, estavam ainda figuras como Frank Gehry, Joan Busquets e Jean Nouvel. O plano de urbanismo seria depois traçado pelo arquiteto Vassalo Rosa, a cujo trabalho se seguiria o do arquiteto Manuel Salgado, na definição daquilo que é hoje o Parque das Nações.

A propósito da imagem que possamos ter de um arquiteto sentado no seu ateliê a esboçar um edifício numa folha em branco, é sabido que, ao aproximar-nos, veremos que esse branco carrega já muita informação. Neste caso, além da premissa de projetar algo que sobrevivesse à exposição e integrasse a cidade em si mesma, havia o tema da exposição, "Os oceanos, um património para o futuro", e, no caso da FIL, dois donos de obra: a Parque Expo, empresa criada para construir a Expo"98, e a Associação Industrial Portuguesa (AIP), à qual, através da Feiras, Congressos e Eventos, pertence o edifício. Carregava tudo isto a folha em branco de onde sairia este edifício que faz lembrar um navio, com os seus mastros, com a cobertura têxtil simultaneamente fazendo lembrar velas e a cobertura das grandes tendas de feira ou circo; ou aquela enorme prancha que se vê na Praça do Bojador (para quem está de costas voltadas para a atual Altice Arena), que define todo o edifício e foi inspirada numa cena de Peter Pan. "A prancha do barco do Capitão Gancho, quando a Wendy se atira ao mar, antes de o Peter Pan a vir salvar, está muito próxima deste desenho: é esta grande prancha."

O recinto da FIL "deve ser entendido não como um edifício mas como um trecho urbano", argumenta o arquiteto que assinou o projeto a par de Alberto França Dória. "Ao passearmos à volta, é com muita dificuldade que conseguimos dizer onde é que se passa de fora para dentro da FIL. Vai-se passando." Para a conceber assim, explica Barreiros Ferreira, "foi muito útil estudar as cidades árabes, porque este edifício tem essa caracterização. Muitas vezes estamos dentro, em espaços que são abertos. A cidade islâmica, nesse sentido, é o oposto da cidade greco-romana, chamada ocidental. Nós saímos para a rua. Na cidade árabe nós entramos na rua".

Entramos de facto no edifício, onde muitos se preparam para visitar a Tektónica - Feira de Construção e Obras Públicas, e subimos até à zona VIP, forrada a folha de raiz de nogueira (usada no tabliê dos antigos Jaguar e Rolls-Royce), onde está, por exemplo, a sala de protocolo. Depois, é através do parque de estacionamento que visitamos o espaço que se assemelha aos bastidores de um grande teatro. São compridas galerias de onde saem as caleiras que abastecem saídas existentes a cada seis metros nos pavilhões de 10 000 m2 (maiores do que um campo de futebol), e que seriam capazes de servir uma habitação em água, eletricidade ou saneamento.

Antes de subirmos ao topo do edifício, com uma vista sobre o Mar de Palha e parte daquilo que é hoje o Parque das Nações, passamos pelo auditório que tanto pode receber a assembleia geral da EDP como um evento da Oriflame, marca de cosmética.

"Era como uma duna no deserto"

Talvez seja exagerado estabelecer uma ligação entre a voz pausada de Peter Chermayeff e a calma que impera nos grandes aquários que projeta. O arquiteto do Oceanário de Lisboa fala sem pressa ao telefone a partir do estado americano do Massachusetts, regressando aos anos 1990. Tal como Álvaro Siza Vieira para o Pavilhão de Portugal, o americano foi convidado pela organização da Expo"98 - a maioria das obras atribuíram-se, contudo, através de concursos por convite - para assinar este edifício que guarda mais de sete mil milhões de litros de água salgada (salmourada ali) e 500 espécies.

Chermayeff pensou que "seria entusiasmante pôr esse grande edifício na água; teria um carácter simbólico, icónico, se conseguíssemos fazer o edifício tornar-se algo como um navio, a caminho do mar". O arquiteto, que chama a atenção para a evocação da história portuguesa, nota que não é por acaso que há um ligeiro desvio do edifício em relação à doca: é para apontar para norte, como se seguisse água adentro. E se todos os componentes estivessem integrados, do conteúdo à forma arquitetónica que o reveste, ou à iluminação que os acompanha, então "podíamos orquestrar emoções através de diversas partes do edifício", explica Chermayeff, fundador do ateliê Cambridge Seven Associates e cuja obra em Lisboa foi o seu sexto aquário, numa história que começa em Boston. O seu irmão, o designer Ivan Chermayeff, que morreu no ano passado, assinou o painel de azulejos com animais marinhos no exterior.

Os trabalhos para a construção do Oceanário, que durariam quatro anos, começaram antes de muitos. "Estivemos sozinhos durante quase dois anos. Aquele lugar era como uma duna de areia no deserto, como estradas lamacentas", recorda o arquiteto, que se lembra de ver nascer a Gare do Oriente, de Santiago Calatrava. "Fizemos parte de uma grande experiência de integração urbana. Houve um esforço para que a Expo não fosse apenas algo temporário."

As diferentes espécies começaram a chegar em 1997, conta ao DN Miguel Oliveira, diretor de Operações do Oceanário. "Eram quatro aviões!", recorda. Perante o grande aquário, chama a atenção para uma convivência de espécies que naturalmente não acontece. "Temos tubarões da Florida com outros da Austrália, como temos o peixe-lua, da nossa zona costeira, que se vai cruzar no aquário com um tubarão-zebra."

Em cada ponta do Oceanário há uma representação do que existe em cada um dos oceanos, distinguidos geograficamente dentro desse que é, afinal, um só, como a Expo e o Oceanário, na proa desse navio, procuraram mostrar.

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