Um passeio em que o Metro é o destino e não o transporte

Visita guiada para conhecer a arte das estações de metro e a história da empresa que celebra este ano o 70.º aniversário

Fazer o percurso Avenida, Jardim Zoológico, Laranjeiras, Alto dos Moinhos e Colégio Militar/Luz de metro em duas horas tinha tudo para não receber elogios dos clientes. A não ser que esse percurso seja feito numa visita guiada pela arte e história das estações de metro. Este foi o percurso da primeira - de seis - visita organizada para assinalar os 70 anos do Metropolitano de Lisboa.

O ponto de partida escolhido foi a Avenida e por um motivo particular: "Foi das primeiras estações a abrir e mantêm a traça original", explica o guia Guilherme Rodrigues, ex-funcionário do Metro. Esta estação "até esteve em risco de não abrir porque ficava muito próximo da Rotunda e dos Restauradores", acrescenta.

Os curiosos que se juntaram para a primeira visita guiada gratuita lá foram ouvindo as explicações de um funcionário leal à casa, durante 33 anos. "Comecei nas oficinas e depois num concurso interno passei para os escritórios, fui integrado na área das relações públicas e depois comecei a fazer as visitas guiadas", recorda Guilherme Rodrigues.

Nem todas as dúvidas que lhe colocam tem a ver com a arte expressa em cada uma das estações - "apenas duas estações não têm trabalho de um artista, são Moscavide e Reboleira" -, os visitantes querem saber quando vai o metro até Campo de Ourique ou defende a existência de estações próximas umas das outras, como o caso da Avenida ou Arroios.

Entre os primeiros turistas do metro estão aqueles que se lembram das obras - a empresa foi fundada há 70 anos, mas a inauguração e circulação dos comboios começou apenas em 1959 - e os que só conhecem o transporte dos últimos anos. É o caso de Ugo Esteves, "carioca", reformado que encontrou em Portugal o paraíso para descansar. "A minha filha descobriu o visto especial para reformados e em menos de dois meses consegui o visto."

Apaixonado por comboios, ou "trens" segundo o sotaque do outro lado do Atlântico, Ugo, que é um utilizador de transportes públicos em Lisboa, não quis perder esta oportunidade de conhecer mais de perto a história destes comboios. Tem acesso ao passe de terceira idade e por isso não se cansa de passear pela cidade - "sou um vagabundo e não há saída onde não descubra uma coisa nova". É fascinado, "até com inveja, mesmo", pela forma como os portugueses entram e saem dos transportes. "As pessoas esperam que todos saiam para entrar. Preciso descobrir como conseguiram isso", espanta-se.

O que também o deixou rendido é a história que rodeia algumas das estações de metro. Como o Jardim Zoológico, que foi uma das quatro que mudou de nome ao longo da história da empresa, e depois dessa mudança, em 1995, Júlio Resende usou o parque como inspiração. A estação, inaugurada em 1959, tem ainda azulejos de Maria Keil. Nas paredes há vários azulejos que retratam animais. E que levaram o artista a viver "quatro anos na fábrica para fazer os motivos que estão na estação", sublinha o guia da visita.

Guilherme Rodrigues explicou ainda porque razão têm as estações de metro azulejos por todo o lado. "O azulejo é impermeável e o nosso vizinho é água. Em algumas estações quase que é preciso um barco", brinca.

Os próprios azulejos vão contando histórias das técnicas com que se produziram as instalações que estão visíveis. Nas Laranjeiras, os pomares de estilo árabe inspiraram Rolando Sá Nogueira para fazer fotografia serigrafada para retratar as laranjas e as laranjeiras. A estação está aberta desde 1988, aquando da extensão da linha até Benfica.

A estação seguinte, Alto dos Moinhos, também de 1988, contou com a intervenção nos azulejos e mármores de Júlio Pomar. Uma obra que mereceu uma exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, " 1 Ano de desenho, 4 poetas no Metropolitano de Lisboa", quatro anos antes da abertura da estação. Nestes átrios e entradas da estação estão retratados quatro personagens maiores da cultura nacional: Camões, Bocage, Fernando Pessoa e Almada Negreiros. Num traço classificado por Júlio Pomar como "graffiti da minha arte".

A visita terminou no Colégio Militar/Luz, onde a estação está integralmente coberta por azulejos que contam a história deste suporte de arte, uma intervenção de Manuel Cargaleiro. "O objetivo era recuperar a história dos grandes corredores azuis dos edifícios públicos", conta Guilherme Rodrigues.

O metro já recebia visitas de escolas que até faziam aqui aulas de Matemática, Arte e Filosofia e desde ontem e até julho (ver caixa) vai abrir as visitas ao público geral. "Costumamos dizer que somos o museu de arte contemporânea mais visitado de Lisboa, porque estamos abertos 365 dias por ano e temos cerca de meio milhão de passageiros por dia, portanto, cerca de meio milhão de visitantes", aponta a porta-voz do Metro, Helena Taborda.

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