Um ferro de Mestre António e dois Forcados fazem história na Palha Blanco

O crítico taurino Miguel Ortega Cláudio faz a crónica da corrida de abertura da temporada de 2018 da Palha Blanco, em Vila Franca de Xira

Vila Franca de Xira registou este domingo, 6 de maio, uma lotação praticamente cheia. Um êxito, mercê do excelente trabalho que a empresa Tauroleve realizou na promoção desta corrida e à comemoração dos 70 anos da ganadaria Vale de Sorraia (sempre uma garantia de emoção e risco, a verdadeira essência de uma corrida de toiros).

Ao cartel de figuras com provas dadas na história do toureio a cavalo, António Ribeiro Telles e Luís Rouxinol, ao doutoramento de David Gomes como cavaleiro de alternativa e como não podia deixar de ser a dois grupos de forcados com pergaminhos firmados nas nossas arenas, Vila Franca e Coruche.

Quanto ao curro da ganadaria Vale de Sorraia, cabe louvar a extraordinária apresentação dos toiros com trapio (imponência), duros, exigentes, sérios, encastados na generalidade. Deram emoção ao espetáculo, sem facilitar, antes exigindo, pedindo contas a todos. Destacaria pela positiva a mobilidade e alegria do primeiro e pela negativa o manso quarto.

David Gomes, vestindo uma casaca verde e ouro, tomou a alternativa das mãos de António Ribeiro Telles com o toiro de nome "Urze", salgado de capa (acinzentado), marcado a fogo com o N.º 76 de 490 kg, uma estampa, aplaudido de saída.

O novo alternativado entrou na Palha Blanco decidido, o primeiro ferro resultou emotivo, desenvolveu uma lide de valor e galhardia, houve emoção e risco, entrega por parte do jovem cavaleiro. Profissionalismo, decisão de muito querer para mostrar o que vale, foi fortemente ovacionado e acarinhado pelo público presente.

O seu segundo toiro, sexto da ordem, que encerrou a corrida, foi bonito e bem armado, mas que não foi tão franco nas acometidas ao cavalo como o primeiro. David protagonizou uma lide de valor, com muita entrega e toreria, deixando bem patente que quer ser alguém no mundo dos toiros.

António Ribeiro Telles é considerado o mais puro dos intérpretes clássicos do toureio a cavalo e por alguma coisa será... Ontem deixou isso novamente claro! Com o pior lote da corrida, um toiro reservado e com meias investidas e outro manso, por vezes fugido para tábuas, outras vezes com arrancadas bruscas. António esteve em plano superior, impondo a sua maestria e jamais permitindo que fossem os toiros a mandar.

O Sorraia que fez segundo, o mais feio de tipo do encerro, bem quis mandar... Mas ali quem mandou foi o cavaleiro da Torrinha. Ferros de grande emoção, com a classe e a verdade que foram sempre apanágio de uma carreira construída com a verdade e o respeito do toureio à portuguesa.

Mas foi no seu segundo toiro, quarto da ordem, um exemplar manso e complicado, que António Ribeiro Telles abriu o livro! Lide de menos a muito mais, com o público rendido e de pé à lição do Mestre. Assim se toureia! Um toque no primeiro curto, segundo o cavaleiro por sua culpa e a seguir bem a seguir, brega (preparação) inteligente e sabedora, ferros a entrar pelos terrenos do toiro, vencendo o piton, cravando de alto a baixo com emoção, com remates perfeitos, uma lição!

Queria destacar o terceiro curto, que não é fácil descrever... Foi daqueles ferros que todos sentimos, que todos aplaudimos e que ficam para quem viu. O público saltou das bancadas e de pé aplaudiu aquele compêndio da arte de bem tourear. Olé!

Luís Rouxinol teve duas atuações de muita entrega, expôs-se, lidou, bregou, toureou, empenhou-se no triunfo, mas não foi das tardes mais inspiradas que lhe vi. Houve bons ferros, detalhes de arte e técnica de um toureiro calejado em mil batalhas e bem montado. Se no primeiro tudo isso se viu numa boa lide, no seu segundo, um toiro que se arrancava de largo, por vezes solto e sempre com a cara pelas nuvens, o cavaleiro de Pegões não se sentiu cómodo e a lide não chegou a romper para o triunfo.

Para os Forcados de Vila Franca e Coruche, a tarde não se antevia fácil! Dois dos nossos melhores grupos em praça e isso valeu para que as seis pegas fossem concretizadas com enorme galhardia e muita emoção na maioria dos casos.

Vasco Pereira, futuro cabo Amadores de Vila Franca, foi à cara do sério toiro que abriu praça. Bem a citar e a reunir, o grupo ajudou com decisão e eficiência, executando uma boa pega à primeira tentativa.

Francisco Faria, valoroso à segunda tentativa, com enorme decisão e boas ajudas do grupo.

Márcio Francisco, forcado de méritos consagrados, pegou o quinto pelos Amadores de Vila Franca. Toiro que derrotou alto e forte nas duas primeiras tentativas, concretizou a sorte à terceira, numa enorme pega que levantou a Palha Blanco. Muito bem ajudado pelo grupo em especial pelo primeiro ajuda.

Pelos Amadores de Coruche abriu a função Miguel Raposo. Esteve bem, consumando a pega com decisão à primeira tentativa.

João Prates, no quarto da ordem, na primeira tentativa, teve braços de ferro. Um poderio imenso, fechando-se com galhardia e aguentando sozinho a investida bruta do Sorraia. Faltou grupo a ajudar e o toiro despejou com violência o forcado. Na segunda tentativa, novamente o João esteve enorme, mas agora com o grupo a ajudar com decisão consumou uma boa pega com o público rendido e de pé a aplaudir tamanha valentia.

Fechou a corrida António Tomás à primeira tentativa, numa pega tecnicamente perfeita.

Havia um prémio em disputa para a melhor pega (júri composto por Miguel Palha, Carlos Alberto Casquinha e Jorge de Carvalho) que foi parar as mãos de João Prates, dos Amadores de Coruche.

Dirigiu a corrida João Cantinho, assessorado pelo médico veterinário Jorge Moreira da Silva.

Síntese da corrida:

O cavaleiro David Gomes tomou a alternativa de cavaleiro profissional lidando o toiro "Urze", com o nº 76 e 490 kg.

Ganadaria: Toiros da ganadaria Vale Sorraia, bem apresentados, encastados no geral com destaque para o primeiro e terceiro da corrida.

Cavaleiros: António Ribeiro Telles (volta e volta com chamada aos médios); Luís Rouxinol (volta e volta); David Gomes (volta e volta)

Forcados: Amadores de Vila Franca - Vasco Pereira (volta); Francisco Faria (volta) e Márcio Francisco (volta com o primeiro ajuda com chamada aos médios). Amadores de Coruche - Miguel Raposo (volta); João Prates ( duas voltas) e António Tomás (volta)

*As voltas à arena no final das lides são concedidas pelo diretor de corrida como prémio à qualidade da performance artística dos intervenientes ou pela bravura dos toiros.

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