Um congresso sem Citroëns

Arranca hoje em Espinho o 36.º Congresso do PSD

O 36.º Congresso do PSD arranca hoje em Espinho, morno, e sem a perspetiva de que aqueça. Os mais críticos nos últimos tempos (Rui Rio e Morais Sarmento) não vão estar presentes, há posicionamentos envergonhados (Paulo Rangel e Luís Montenegro), numa reunião que vai ser marcada pela tentativa de rejuvenescer o PSD como potência autárquica.

A nível de doutrina, a ideia é regressar à social-democracia de Sá Carneiro, ainda que com nuances herdadas dos tempos de austeridade (como o rigor financeiro, o cumprimento das metas do défice, o pagamento da dívida, etc.)

As moções temáticas também dão pistas sobre uma das grandes preocupações do congresso: a preparação para as autárquicas de 2017. A moção dos Autarcas Sociais Democratas sugere, aliás, que não existam os tradicionais paraquedistas (autarcas que transitam de um município para o outro por atingirem limite de mandatos ou por serem mais mediáticos).

Na moção global de Passos também é assumido o objetivo de voltar a ter um maior número de autarquias e recuperar a liderança da Associação Nacional de Municípios Portugueses.

Ontem, Paulo Rangel veio mostrar-se inquieto, dizendo - em entrevista ao Público - que após as presidenciais o partido deveria "estar numa postura mais interventiva e agressiva, uma oposição mais forte em vários domínios".

Logo de seguida, o líder parlamentar, Luís Montenegro veio reagir para contrariar Rangel, dizendo que não crê que "o fator essencial da oposição seja ser mais ou menos agressivo". Montenegro acredita que "o país exige do PSD uma oposição séria, responsável, construtiva, ativa, que assinale os erros, as omissões, os desvios que o governo vai apresentando e que, simultaneamente, vá constituindo uma alternativa de confiança". Este é também um congresso de ausências. O ex-líder Marcelo Rebelo de Sousa não vai porque é Presidente da República. Rui Rio não vai porque ainda não é a sua hora de avançar. E Marques Mendes não suspende o seu papel de comentador político. Este é também o primeiro congresso após o fim da vida política de Cavaco Silva. A ideia de uma homenagem com pompa e circunstância irritou Passos Coelho e foi afastada. Mas haverá certamente palavras de apoio ao ex-presidente. Mesmo que, após Passos ser eleito por 95% dos votos, não seja ainda tempo de fazer rodagens a Citroëns.

O inquieto

Paulo Rangel

Foi o último opositor de Passos em diretas, mas depressa se foram esvaziando os rangelistas. O próprio Rangel aproximou-se de Passos, que o convidou para ser cabeça de lista nas europeias de 2014. Mesmo sem tropas e sem se assumir como alternativa, Rangel consegue mexer com o partido quando fala. Ontem, deu um puxão de orelhas à direção, dizendo que já desde as Presidenciais que o PSD deveria ter iniciado uma oposição mais "agressiva" ao governo. Diz que Passos é o melhor líder por agora, mas lá vai lançando as suas farpas. No congresso vai marcar terreno para o futuro, como se percebe nas entrelinhas da entrevista dada ontem ao Público. Rangel diz-se "inquieto".

O Maestro

Marco António Costa

É o homem do aparelho e, com a saída de Miguel Relvas dos órgãos nacionais (o que não significa necessariamente menos influência), consegue alargar ainda mais a sua margem de influência. Marco António Costa controla a estrutura, mas perdeu espaço com a chegada de Passos, ao deixar de ser o coordenador político. Os processos judiciais que andam em torno da autarquia de Vila Nova de Gaia ensombram o percurso de Marco António no PSD. Recentemente foi chamado a depor como testemunha e houve em tempos uma denúncia contra si (para a qual não foi, até agora, constituído arguido). Embora fragilizado, controla o aparelho e tem a confiança de Passos.

O desafiante

José Eduardo Martins

Mais novo do que Passos Coelho, o antigo secretário de Estado do Ambiente de Durão Barroso vai posicionar-se para o futuro. José Eduardo Martins, que Passos Coelho nunca acolheu nas suas listas de deputados à Assembleia da República, fará um discurso crítico no congresso laranja. A "social democracia sempre" do líder do partido tem de ser testada com novas ideias e propostas para o futuro, dirá aos congressistas. Aquele que também foi vice-presidente de Manuela Ferreira Leite será, muito provavelmente, a voz mais desafinada em Espinho. Mas nunca a ponto de desafiar a legitimidade de Passo, que ganhou as diretas com mais de 95% dos votos dos militantes.

O ausente

Rui Rio

Não avançou para Belém e continua como uma espécie de reserva do partido para o pós-Passos. Chegou a ter uma plataforma que o apoiava para a liderança do PSD, mas depois sonhou com Belém. Ao congresso não vai, o que se sabe desde 5 de março, já que não integrou nenhuma lista de delegados ao congresso. Ainda assim, deu uma entrevista a dizer que não ia à reunião magna para não correr o risco de "ser um elemento central do congresso" e para "não perturbar". Ao assumir que seria um elemento desestabilizador, Rio (que tem elogiado ações de Costa e Marcelo) sugere que seria crítico se fosse ao congresso. Continua em cena para o pós-Passos.

O anfitrião

Luís Montenegro

O líder parlamentar Luís Montenegro tornou-se a segunda figura do partido após as legislativas, já que a ação política do país passa muito pela Assembleia da República. Conseguiu que o congresso se realizasse na sua terra (Espinho) e, embora se assuma como fiel apoiante de Passos, tem protagonizado alguns focos de tensão com o líder, vistos como um posicionamento para o futuro. Ontem, marcou terreno ao vir responder a Paulo Rangel sobre a inação do partido na oposição. Montenegro veio dizer que, ao contrário de Rangel, considera que a oposição não deve ser agressiva. Disse não querer "polemizar", mas marcou terreno para o congresso e para o futuro.

O desistente

Miguel Relvas

Aquele que foi o braço direito de Passos Coelho no partido e nos primeiros anos do governo de coligação vai retirar-se dos órgãos do partido por vontade própria. Miguel Relvas, que tem andado muito arredado da política ativa, comunicou antecipadamente a Passos a vontade de deixar de integrar o Conselho Nacional do partido. O líder surpreendeu o partido quando no último congresso do Coliseu, em Lisboa, o convidou para encabeçar aquele órgão na lista que apoiou. Relvas tinha saído do governo de forma intempestiva e deixado transparecer publicamente todo o azedume contra a forma como foi gerido o caso da sua licenciatura. Sai agora depois de se ter reconciliado com Passos.

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Quem ameaça a União Europeia?

Em 2017, os gastos com a defesa nos países da União Europeia tiveram um aumento superior a 3% relativamente ao ano anterior. Mesmo em 2016, os gastos militares da UE totalizaram 200 mil milhões de euros (1,3% do PIB, ou o dobro do investimento em proteção ambiental). Em termos comparativos, e deixando de lado os EUA - que são de um outro planeta em matéria de defesa (o gasto dos EUA é superior à soma da despesa dos sete países que se lhe seguem) -, a despesa da UE em 2016 foi superior à da China (189 mil milhões de euros) e mais de três vezes a despesa da Rússia (60 mil milhões, valor, aliás, que em 2017 caiu 20%). O que significa então todo este alarido com a necessidade de aumentar o esforço na defesa europeia?