Um bravo de Condessa de Sobral vence em Évora

O crítico taurino Miguel Ortega Cláudio faz a crónica da corrida de sábado, em Évora, onde seis toiros saíram a concurso

A Arena de Évora é santuário de culto, de obrigatória peregrinação de todos os aficionados, sempre que ali se anuncia o Concurso de Ganadarias - "O mais antigo e de maior prestígio em Portugal". Assim foi no sábado à noite, dia 19 de maio. A praça teve o seu aforo coberto nas suas três quartas partes, na sua 59ª edição.

Foi rendida homenagem, com um sentido minuto de silêncio, a duas grandes figuras da nossa Festa, recentemente desaparecidas: João Nunes Patinhas e António Manuel Cardoso. No início da corrida também foi entregue a Bernardo Patinhas e Inês Patinhas uma lembrança em homenagem ao pai, fundador dos Amadores de Évora, falecido no passado dia 1 de fevereiro.

Saíram à arena seis toiros a concurso, que disputavam os prémios de Bravura e Apresentação: Calejo Pires, Condessa de Sobral, Canas Vigouroux, António Silva, Pinto Barreiros e Branco Núncio.

O primeiro da corrida ostentava o ferro de Calejo Pires, marcado com o 5 na espádua, negro de capa e com 580 kg. Tinha pouca cara, foi nobre, teve som e recorrido nos capotes, mas foi manso e distraído para a lide a cavalo.

O segundo foi um "colorado". Bonito de tipo, com 565 Kg, tinha o ferro de Condessa de Sobral. Foi nobre, bravo, com muitas virtudes, galopou com alegria, foi pronto aos cavalos e humilhou nos capotes. Saiu com nobreza para o forcado.

O de Canas fechou a primeira parte da corrida. Um castanho rematado, muito bem apresentado, tinha 575 Kg. Foi um toiro que se mostrou algo condicionado de forças, o que não lhe permitiu mostrar tudo o que levava dentro. Foi nobre, nunca humilhou e veio a menos.

O Silva era um "Tio", com cara, grande, negro zaino de pelagem, com 585 Kg. Toiro que foi sério, mas desde cedo mostrou as suas intenções... Rachado e procurar tábuas.

O quinto era um taco, baixo, bonito, com a cara algo acapachada, castanho chorreado de pinta e deu na balança 568 Kg. Foi nobre, teve som, mas faltou-lhe romper algo mais, os médios foram os seus terrenos de luta. Bom toiro!

Fechou a corrida o toiro de Branco Núncio, com 570 kg. Foi a par do primeiro, um dos de menos cara da corrida. Teve raça, pedia muita ligação por parte do cavaleiro, quando se lhe fizeram as coisas bem feitas foi um bom toiro!

Luís Rouxinol encabeçava o cartel de sábado em Évora, pela frente de duas figuras da nova vaga, mas nem por isso se deu por vencido, antes pelo contrário. Ao lado dos mais novos, deixou bem vincada a importância e a força da sua carreira e da sua tauromaquia. É um toureiro bravo e dos que não perdem, nem a feijões.

O seu segundo toiro era um "tio" de António Silva e Rouxinol cantou, pôs a carne no assador, lidou e toureou com a experiência que o caracteriza e o saber de três décadas a marcar a nossa tauromaquia. Não precisa já de provar nada, mas é um toureiro de uma honestidade sem fim e de um profissionalismo que impressiona. Sem uma pera doce pela frente, pelo contrário, não tinha precisão de terminar com um ferro de palmo e ainda com um par de bandarilhas - mas fê-lo.

Victor Ribeiro, cavaleiro que fazia ontem a sua reaparição após duas temporadas paradas, denota, nos mínimos pormenores, a arte diferente que o distingue. É um toureiro de raça - e de risco. Mas é também um toureiro de momentos, de bonitos detalhes e de pormenores. Lidou seu lote com a garra e a raça que o têm caracterizado ao longo da sua carreira, com a verdade e o saber com que sempre faz gala em se exibir. Deixou ferros de grande emoção, rematados com recortes de bom gosto, que o público aplaudiu. Duas boas atuações.

Marcos Bastinhas, com dois toiros distintos, numa corrida importante e que antecede outros grandes compromissos que tem pela frente na temporada. No primeiro toiro andou um tanto mais discreto do que no que fechou praça. Bastinhas saiu para triunfar diante do sexto e mostrou a sua raça habitual, desenvolvendo uma lide que chegou ao público que não lhe regateou os aplausos.

Quando se anuncia um Concurso de Ganadarias, regra geral, a tarde ou noite é séria para os "rapazes das jaquetas das ramagens" e Évora não foi exceção disso! Os Amadores de Montemor e de Évora foram os grupos convidados para pegarem esta corrida de tanta tradição em Portugal.

Abriu praça o consagrado Francisco Bissaia, que à segunda tentativa se fechou num exemplar fechado de cara que dificultava e de que maneira a reunião. Nesta pega, António Pena Monteiro deu uma superior ajuda.

Um forcado de eleição saltou para a cara do terceiro, Francisco Borges. Toiro que não humilhava, derrotava alto e que vinha descoordenado para o forcado, Francisco foi quatro vezes à cara do toiro mostrando sempre uma vontade enorme de lhe ficar na cara.

João da Camara fechou a atuação dos Amadores de Montemor à segunda tentativa, numa boa pega.

Abriu a noite, pelos Amadores de Évora, António Torres Alves. Jovem valor, que à primeira tentativa se fechou na sua estreia, numa corrida desta importância.

Para a quarta pega, ao sério toiro Silva, saltou à arena o cabo dos Amadores de Évora - João Pedro Oliveira. O toiro derrotava alto e forte e João mostrou a raça de que é feito, mostrando uma alma enorme, indo três vezes à cara do toiro.

Ricardo Sousa fechou a noite numa boa pega à primeira tentativa, num toiro que não se via fácil.

Em disputa estavam os prémios de Bravura e Apresentação. Foram júris os próprios ganaderos que decidiram atribuir a Bravura ao exemplar marcado a fogo com o Nº 52, "colorado" de capa da Ganadaria Condessa de Sobral e a apresentação ao toiro de Pinto Barreiros.

Dirigiu a corrida Marcos Gomes, assessorado pelo médico veterinário Carlos Santana.

Síntese da corrida

Toiros: Concurso de Ganadarias - Calejo Pires (com classe, mas mansote); Condessa de Sobral (Bravo); Canas Vigouroux (nobre e a menos); Silva (difícil); Pinto Barreiro (nobre); Núncio (encastado).

Cavaleiros: Luís Rouxinol (Volta e Volta); Victor Ribeiro (Volta e Volta); Marcos Bastinhas (Volta e Volta)

Forcados: Amadores de Montemor - Francisco Bissasia Barreto (Volta); Francisco Borges (Ovação); João da Câmara (Volta); Amadores de Évora - António Torres Alves (Volta); João Pedro Oliveira (Volta); Ricardo Sousa (Volta).

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