Turismo e melhor oferta fazem crescer consumo nacional de vinhos

Portugal foi, pela primeira vez, o primeiro mercado em valor de vinho do Porto. E há vinhos certificados a crescer também

Desde 1963 que França era o principal ponto de venda do vinho do Porto. Em 2017 aconteceu a grande mudança com Portugal a tornar-se o primeiro mercado deste vinho do Douro em valor -73 milhões de euros -, já que em quantidade permanece a França como o principal consumidor, com mais de 26 milhões de garrafas. O turismo é inegavelmente um dos fatores, mesmo o principal, que explicam esta mudança, mas, aponta Manuel Cabral, presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), não é o único. Os efeitos dos visitantes estrangeiros em Portugal também são muito positivos para os vinhos nacionais certificados. Regiões como a península de Setúbal, o Dão ou os Vinhos Verdes aliam crescimentos excelentes nas exportações do ano passado a uma cada vez maior implantação no consumo nacional.

Portugal tem altos hábitos de consumo de vinho. Segundo a Organização Mundial da Vinha e do Vinho, é o país com maior consumo per capita, com 4,5 milhões de hectolitros em 2017. Não é novidade este hábito português de liderar as estatísticas de consumo de vinho e com o turismo em massa no nosso país o padrão mantém-se.

"O mercado nacional tem vindo a ganhar força nos últimos seis anos. Empiricamente sabemos que o turismo é muito importante para estes resultados", disse ao DN Manuel Cabral, que preside ao IVDP, embora realçando que "não há nenhuma análise" sobre o volume de vinho consumido por turistas "mas salta à vista e falamos de milhões de pessoas que têm visitado Portugal nos últimos anos. Basta pensar que só as caves do vinho do Porto recebem mais de 1,3 milhões por ano". Mas vende-se vinho do Porto em todo o país.

A presença de visitantes não é o único fator. O comércio passou a dedicar mais atenção ao país. "A oferta era feita a pensar nos mercados internacionais, as empresas não valorizavam o produto em Portugal", lembra Manuel Cabral. "Há agora um redobrado interesse dos portugueses no vinho do Porto, há um consumo mais interessado e conhecedor." Para ser o mercado com maior valor, é preciso ver que no vinho do Porto "o preço médio é elevado em Portugal", situa-se nos 5,8 euros contra os cinco euros a nível global e 3,70 em França,.

Para se adaptar ainda mais ao mercado atual, o Conselho Interprofissional do Douro aprovou já a redução do teor de álcool nos Porto genérico (tawny, ruby, brancos e rosé) para um mínimo de 18 graus (era 19) e baixou o stock mínimo exigido aos comerciantes para 75 mil litros em vez dos 150 mil litros. "Isto permite novos players, novos produtos", aponta Manuel Cabral. O volume comercializado tem baixado na última década.
Nos vinhos do Douro com denominação de origem protegida (DOP) o crescimento "é brutal, ao nível dos dois dígitos por ano", aponta o presidente do IVDP. Há também aqui um conjunto de fatores, desde a qualidade da oferta "até à notoriedade que os vinhos têm tido a nível internacional não só nas revistas da especialidade mas também em meios mais generalistas. Isso repercute-se cá".


Otimismo para o futuro
Nos vinhos DOP, e também nos IGP (indicação geográfica protegida), há crescimento nacional. Os números de 2017 e do primeiro trimestre de 2018 do Instituto do Vinho e da Vinha indicam que regiões como a península de Setúbal, Lisboa, o Dão e os Vinhos Verdes estão a crescer a nível nacional, acompanhando as exportações.

Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal", disse ao DN que "os últimos dois anos foram de grande crescimento". O "turismo tem aumentado muito e isso é um fator decisivo", reconhece. "No nosso caso, a tendência é geral: dispararam as exportações e temos crescimento excelente a nível nacional." O moscatel é a referência, mas em volume são os tintos e os brancos que dominam.

"Muitos portugueses não têm noção de que os vinhos de Setúbal são dos mais vendidos a nível nacional", diz Henrique Soares, convencido de que a produção tem capacidade para mais oferta.

No Dão, Arlindo Cunha, presidente da CVR do Dão, tem um discurso semelhante. "Esta é uma região histórica, com 110 anos, e que viveu um processo de recuperação excelente. Nos últimos cinco anos, os vinhos certificados tiveram uma performance notável, com aumento de 50% nas vendas. Há mais e melhor oferta. O Dão era conhecido pelos tintos e agora também está a ser descoberto pelos brancos", diz o ex-ministro da Agricultura. O turismo é muito importante. "São milhões de pessoas. No enoturismo, na restauração, há negócio e fazem depois a promoção lá fora", afirma, convencido de que a boa relação qualidade-preço impulsiona ainda mais a procura.

Mais certificados
> O mercado nacional, incluindo distribuição e restauração apresenta em 2018, até março, um ligeiro decréscimo (-0,4%) na compra de vinho. Alentejo e vinhos certificados são os que mais perdem. Vinhos certificados aumentaram as vendas em volume, em 6,9%, tendo crescido em valor (+6,5%), segundo dados da consultora Nielsen, tratados pelo Instituto do Vinho e da Vinha.

Mais volume e valor
> Em 2017 o mercado nacional comprou maior quantidade de
vinho (+3,2%). O valor gerado pelas vendas aumentou 5,2% tendo o preço médio registado uma subida (+1,9%). Vinhos certificados aumentaram as vendas em volume, em 1,6%, e em valor (+5,7%).

Variações em 2018
> No primeiro trimestre deste ano, os vinhos não certificados mantêm-se como os mais vendidos, mas com menos 1,8 milhões de litros face a 2017. Os vinhos do Alentejo perderam 4,4% mas são os segundos do mercado, enquanto Douro, Setúbal, Dão e Minho (Verdes) são dos que mais crescem.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Almeida Moreira

Bolsonaro, curiosidade ou fúria

Perante um fenómeno que nos pareça ultrajante podemos ter uma de duas atitudes: ficar furiosos ou curiosos. Como a fúria é o menos produtivo dos sentimentos, optemos por experimentar curiosidade pela ascensão de Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita do PSL em quem um em cada três eleitores brasileiros vota, segundo sondagem de segunda-feira do banco BTG Pactual e do Instituto FSB, apesar do seu passado (e presente) machista, xenófobo e homofóbico.