"Todos os ciclos da minha carreira foram desafios"

A antiga ministra da Educação, que hoje toma posse como a primeira mulher reitora do ISCTE, garante que o regresso à vida política é hoje um assunto que nada lhe diz.

Em relação às funções que acaba de assumir, Maria de Lurdes Rodrigues pretende concretizar a promessa de mudança que lhe valeu a eleição e quer promover diálogo entre universidades.

É a primeira mulher reitora do ISCTE e é a primeira vez que Portugal tem, em simultâneo, três mulheres a liderarem instituições universitárias. Que significado atribui a estes factos?

Atribuo muita importância à participação das mulheres em todas as esferas da vida pública, política, profissional e económica. Há uma razão simples para isso: em todo o mundo as mulheres representam mais ou menos metade da população. Não podemos aceitar processos e mecanismos que excluem as mulheres, isto é, metade da população, dos espaços de decisão que respeitam a todos os cidadãos. Sobretudo nos dias de hoje, em que as mulheres têm iguais condições de qualificação e competência para o desempenho de funções de responsabilidade.

A eleição para reitora surgiu após uma polémica em torno da avaliação de desempenho que recebeu, onde foi penalizada por não ter entregado atempadamente documentação. Houve alguma relação entre esse episódio e a sua candidatura?

Sobre esse tema gostava de dizer o seguinte: é muito importante que as instituições de ensino superior instituam mecanismos de avaliação do desempenho docente. Não havendo modelos perfeitos, é necessário manter uma atenção permanente aos processos de concretização da avaliação. A melhor forma de defender a avaliação do desempenho docente é promover continuadamente a sua melhoria.

Após ter sido eleita, definiu a votação como a expressão de um desejo de mudança no ISCTE. Quais são as mudanças que quer implementar?

Completou-se um ciclo longo, de 12 anos, sob orientação do reitor cessante. O resultado das eleições para o Conselho Geral, que antecederam a minha eleição, revelou uma vontade de mudança por parte de uma clara maioria de docentes. Foi esta maioria de docentes que apoiou a minha candidatura. Os compromissos de mudança na minha candidatura são no sentido de promover um funcionamento da instituição com respeito pela autonomia dos órgãos académicos e pelo pluralismo interno. São compromissos com o reforço do papel do ISCTE-IUL nos planos nacional e internacional.

No que depender de si, o regime fundacional será para manter no futuro? Tem trazido benefícios ao ISCTE?

O RJIES [Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior], no quadro do qual se define o regime fundacional, necessita de ser avaliado nos termos previstos no próprio diploma que o instituiu. As universidades que beneficiam do estatuto fundacional podem certamente dar um importante contributo para essa avaliação e posterior melhoria incremental.

O anterior reitor do ISCTE apostou fortemente na vertente da internacionalização, nomeadamente através da captação de alunos estrangeiros. Esta aposta é para manter?

A internacionalização das atividades de ensino e de investigação é um desafio para todas as instituições do ensino superior. Para além da estratégia de desenvolvimento de cada uma das instituições, é muito importante a cooperação interuniversitária e a colaboração com instituições como as câmaras municipais, o governo e outras instituições que possam participar no esforço de promoção da imagem externa do nosso sistema de ensino superior.

Diria que este é o maior desafio da sua carreira até ao momento ou esse foi, sem dúvida, o período em que desempenhou funções como ministra da Educação, entre 2005 e 2009?

Todos os ciclos da minha carreira profissional e política foram em si mesmos desafios. Todos foram importantes e todos tiveram em comum a mobilização do estudo, do conhecimento e da informação na tomada de decisão.

Abandonou funções no ministério há quase uma década, em clima de crispação com os sindicatos, que deverão voltar à greve na próxima semana. Diria que alguns dos problemas na Educação não mudaram desde que foi ministra?

Em cada ciclo político há problemas novos e problemas de natureza estrutural cuja resolução exige tempo e persistência. Em matéria de política educativa, os desafios continuam a ser o da redução das desigualdades escolares e do insucesso, bem como o da promoção da qualidade do ensino para todos.

Se tivesse de escolher uma marca que deixou com a sua passagem pelo Ministério da Educação, qual seria?

Não gosto muito dessa ideia de deixar marcas nos sítios por onde passamos. Diferente é dizer-lhe que, de entre as inúmeras de medidas de política que foram lançadas e concretizadas sob minha responsabilidade, gosto de recordar o Programa Novas Oportunidades, a generalização dos cursos profissionais no ensino secundário, a requalificação e modernização das escolas secundárias, a introdução do ensino do inglês no primeiro ciclo e a escola a tempo inteiro.

Equacionaria voltar a desempenhar funções governativas ou esse é um capítulo definitivamente arrumado?

Hoje, é um assunto que nada me diz.

Em 2011, o Ministério Público acusou-a de prevaricação na concessão da inventariação da legislação do ministério ao advogado João Pedroso. Veio a ser absolvida pelo Tribunal da Relação, em 2014. Mas esses quase três anos, com uma condenação em primeira instância pelo meio, foram os mais difíceis da sua vida pública?

Não costumo fazer balanços desse tipo. O que lhe posso dizer é que nesses três anos, e em rigor no período mais alargado entre 2010 e 2018, desenvolvi no ISCTE-IUL um intenso trabalho de lançamento e consolidação de uma nova área interdisciplinar de Políticas Públicas, nas diferentes dimensões de ensino, de investigação, de publicação e de ligação à sociedade.

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