Todos à espera da "forma diferente" como Rio fará política

A expectativa é grande em torno da união no partido e a escolha para liderar o grupo parlamentar. Hugo Soares não tenciona demitir-se

A menos de um dia da eleição de Rui Rio, o partido já está à espera que um "tempo novo" e de uma "nova cultura política", seja na vida interna do PSD seja na oposição ao governo. Quem está com o novo líder confirma que será assim.

É o caso de Manuel Castro Almeida, antigo secretário de Estado e autarca, que integrou a comissão de honra de Rio, que afirma que na "alternativa de governo" anunciada pelo novo líder do partido terá sempre como orientação geral a defesa do interesse do país. "Tanto se defende a alternativa concordando com o que está bem como discordando do que está mal", afirma antigo secretário de Estado e ex-autarca de São João da Madeira. "O próprio presidente disse que se irá abrir um novo ciclo", reforça o eurodeputado Paulo Rangel, que ponderou avançar para a corrida à liderança do PSD.

Marques Mendes, na SIC, também elegeu a criação de uma alternativa de governo como a principal tarefa de Rio, mas avisou: "Tem de evitar o discurso do diabo" e mostrar "ambição e espírito reformista". A recuperação do partido nas sondagens tem de ser já, defende o antigo líder laranja, não pode esperar por 2019, sob o risco de o PSD perder as legislativas ou oferecer uma maioria absoluta ao PS.

Muitas figuras sociais-democratas, sobretudo das alas santanistas, não quiserem falar. Uns alegaram não querer "estar a condicionar o novo líder", outros ser "prematuro", outros ainda por entenderem que "o silêncio é a melhor opção até serem conhecidas as posições" de Rui Rio em relação ao que pretende fazer na gestão interna, designadamente com o "clube de amigos" e a "agremiação de interesses individuais" a que se referiu no seu discurso de vitória.

"Rui Rio tem uma forma muito diferente de fazer política daquilo que é considerado habitual. Por muito que façamos prognósticos, as suas decisões podem ser completamente ao contrário do que possamos estar a pensar. Vai ser a partir, disso não temos dúvida", sublinha um deputado que preferiu o anonimato.

A escolha do líder parlamentar será um dos primeiros sinais que Rio dará ao partido sobre como vai fazer a gestão interna. "É preciso ver se vai unir, chamar santanistas, ou se vai fazer como quer o Pacheco Pereira e desatar a excluir quem tem ideias diferentes", assevera um deputado. Lembra que, com um grupo parlamentar maioritariamente apoiante de Santana Lopes, não haverá muitos nomes que possam reunir os três requisitos cumulativos de um presidente de bancada: ser um bom deputado, estar em concordância política com a direção e ter o respeito dos colegas, uma vez que o líder é eleito pelos deputados. Fernando Negrão (que apoiou Santana), António Leitão Amaro ou Luís Marques Guedes (ambos apoiantes de Rio) podem ser opções para Rui Rio.

Paulo Rangel e Castro Almeida não anteveem problemas no relacionamento de Rui Rio com uma bancada parlamentar que foi escolhida por Pedro Passos Coelho. "Se há pessoa que sabe bem como funciona o grupo parlamentar, é Rui Rio, que foi um deputado com muito relevo. Foi conhecido como o "senhor orçamento" durante muito tempo", recorda Rangel. A que castro Almeida lembra a tradição de a bancada alinhar com a estratégia de todos os líderes. Marques Mendes entende que a escolha de um líder parlamentar "de confiança" é crucial para a eficácia do partido na oposição, tanto mais que Rui Rio agora não é deputado. "Neste quadro, acho que Hugo Soares, que até apoiou Santana Lopes, deve pôr de imediato o seu lugar à disposição."

"Nestes próximos dias, até ao congresso, vai haver muitas muitas conversas para saber até que ponto pode ir a eficácia do grupo parlamentar em sintonia com a direção do partido", sublinha David Justino, mentor da moção estratégia de Rui Rio. O ex-ministro da Educação refuta que Rio pretenda criar conflitos. "Os conflitos são como os tangos, são precisos dois. Não há interesse de Rui Rio abrir guerras." No entanto, avisa, "se alguém quiser conflitos, não terá problema em enfrentá-lo".

Castro Almeida defende que Rui Rio terá de "incluir nas equipas dirigentes do partido pessoas com mérito que apoiaram a outra candidatura". A solução reforçada para unir o partido "é pelo trabalho, pela ação. O partido fica mais desunido quando não tem causas".

Fernando Negrão considera que "é muito cedo para prognósticos" porque Rui Rio "tem uma visão da política diferente dos políticos tradicionais. Corta a direito e nesta altura não sabemos quais vão ser as suas opções e as suas escolhas". Negrão, que se assume "confortável" no grupo parlamentar, sublinha que "o futuro do PSD vai começar a ser construído rapidamente, até porque temos as eleições legislativas e europeias nos próximos dois anos".

Para Duarte Marques, deputado e também "santanista", "o adversário agora chama-se António Costa", e quanto a conflitos, "quem ganhou ganhou e agora é momento de unir. Quem foi vitorioso tem de saber ser vitorioso, quem perdeu tem de saber perder".

Nem Nuno Morais Sarmento, mandatário nacional de Rio, nem Paulo Mota Pinto, presidente da comissão de honra, quiseram falar ao DN. Um dos elementos da estratégia política da campanha adiantou, porém, pedindo anonimato, que "não há motivo para preocupações de guerras ou conflitos. A partir do congresso o partido vai estar unido, Rui Rio é inteligente, não se deixa condicionar, e escolherá os melhores para trabalhar consigo. Se há coisa que todos sabem é com o que podem contar. Autenticidade é uma das suas qualidades e parte para a presidência do partido com um capital político de credibilidade". Este atual dirigente acredita que será "uma lufada de ar fresco no partido e no país".

E o seu papel na oposição será qual? Qual o maior desafio no combate a António Costa? "O grande desafio é desmontar a ideia que está instalada em Portugal de que o país está no rumo certo. É preciso crescer bastante mais", diz Castro Almeida.

Além da eleição do presidente, os militantes sociais-democratas elegeram também os delegados ao congresso. As listas de Santana terão obtido mais votos, segundo afirmaram ao DN várias fontes, embora ainda sem a confirmação oficial. A confirmar-se "será um cenário muito interessante", reflete um membro da atual comissão política. São os delegados que elegem os órgãos nacionais do partido. Esta fonte acredita que Rio "saberá certamente como gerir a situação e, pelo menos, será uma forma de o obrigar a dialogar".

O novo líder será recebido por Marcelo Rebelo de Sousa depois do congresso, que se realiza nos dias 16 e 18 de fevereiro. A audiência está agendada para dia 19 desse mês.

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