Tensão no PS. Manuel Alegre sai em defesa de Francisco Assis

Histórico socialista alerta os críticos de Assis de que o partido "sempre foi a favor da liberdade de expressão"

Em declarações, ontem, ao DN, o histórico do PS Manuel Alegre - desde sempre uma voz destacada na ala esquerda do partido - recordou que não concorda "com as posições de Francisco Assis nem com a sua proposta de realização de eleições antecipadas".

Contudo, acrescentou, que Assis "tem o direito de emitir a sua opinião e e de defender as suas ideias porque o PS sempre foi a favor da liberdade de expressão, dentro e fora do partido".

"Estou à vontade para o dizer porque sempre defendi convergências de esquerda, sempre apoiei uma solução deste tipo, sempre fui contra a ideia de arco da governação, mesmo muito antes de António Costa e da maior parte dos seus ministros e atuais dirgentes do PS."

Insurgindo-se contra o facto de a direção do PS, através de Pedro Nuno Santos, estar a desafiar Assis para debates internos no partido, Manuel Alegre recordou ainda que "no último congresso do partido, Francisco Assis foi o único que expressou as suas divergências". Acrescentando: "Como eu próprio fiz muitas vezes, quer em congressos, quer na Assembleia da República quer em declarações públicas."

Face às declarações de Assis, Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, desafiou-o a ir à próxima reunião da Comissão Política Nacional (CPN) do PS para, "entre camaradas, podermos discutir o atual momento político em Portugal".

Assis - disse ainda Pedro Nuno Santos - "conseguiu a proeza de se antecipar ao PSD e ao CDS no pedido de eleições legislativas antecipadas, o que a acontecer, efetivamente, como é fácil perceber, provocaria instabilidade política" e "isto quando o fator estabilidade política é a mais valia que Portugal apresenta no atual contexto europeu e mundial de elevada instabilidade".

"De facto, a atual solução de Governo não permite as reformas que a direita quer, como a privatização da Segurança Social. Se é dessas reformas que Francisco Assis está a falar, essas, na realidade, não são possíveis com este Governo - e não são possíveis não por causa do PCP ou do Bloco de Esquerda, mas porque o PS não as quer", sublinhou ainda, dizendo que "o segredo desta solução governativa é que as diferentes forças políticas conseguem entender-se em torno daquilo que é estruturante para a governação e para a estabilidade governativa" e "ao mesmo tempo, cada um dos partidos preserva a sua identidade política".

"A solução do atual Governo está tão sólida como no início da presente legislatura", garantiu, referindo a sua experiência pessoal como um dos principais responsáveis permanentes pelas conversações do Governo com o BE, o PCP e o PEV: "Trabalho todos os dias com o Bloco de Esquerda, PCP e "Os Verdes", sei o que estamos a trabalhar e sei que a intenção de todos é termos Governo até 2019."

Ontem, no Expresso, prosseguiu a troca de palavras entre Assis e Pedro Nuno Santos. Para o eurodeputado, a resposta do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares foi "ao nível do apparatchik estalinista de segunda categoria".

O facto de o BE e do PCP quererem chumbar no Parlamento a redução da TSU das empresas acordada na Concertação Social entre o Governo, o patronato e a UGT já levou também um deputado independente da bancada do PS, o economista Paulo Trigo Pereira, a falar na possibilidade de os socialistas apresentarem uma moção de confiança ao Governo.

O deputado apresentou este caso como o segundo representando uma divisão grave nas esquerdas - a primeira, no seu entender, foi quando o BE se juntou ao PSD e ao CDS para votar uma norma que obrigaria inapelavelmente os administradores da Caixa Geral de Depósitos a apresentarem no Tribunal Constitucional declarações de rendimentos e património. Segundo disse, a haver um terceiro caso deve ser ponderada uma moção de confiança - ideia a que o líder da bancada, Carlos César, respondeu que devem ser antes o PSD ou o CDS a apresentarem moções de censura.

Na quarta-feira, o Parlamento discutirá, por iniciativa do BE e do PCP, o decreto do Governo que diminuiu a TSU. Com o voto do PSD, tudo se prepara para que seja chumbado.

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