"Tenho visto falhar a vontade política e faltar alguma liderança"

Entrevista a Domingos Xavier Viegas coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra.

Quer o vosso relatório quer o da comissão independente nomeada pelo Parlamento apontam para falta de limpeza da EDP em torno das linhas de média tensão. Se não estou em erro, o vosso relatório diz que os dois fogos que tiveram na origem do incêndio de Pedrógão nasceram do contacto das árvores com as linhas. Acha possível a EDP vir a ser responsabilizada pelo que aconteceu em Pedrógão?

Isso não está na nossa mão. O que nos competia era dizer o que encontrámos. Fizemos isso com base em dados técnicos. Tivemos uma reunião com a EDP em Lisboa e chegámos à conclusão de que tínhamos de pedir outros dados. Esses dados vieram, analisámos, fomos até à subestação da Lousã, que é de onde sai a linha que alimenta esta área, e fomos esclarecidos com mais elementos. E dissemos aos técnicos da EDP, com toda a franqueza e com toda a transparência, que tínhamos essas suspeitas. Fico surpreendido que digam agora que o relatório causou grande surpresa porque uma das nossas preocupações é agir com lealdade.

A Polícia Judiciária terá feito mal por ter dito logo no dia a seguir ao incêndio que a culpa era de um raio, algo que é praticamente descartado no vosso relatório?

Não critico a Polícia Judiciária. Nós trabalhámos muito de perto com a PJ também neste aspeto da ignição. Quando começámos o trabalho tínhamos todas as hipóteses em aberto. Com os dados do IPMA afastámos a hipótese de uma descarga. A partir daí considerámos outras hipóteses: fogo posto, algum pirómano, algum meio aéreo. Ouvimos testemunhos de quem estava no local e fizemos trabalho de campo. Verificámos que há várias árvores em contacto com a rede elétrica. Tivemos o incidente de Regadas, a três quilómetros, e aí há um testemunho pessoal de alguém que viu o incêndio começar por baixo da linha. Parece-nos que são coincidências a mais. Há indícios claros, quer num caso quer noutro, de que o incêndio começou naquela área e, muito provavelmente, por contacto entre a linha aérea e a folhagem.

Falemos de investimento. A Galiza teve um ano terrível de incêndios em 1989, creio, e logo nessa altura foi criada uma estrutura própria, autónoma, no governo regional, com orçamento próprio para tratar não só da prevenção mas também do combate. É altura de começar a olhar para isto de forma mais séria, isto é, orçamentalmente séria, e deitar dinheiro para cima do problema?

Claramente é necessário investir mais dinheiro. Concordo que a Galiza fez esse esforço e conseguiu reduzir, mas não podemos ir atrás dessas medidas isoladas, porque podem ser bem-sucedidas durante anos, mas podemos apanhar um ano catastrófico como este e as coisas irem-se abaixo. Precisamos de algo mais estrutural e as nossas propostas vão no sentido de que haja alguma entidade que supervisione, que congregue esforços, que coordene todo o trabalho de prevenção e combate.

Via como útil ter uma estrutura hierárquica mais verticalizada, mais próxima daquela que é a estrutura de um exército em combate?

A Autoridade Nacional de Proteção Civil já propõe essa estrutura. Admito que, talvez por falta de uma estrutura formativa... vamos ver, nessas forças como a GNR, as forças armadas, têm uma academia e os oficiais passam por essa academia. Os bombeiros não têm isso. Pode ser comandante de bombeiros quem tem apenas uma experiência de alguns meses como bombeiro.

Não têm formação de liderança...

Absolutamente. Penso que falta em todo o sistema essa capacidade de dar formação aos nossos bombeiros. Por exemplo, uma academia de bombeiros como existe noutros países e que poderia formar esses tais quadros superiores, o que daria mais solidez a todo o processo.

Ao longo destes anos e há 30 que dedica boa parte do seu tempo a esta temática, falhou mais a prevenção ou mais o combate?

Aquilo que tenho visto é que o combate tem melhorado, tem feito o seu trabalho.

E não há sinais de que isso aconteça no lado da prevenção.

Não, pelo menos na parte das florestas e de tudo o resto que falámos hoje: autarquias, comunidades... aí tem havido falhas muito grandes.

E nos corpos de bombeiros, a sua profissionalização deveria permitir que participassem na prevenção, vulgo na limpeza, no ordenamento, ou que fossem uma espécie de entidade fiscalizadora?

Eu defendo que deva haver mais profissionais nos bombeiros. Mas estamos a esquecer uma força que temos no terreno, que são os sapadores florestais, esses sim são profissionais, são full time. Vivem na floresta, estão dedicados às florestas e deviam fazer esse trabalho. Não há necessidade de inventar novas coisas. Quanto a mim, esses sapadores não estão é bem organizados, bem enquadrados, bem formados. Mas se os bombeiros trabalharem em conjunto com eles podia potenciar-se tudo isto. Não é preciso pôr os bombeiros a fazer limpeza, já temos os sapadores, mas podem pôr-se os bombeiros a trabalhar em conjunto, a fazer, por exemplo, fogos controlados, sensibilização das populações, um trabalho que falta muito fazer. Ouço defender que se criem bombeiros florestais, de combate ao incêndio florestal. Conheço essa figura noutros países, mas tem sido uma confusão tremenda. Imagine o que seria ter um incêndio onde há casas por todo o lado. Quando o fogo estivesse a chegar ao pé das casas, "venham cá os bombeiros urbanos". Neste momento nós temos bombeiros que fazem tudo, que têm capacidade, têm treino. Quando não combatem o fogo na floresta é porque o fogo não pode ser defendido por uma questão de segurança. E se não é combatido por eles, dificilmente será combatido por outras pessoas.

Tem insistido muito na tecla da sensibilização das populações. Há uma entidade que tem andado muito no terreno, o Presidente da República, num contacto muito forte com as populações. Como tem visto o papel do Presidente nestes dias?

Tem sido extraordinário, tem superado aquilo que poderia esperar-se. Não sou comentador político, mas diria que este é um dos momentos altos desta Presidência . Está a mostrar uma sensibilidade muito grande para com o problema, a mostrar aos portugueses que eles existem, que não podem ser marginalizados como têm estado a ser e, neste caso, que alguém vai ter de olhar para eles.

Espera ver nesta atitude do Presidente uma espécie de ponto de ignição para o tal plano que é necessário fazer?

Espero que sim, porque é o que tenho visto falhar ao longo destes anos.

A vontade política...

Tenho visto falhar a vontade política, tenho visto faltar alguma liderança que vá por esse caminho. Tem havido picos, mas nada de continuidade.

* Com Arsénio Reis (TSF)

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