"Tenho a noção imodesta de que sou o melhor número dois do mundo. Falta-me é o número um"

Almoço com José Eduardo Martins

O restaurante não podia ser mais apropriado para um benfiquista militante como José Eduardo Martins. Na Adega da Tia Matilde, "um antro de benfiquistas", as referências ao rei Eusébio estão por todo o lado. Nas paredes, dezenas de fotografias assinalam as presenças do mais assíduo e famoso cliente e amigo do senhor Emílio. A mesa atrás de nós foi palco de milhares de tardes de histórias e conversas contadas pelo King na primeira pessoa. Desde que Eusébio morreu, mais ninguém se sentou ali e aqueles dois lugares transformaram-se em ponto de romaria para gente de todas as cores.

"Foi nesta mesa aqui atrás que o meu filho mais novo conheceu o Eusébio dois dias antes de ele falecer. Isto começou por ser uma taberna minhota em Lisboa, um sítio humilde, para gente pobre, que pela qualidade, pela simpatia das pessoas e por não estragar ingredientes bons consegue ter esta boa comida e hoje ter um perfil de clientela e de preço um bocadinho diferente. Mas é o sítio onde continuo a ser tratado com um amigo porque conhecemo-nos todos de Ponte de Lima e Paredes de Coura, e é um antro benfiquista, que é um grande credo meu. Pá, sinto-me aqui completamente em casa."

Sem esconder o nervoso miudinho por causa da última jornada do campeonato, José Eduardo Martins socorre-se de Javier Marías para proclamar, tal como o escritor espanhol, que "o futebol é o regresso semanal à infância". É por isso que amanhã faz questão de ir ao estádio com o filho mais novo "porque também é nestes dias que eles se fazem homens". Isto é, "será sempre justo para quem ganhar, porque quem ganhar somou mais pontos. Mas se o Sporting ganhar e nós perdermos a coisa no último momento, isso também é uma lição de vida e uma dor pela qual se passa para se crescer".

Enquanto esperamos pelo pato corado com arroz, "o melhor de Lisboa", José Eduardo vê passar umas pataniscas de bacalhau que o deixam com água na boca e mete uma cunha para ver "se há duas que estejam feitas" só para matar a gula. Bem dito, bem feito. Antes que o diabo vermelho esfregue um olho, as ditas aparecem em cima da mesa.

O menu da conversa tem vários ingredientes. O futebol, as empresas, a vida e a advocacia e, claro está, a política como prato principal. Mas já lá vamos. Apaixonado por música, aceitou há uns anos, quando deixou de ser deputado, o desafio de três amigos de Coura para trilhar os caminhos dos festivais de verão. Todos os anos, "fecho a loja no escritório" e ruma ao NOS Primavera Sound, no Porto, e a Paredes de Coura. "O único período em que desligo do meu e-mail e dos problemas da advocacia é na semana de Paredes de Coura. É uma semana das melhores que há. Uma semana passada com os meus filhos na terra onde estão os meus pais, com os meus amigos, de manhã à noite a cansar as pernas a subir e a descer a ladeira e a pensar noutra coisa. É uma semana de profunda felicidade." Tanta que nunca imaginou. "Uma vez, estava a meio do concerto do James Blake, no Primavera Sound - gosto de ver os concertos no meio das pessoas, sentado no relvado, com a minha cerveja -, e o som estava muito baixo. Pus-me ao telefone a rosnar com um amigo e sócio meu: "Pá! Falem com o engenheiro de som, porque isto está insuportável. As pessoas cá no cimo da colina não estão a ouvir. Isto está baixo de mais." Toda a gente concordou e o volume do som subiu um bocadinho. E um tipo que está atrás de mim, que não me conhece de lado nenhum, abraça-me por trás e diz: "Eh pá! És o gajo mais importante que eu conheço" [risos]. E eu dei uma gargalhada e disse para mim: caramba! 20 mil pessoas felizes ao mesmo tempo com um telefonema. Alguma coisa terei feito na vida que tenha deixado tanta gente feliz ao mesmo tempo? Duvido muito."

Apesar de melómano, não toca nenhum instrumento. Vai agora aprender guitarra à boleia do filho. Mas a grande frustração de José Eduardo Martins é não saber cantar. "Tenho esta voz de padre que não serve para cantar [risos], o que é uma coisa chata. Adorava saber cantar. Mas, por amor de Deus, isto não dá para discursar, quanto mais para cantar [risos]. E depois é uma coisa tenebrosa, porque as pessoas acham sempre que eu tenho um sotaque beirão. E eu digo: não! Eu tenho é um desvio no septo nasal [risos]."

O pato já vai a meio e faz jus ao pregão de ser "o melhor de Lisboa". É tempo de falar de política. Crítico de Pedro Passos Coelho, não é novidade, foi ao último congresso do PSD dizer o que pensa. "Esta deriva à direita é mais construída no imaginário de alguns blocos que aproveitaram o vazio de um certo aparelho, nos últimos anos, para tentar entrar dentro do PSD e transformá-lo num partido que, sendo uma mistura de várias coisas, nunca pareceu - e acho que parece mais do que é - tão à direita como é agora. Apesar de tudo, o partido verdadeiro, o partido dos homens bons, concelho a concelho, que são a verdadeira força do PSD - muito mais do que os bloggers neoliberais -, esse PSD continua a existir. E não gosta de ser visto apenas como um partido direitola, apenas e só neoliberal, como o querem apresentar."

A culpa, diz José Eduardo, é da circunstância de "termos um líder absolutamente voluntarioso, determinado, estruturalmente sério mas que se acha muito autossuficiente e tem grande dificuldade em construir equipas. Para aqueles, como eu, que têm da política uma visão de equipa, uma visão crucial de que a dialética, mesmo entre pares, é o que nos faz crescer e ser fortes, mas o Pedro, de todo, não cultiva isso. E isso torna a vida do PSD um bocadinho mais difícil. Este último congresso em que basicamente só eu destoei não é o PSD. Não é o normal do PSD e nisso, enfim, tem tanta culpa o Pedro como os outros, que também têm faltado à chamada". Na fase pré-congresso chegou a falar-se de uma possível candidatura de oposição a Passos Coelho, encabeçada pelo próprio José Eduardo Martins, que acabou por não acontecer. "Não me candidatei por várias razões. A primeira é porque não tenho decidido na minha cabeça se me acho suficiente para o lugar. Mas mesmo que tivesse vencido essa barreira e que na minha cabeça eu tivesse a autoestima que outros não hesitam em manifestar em sucessivas entrevistas sem depois aparecerem a fazer rigorosamente nada..." Interrompo porque o destinatário me parece claro: Nuno Morais Sarmento. "Estou a falar de vários que dão sempre entrevistas nas vésperas do congresso. Parece que é como dantes, em que era preciso fazer prova de vida para receber a reforma. Agora para existir no PSD dá-se uma entrevista uns tempos antes do congresso. Não, a autoestima é um bocadinho como o bom senso e a inteligência: como dizia o Descartes, hão de ser as qualidades mais bem distribuídas do mundo. Portanto, aparece sempre quem de si próprio tem a ideia de que servia para o lugar. Acho que já passámos muitas vezes o princípio de Peter e que devemos evitar repeti-lo. Mas mesmo que eu tivesse vencido essa barreira acho que não era o momento de protagonizar uma alternativa ao líder. O PSD é um partido mais institucionalista do que parece e não seria ingrato com um líder que passou o que passou e ganhou eleições." José Eduardo Martins adiou assim um regresso à ação partidária e à política ativa, mas mantém-se vigilante nas suas tribunas de opinião na televisão e nos jornais. Ao PSD aponta vários erros. Desde logo ter deixado para o CDS a iniciativa política de embaraçar a "coligação-geringonça" no recente debate do Programa de Estabilidade. E também não gostou de ver Maria Luís Albuquerque promovida a vice-presidente do partido. "A doutora Maria Luís fez uma opção que é absolutamente legítima mas que foi mal percebida em geral, na rua. Embora eu perceba que tenha sido uma opção incentivada pelo presidente do PSD e, nessa medida, ele se sinta responsável pelo futuro político dela, acho que, ao contrário do que é a perceção do líder do PSD, ela não constitui um ativo político extraordinário para o partido. Não a tenho visto sequer com vontade de protagonizar a primeira linha da luta política. Tem sido uma deputada que até há 15 dias não tinha feito uma intervenção no Parlamento. Portanto, quando tenho gente como o Miguel Morgado, o António Leitão Amaro, o Luís Montenegro na linha da frente do combate, teriam sido esses que promovia à direção. Expliquem-me o que é que, mês e meio depois do congresso, a equipa de vice-presidentes do PSD tem protagonizado de combate político, porque eu não vejo nada."

Desafiado a ser candidato autárquico, José Eduardo Martins não descarta a hipótese. Para a Câmara de Lisboa, não tem dúvidas sobre quem é o melhor que o PSD pode apresentar. "O Pedro Santana Lopes é, goste-se ou não se goste - e eu gosto -, um dos grandes ativos eleitorais do PSD. Um dos maiores. Conseguiu, mais uma vez, reinventar-se e, por isso, é um ativo que o PSD não pode desperdiçar."

Encantado com os primeiros meses de presidência de Marcelo Rebelo de Sousa - "é uma alegria para o PSD" -, José Eduardo diz que "depois de Cavaco e depois de tudo o que temos tido na política, fazia--nos falta" este Presidente. É por isso que não entende que "a equipa circunstancialmente dirigente do PSD não tenha esta satisfação". "Achei uma pena aquele remoque, que o era obviamente, de o Presidente irradiar felicidade - de resto, bem respondido. Pelo amor de Deus! É um antigo presidente do PSD, foi eleito Presidente da República, em nada do que disse ofende os nossos princípios, a nossa cultura político-constitucional."

Os cafés já estão na mesa. Eu não resisto a uma mousse de chocolate caseira. Pergunto-lhe pelo futuro na política e se se imagina, um dia, a voltar a um governo. José Eduardo Martins vai sempre ressalvando que não está à procura de cargos ou lugares. "Ó pá, sendo muito franco, aquilo que eu gostava que acontecesse era que aparecesse alguém que eu tivesse vontade de ajudar e de seguir. Infelizmente, não tem acontecido." Vê alguém no horizonte? "Neste momento, com franqueza, não vejo. Vejo alguns da geração mais nova que podem ser pessoas a quem eu, com a minha experiência, um dia posso ajudar. Na minha geração, ou acima da minha geração, não tenho visto nada de entusiasmante. Se a minha experiência servir de alguma coisa, o que eu gostaria era de ajudar um bom primeiro-ministro a coordenar o governo. Pode ser com a Presidência, pode ser de várias maneiras, no que for. Mas aquilo que eu gostava era de ajudar a fazer equipa. Eu tenho de mim próprio a noção imodesta de que sou o melhor número dois do mundo. Falta-me é o número um."

Com a vida preenchida - José Eduardo Martins é advogado, empresário, comentador e político na reserva - falta perguntar-lhe se se sente realizado e como é que gere o tempo. "Gosto da minha vida. Consegui na perfeição chegar àquele estado em que não me queixo do que ganho e quase só trabalho no que gosto. Tenho tudo o que preciso, estás a ver? Não tenho nenhuma ambição material por realizar. Não quero ter barcos, propriedades, quintas. A minha ambição é envelhecer tranquilamente. E, em relação a isso, o meu pai foi muito poupado [ri-se]; acho que ele tratou do meu futuro mais do que eu."

José Eduardo Martins está com pressa. Tem um cliente à espera no escritório. Olhamos ambos para a mesa do Eusébio na Tia Matilde e despedimo-nos sem desejos de boa sorte para amanhã. Ele estará a torcer pelo 35.º do Benfica. Eu estarei a fazer figas para lhe poder mandar uma mensagem a dizer "já foste". Mas seguramente continuaremos a dar-nos bem.

Adega da Tia Matilde

› 2 couverts
› 1 pato corado
› 1/2 pato corado
› 3 copos de cerveja
› 1 copo de vinho tinto
› 1 mousse de chocolate
› 2 cafés

Total: 43,40 euros