Marcelo Rebelo de Sousa não comenta caso Sócrates

Presidente da República manifestou-se contra ligações entre economia e política

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou-se hoje contra ligações entre setores económicos e políticos, em termos gerais, escusando-se a comentar a decisão do antigo primeiro-ministro José Sócrates de se desfiliar do PS.

O chefe de Estado não quis comentar a desfiliação do Partido Socialista de José Sócrates, alegando que se trata de um caso individual, que está a cargo da justiça e que envolve a vida interna de um partido.

"Portanto, a três títulos, eu não posso comentar esta matéria", acrescentou.

Perante a insistência dos jornalistas, em Évora, o Presidente da República disse ter, "há muitos anos", uma posição, em "questões genéricas", contra as ligações entre setores económicos e políticos.

"Quando fui líder partidário, num congresso, fiz um grande ataque às ligações que havia ou podia haver entre setores económicos e políticos. Isso é em geral", referiu Marcelo Rebelo de Sousa.

Nesta deslocação a Évora para a apresentação do trajeto entre esta cidade e Trancoso dos Caminhos de Santiago -- Via Portugal Nascente, o Chefe de Estado foi também questionado sobre a necessidade de uma revisão ao regime de abonos dos deputados.

Marcelo Rebelo de Sousa voltou a recusar comentar "casos individuais ou por grupo", mostrando-se convicto de que a Assembleia da República "está permanentemente atenta àquilo que é preciso fazer para que não haja dúvidas".

"É a casa da democracia, defensora da transparência, a transparência é uma componente fundamental dessa democracia e, certamente, que, em cada momento, irá aperfeiçoando os mecanismos para que a transparência se afirme e a democracia também", disse.

"Foi isso que eu quis dizer na cerimónia do 25 de Abril", vincou Marcelo, repetindo que as instituições "devem estar atentas aquilo que é a melhor forma de realizar o espírito da Constituição da República Portuguesa e dar força e qualidade à democracia".

Caso contrário, alertou, cria-se "um vazio, dúvidas e interrogações que são negativos para a democracia".

José Sócrates, 60 anos, é o principal arguido na Operação Marquês, em que está acusado de vários crimes económico-financeiros, incluindo corrupção e branqueamento de capitais.

No âmbito da investigação, esteve preso preventivamente durante 288 dias, entre novembro de 2014 e setembro de 2015.

Sócrates aderiu ao PS em 1981, e foi secretário-geral do partido entre 25 de setembro de 2004 e 06 de junho de 2011.

Em 2005, obteve a primeira maioria absoluta do PS em eleições legislativas e foi primeiro-ministro até 2011, depois de o seu Governo ter pedido ajuda financeira ao Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu.

Num artigo publicado hoje no Jornal de Notícias, José Sócrates disse que a sua saída do PS visa acabar com um "embaraço mútuo", após críticas da direção que, na sua opinião, ultrapassam os limites do aceitável.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.