Só Dalai Lama reunira tantas religiões na mesquita

Marcelo apelou a que o "espírito ecuménico" manifestado pelos religiosos se estenda a toda a sociedade, até à política

O que têm em comum o Marcelo Rebelo de Sousa e Dalai Lama? Pelo menos uma coisa. Grandiosa e rara no mundo. Juntarem numa mesquita mais de dezena e meia de confissões religiosas, mesmo as historicamente conflituosas entre si. O recém-empossado Presidente da República fê-lo esta quarta-feira, no dia da sua tomada de posse. O líder espiritual tibetano, prémio Nobel da paz, fê-lo há nove anos, no âmbito de uma visita a Portugal e libertou pombas brancas alusivas à paz universal.

Na origem da iniciativa, que emocionou e encheu de calor os corações de quem participou, há também uma figura em comum: Abdool Vakil, o presidente da comunidade islâmica. Como sheik David Munir, imã da mesquita central de Lisboa, a seu lado, recebiam cordialmente e de sorriso no rosto os convidados. Vakil confidenciou ao DN que lançara este desafio a Marcelo "durante uma visita a Queluz, há uns dias". Primeiro, conta este responsável, o então presidente eleito "não percebeu logo que a ideia era convidar todas as confissões e ficou um pouco renitente, mas quando lhe expliquei a ideia toda, ficou muito entusiasmado e disse logo que sim".

Entre cumprimentos e elogios à iniciativa dos vários convidados que iam passando, Abdool Vakil afiança que foi "muito fácil" que o representantes das 17 confissões religiosas - entre católicos, muçulmanos, judeus, budistas, hindus - aceitassem o convite que lhes dirigiu."Fazemos muitas vezes encontros, palestras aqui na mesquita, com a participação de várias religiões. Somos um país de uma grande luz", assinala, recordando também a visita de Dala Lama.

Alguns dos presentes talvez tivessem tido o privilégio de ver essa "luz" num momento carregado de solenidade, como foi aquele em que os representantes das 17 confissões leram um oração universal, cada um uma frase, na sua vez: "Dai-nos sabedoria para distinguir o bem do mal; compreensão para acabar com os conflitos; compaixão para apagar o ódio; perdão para superar a vingança; amor para compreender e amar o outro. Faz com que todos os povos vivam de acordo com a Tua Lei de Amor". No final um "Ámen" coletivo e aplausos.

Numa intervenção curta, Marcelo sintetizou o momento carregado de simbolismo, que protagonizava. Agradecimentos a Vakil, que conhece e conviveu com os Rebelo de Sousa desde Moçambique, quando era uma colónia portuguesa e uma promessa de "apoio e empenho" naquela iniciativa. "Portugal deve muito da sua grandeza secular ao seu espírito ecuménico. Foi grande sempre que soube cultivar esse espírito, dentro e fora das suas fronteiras físicas".

Em contrapartida, sublinhou, "ficou aquém do seu desígnio nacional sempre que sacrificou a riqueza da convergência de culturas, civilizações e, naturalmente, religiões. Hoje a Constituição da República Portuguesa consagra a liberdade religiosa, que supõe a liberdade de não crer, mas que, para os crentes, vai para além da mera liberdade de culto, implica o respeito de cada confissão na sua visão do mundo e da vida, expressa no espaço privado como no espaço público".

Aquele encontro inter-religioso, destacou, "quer significar que o Presidente da República de Portugal, como garante da Constituição que jurou defender, cumprir e fazer cumprir, será sempre o garante da liberdade religiosa, em todas as suas virtualidades". Neste momento foi interrompido por aplausos.
Mas Marcelo deseja e defende ainda outra ambição, "um outro significado" da cerimónia. "O do apelo para que o espírito ecuménico" ali testemunhado "possa servir de exemplo para todos os domínios da vida nacional. Convidando à aceitação do outro, ao diálogo, ao entendimento, à compreensão recíproca". Olhando para os representantes religiosos que estavam a seu lado, à direita e à esquerda no palco, disse: "que o vosso exemplo frutifique, na cultura, na educação, no apoio social, na saúde, no mundo laboral e empresarial, na vida local, na política".

Vale a pena elencar as confissões presentes: evangélica, anglicana, católica, judaica, ortodoxa grega, budista, baha"i, hindu, islâmica, muçulmana shia ismaili, shiita, sikh, adventista, Jesus Cristo dos Santos dos Últimos dias, vetero católica, templo de shiva e o Conselho Português das Igrejas Cristãs.
Na plateia estavam, entre outros, o ex-Presidente Jorge Sampaio, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina e Assunção Cristas, do CDS, como "cidadã e como cristã", justificou o porta-voz da candidata à liderança do partido.

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