"Seria profundamente injusto dizer que Cavaco não é um homem de afetos"

Com a controvérsia em torno dos contratos de associação no pico, a líder do BE faz a defesa do ministro da Educação. Catarina Martins admite "geringonças" com o PS nas autárquicas e afasta a candidatura de Mariana Mortágua a Lisboa

Nestes dois meses de mandato de Marcelo Rebelo de Sousa encontrou alguma semelhança com Cavaco Silva?

[Risos] São muitos diferentes, não são? As diferenças do ponto de vista de opção política não são tão grandes quanto isso. Já a forma como se relaciona com o cargo e com o país é muito diferente, e ser Presidente também é isso.

Ideologicamente estão próximos, a forma como se manifestam, como abordam as pessoas - os tais afetos - é que difere?

Não sei se afetos é a expressão de que mais gosto, soa um pouco estranho...

Porque é que diz isso?

Afetos é algo que exige proximidade, conhecimento pessoal. Ser mais ou menos simpático não é afeto. Não faço a mínima ideia do quão afetuoso é Cavaco Silva, não tenho nenhuma relação pessoal com ele, mas longe de mim dizer que não é um homem de afetos com os seus netos, não faço ideia. É profundamente injusto dizer que Cavaco Silva não é um homem de afetos. A forma como encaramos a democracia e o exercício dos cargos não nos deve levar a fazer juízos sobre as pessoas. A República precisa de compreender a diferença entre a representação política e o que as pessoas são na sua intimidade. Já a proximidade, a transparência, o estar com as pessoas, discutir os temas é uma forma democrata de estar. Cavaco, visto sempre em reuniões ligadas a interesses financeiros e nunca em movimentos mais populares, era um presidente que ouvia sempre só um lado.

Marcelo está a surpreendê-la?

Estávamos todos à espera que Marcelo fosse um Presidente assim, com os riscos que isso tem para o equilíbrio de poderes em Portugal. O nosso regime não é presidencialista e uma atuação do Presidente sobre todos os campos da vida política é uma novidade para esse equilíbrio, que não estou certa de que seja boa. Quando o Presidente considera que deve ter posição pública sobre todos os assuntos do país, nas suas diversas esferas, está a chamar à Presidência temas que não são da sua competência, e é isso que tem acontecido. Não quer dizer que tenha havido uma apropriação de poderes, não merece essa acusação.

Ainda em tom de balanço: como avalia o ministro Mário Centeno?

Tem um projeto político muito distante do do Bloco e as negociações que fizemos nessa área foram muito duras. Tenho grande consideração pela forma como respeitou e compreendeu o percurso que estava a ser feito.

O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, que consideração lhe merece?

Ficou com uma das situações mais difíceis, trazer a escola à normalidade, depois de todos os ataques que Nuno Crato fez quer aos alunos quer aos professores. Tem tido um trabalho muito complicado e está a ter coragem para o fazer. É alguém que acredita muito na educação enquanto instrumento de igualdade, de cidadania.

E isso será o suficiente para se manter no cargo? Resistirá às pressões?

As pressões que a direita está a fazer sobre o ministro da Educação, nomeadamente devido aos contratos de associação, revelam bem o projeto da direita, para quem o Estado serve para pagar rendas a privados. Seria bom que o ministro resistisse porque é importante este percurso para termos normalidade e defender a escola.

E quem é o ministro ou ministério que a está a desiludir mais?

Não sou muito de desilusões, nem de ilusões. Há um ministério que tem um problema, o da cultura, com um orçamento praticamente inexistente. Isto pouco tem que ver com este ministro, que acabou de chegar, ou com o que saiu. É uma enorme desilusão a forma como este governo olha para a Cultura.

Olhando para as autárquicas, em 2017, o Bloco apresentará os seus próprios candidatos?

O BE tem de fazer o seu caminho. Nos últimos anos, o partido viu crescer uma nova geração de pessoas muito aplicadas nas políticas locais e que ainda não tiveram a visibilidade que o seu trabalho merece. Espero que essa geração possa aparecer com os seus projetos. Portugal precisa de uma nova geração de autarcas.

Admite um formato de "geringonças" locais?

Se houver resultados e projetos para isso, sim, claro.

As críticas que o Bloco tem feito a Fernando Medina levam a crer que a parceria com o PS está posta de parte. A ideia é ter um candidato próprio em Lisboa?

O normal é o Bloco de Esquerda ter candidaturas próprias.

Mariana Mortágua é um nome em cima da mesa?

Nunca discuti isso com a Mariana.

Mas admite esse cenário?

Creio que não. As pessoas devem trabalhar naquilo de que sabem mais e onde são mais necessárias.

Neste caso, no Parlamento e a negociar com o governo.

No Parlamento e não só. O Bloco tem muita gente ligada à política do concelho, da autarquia de Lisboa, que tem feito um bom trabalho.

Já não havia um só coordenador desde 2012, quando Francisco Louça saiu. A convenção, em junho, deverá torná-la líder única. Sente-se a dona do Bloco?

Nunca serei dona de coisa alguma, muito menos de um partido. O Bloco é um partido de coletivo, a esquerda é coletiva.

Como ficaram as relações com Pedro Filipe Soares desde a última convenção?

Temos trabalhado bem, não se tem notado?

O que faltou para convencer Nuno Moniz e João Carlos Louçã, que criticaram "cultos de personalidade" e alguma falta de democracia interna no BE, a assinarem a sua moção?

O BE vai ter várias moções, tem muitas diversidades, uma grande cultura de fiscalização e contrapoder, o que torna a democracia interna muito exigente. É por isso que o BE tem práticas que são consideradas, em vários estudos, como exemplares em termos de transparência.

Até onde pretende chegar?

Do ponto de vista da linha política, gostaria que existisse uma maioria em Portugal capaz de um confronto com as instituições europeias, que permitisse um governo com a força e a legitimidade popular para renegociar a dívida e ter o controlo público da banca. Seria a minha ambição, não quer dizer que seja possível porque essas coisas só acontecem com legitimidade popular, mas é para isso que lutamos. Do ponto de vista pessoal nunca me imaginei a fazer nada do que faço hoje. Na altura em que o Francisco Louçã se afastou e falaram comigo para uma solução de coordenação com João Semedo, achei que se tinham enganado, era uma coisa que nunca tinha pensado fazer na minha vida.

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