"Sem candidato no Porto, o PS perde autonomia estratégica"

José Luís Carneiro, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas

Acabou por integrar um governo liderado por António Costa, apesar de ter apoiado António José Seguro, enquanto ele foi líder do PS e também na disputa interna. Tem falado com ele?

Eu sou amigo do António José Seguro, assim como também constituí, por força das nossas relações no comité de regiões, uma relação de amizade com António Costa. Quem me conhece sabe uma coisa muito objetiva. Sabe que eu me debati de forma muito intensa para que o António José Seguro ganhasse as eleições, mas perdemos e, tendo perdido as eleições, o meu dever foi de procurar dar o meu contributo para que rapidamente o PS reconstituísse a sua unidade interna.

Ainda assim, há um ano também era daqueles que tinha reservas em relação à atual solução de governo, aquilo que todos os portugueses já conhecem como "geringonça". Ela afinal funciona. Mudou de opinião?

Os resultados são muito positivos. Eu devo dizer que nos órgãos políticos do meu partido, por duas vezes e também nas reuniões de grupo parlamentar, por duas vezes também, fui daqueles que transmitiram ao secretário-geral do PS que era fundamental que nas condições negociais com os partidos à nossa esquerda procurássemos garantir três compromissos fundamentais e que esses compromissos fossem salvaguardados. Julguei, como julgaram muitos, que estavam criadas as condições para testar esta solução. A primeira condição era garantir os compromissos internacionais, quer os compromissos no quadro do tratado orçamental com a União Europeia quer os compromissos com a Aliança Atlântica, porque é um elemento constante da política externa.

O caderno de encargos do ex-presidente da República, Cavaco Silva.

Não! Simultaneamente os compromissos que não estavam nos cadernos de encargos do professor Cavaco Silva, do programa eleitoral do Partido Socialista. Eu bati-me muito para a revisão do mapa judiciário, para a garantia da administração da Justiça em todos os territórios, bati-me muito pelo respeito pelas autarquias locais, pelo estatuto dos autarcas, por políticas de descentralização. Bati-me imenso para garantir a defesa dos cuidados primários de saúde, talvez por ser oriundo dos territórios de menor densidade e de menor expressão eleitoral e, por outro lado também, bati-me muito pela escola pública, nomeadamente para que as crianças mais frágeis do ponto de vista intelectual e do ponto de vista físico tivessem uma escola pública que lhes garantisse igualdade de oportunidades. Quando, ao fim deste ano, olhamos para os resultados alcançados, cumprindo o prometido, eu devo dizer que me sinto honrado por ter merecido a confiança do primeiro-ministro António Costa. Isto sem colocar em causa, naturalmente, a profunda amizade que tenho pelo António José Seguro que quero continuar a estimar do ponto de vista pessoal durante, espero eu, muitas décadas, o que é bom sinal.

Partindo da sua experiência passada, mas olhando agora para a frente, liderou a distrital do Porto do PS. Como é que pode ser explicada a ausência de um candidato socialista à segunda maior autarquia do país?

Bom, eu tive uma posição muito clara sobre essa matéria quando era líder do PS-Porto. Eu defendi e fiquei, aliás, isolado mais o secretariado distrital nessa posição que o PS deveria, porque havia na altura uma tensão entre aqueles que aparentemente falhariam os interesses estritamente partidários, de que fui acusado, e aqueles que defenderiam os interesses da cidade. E aquilo que eu disse foi que era possível compatibilizar os dois interesses. Um acordo de princípios sobre o programa de cidade e sobre a visão de cidade, com quatro ou cinco temas que são conhecidos, desde o Palácio de Cristal e o Rosa Mota, desde o Bulhão, desde a frente oriental da cidade, Campanhã. O modelo de regeneração urbana que tem de ser um modelo que não expulse as classes médias do centro das cidades e que não expulse os micro e os pequenos comerciantes. Ou seja, o objetivo do crescimento não pode esmagar os mais frágeis, aqueles que fazem a história e fazem a identidade de uma cidade e era possível compatibilizar um conteúdo programático de cidade e, ao mesmo tempo, o PS não assumir responsabilidades no executivo municipal e nas empresas municipais.

Mas lá estão e a questão agora é outra.

A opção não foi essa, a minha posição saiu derrotada. Aceitei naturalmente essa decisão dos órgãos da comissão política concelhia, quando afirmava na altura que o PS perderia autonomia estratégica para se afirmar como uma alternativa, julgo que, desse ponto de vista, o tempo acabou por me dar razão.

E agora José Luís Carneiro?E agora que o Partido Socialista não tem candidatos, está bem?

O meu dever é, tendo defendido a posição que defendi, manter a posição que defendi, embora respeitando a decisão dos órgãos do meu partido, neste caso, da comissão política concelhia e da própria federação distrital, porque decidiram conjuntamente e o meu dever como militante é respeitar essa decisão, mantendo a posição que defendi na altura e tendo a mesma convicção que tinha na altura, ou seja, de que essa opção é um opção que diminui a legitimidade política, porque diz-me a experiência uma coisa muito simples, é que quando nós não apresentamos listas alternativas, desde as assembleias de freguesia às câmaras municipais, com o tempo há uma desvinculação na relação de legitimidade com aquele corpo de valores e o corpo de princípios que defendem os partidos políticos.

A política tem horror do vazio, quando há um vazio alguém o ocupa e o PS pode ser prejudicado por isso?

Concordo!

Queríamos só confirmar se de facto a comemoração do próximo 10 de Junho será entre Portugal e o Brasil e exatamente onde.

Eu devo dizer que não tenho informação de carácter oficial, aliás, a única informação que pude ver foi aquela que li no jornal Público e portanto não posso confirmar nem desmentir essa informação, porque é uma decisão que cabe nas competências do senhor Presidente da República e qualquer pronúncia da minha parte seria estar a extravasar aquelas que são as minhas competências e atribuições.

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