Seis mil aceitaram convite de Marcelo. E o Presidente ainda foi comprar livros

Com Belém de portas abertas, Marcelo deu beijinhos, abraçou e tirou fotografias. Depois foi ver duas exposições e à livraria

Passam dez minutos das 19.00, Marcelo Rebelo de Sousa tira a boina que havia enfiado uns metros antes e sobe as escadas da Igreja do Loreto, no Chiado. A dias da primeira visita que será ao Vaticano, o Presidente da República rematou o dia de ontem, em que recebeu seis mil cidadãos em Belém, com uma passagem pela igreja dos italianos, no centro de Lisboa. Já só ficaram os quatro seguranças pessoais.

Aos turistas que enxameiam o Chiado e aos lisboetas que se passeiam por ali, junta-se a surpresa que só os poucos repórteres denuncia: Marcelo chega a pé à Livraria Sá da Costa para a inauguração da exposição de pintura de Pedro Homem de Mello (ver página 40). Há aplausos espontâneos, há quem o cumprimente e estrangeiros que perguntam quem é - será uma constante no fim de tarde.

Para primeiro no Largo do Camões, onde vê uma exposição fotográfica sobre vítimas de violência doméstica, acompanha as explicações de Homem de Mello dos seus quadros, brincando com um deles por causa do seu PSD, "Laranjas no céu", dá um forte abraço a Nicolau Breyner e recorda ao livreiro anfitrião que o informe da chegada de livros que lhe interessem.

Os livros são o seu vício, já se sabe - e os portugueses lembram-se do tempo em que os apresentava nos ecrãs da televisão. Por isso, à saída da Sá da Costa troca as voltas à segurança e define novo destino: a Livraria Bertrand, ali à mão, uns metros abaixo, do outro lado da Rua Garrett. O seu "ritmo de leitura sofreu um pouco", como admite um pouco antes aos jornalistas.

Quatro livros na mão

Quer saber "se já abriu" e repete a pergunta a uma funcionária à entrada. Refere-se a umas quantas salas que estiveram fechadas para obras naquela que é considerada a livraria mais antiga do mundo em atividade. "Estive cá há pouco tempo e fiquei muito desiludido", comenta com a empregada.

Embrenha-se pelas estantes, vai comentando a meia voz os exemplares que vê, escolhe quatro - um deles é Mário Soares. O Homem que Come, Bebe e Respira Política, um livro de conversas com Ana Sá Lopes, outro debruça-se sobre Pobreza e Exclusão Social em Portugal. Foi Marcelo quem recusou, na sua tomada de posse, que haja, "de modo dramaticamente persistente, dois milhões de pobres, mais de meio milhão em risco de pobreza". No fim dirige-se ao balcão para pagar ("vamos à parte dolorosa") e ainda escolhe um saco de pano para levar os livros.

Lá dentro e nos passeios entre livrarias houve muitos que lhe confidenciaram coisas ao ouvido, quem lhe desejasse que "tudo corra bem" ou quem lhe peça para gravar um pequeno vídeo a desejar "parabéns" a uma familiar de 14 anos.

"Ele disse para a gente ir"

O dia tinha começado cedo para muitos que aceitaram o convite do recém-empossado Presidente da República para visitar o Palácio de Belém. Houve render da guarda, jardins abertos, bandas militares a darem música (e os marujos da Armada a tocarem o Dunas dos GNR) e muitos e muitos passou-bens.

Marcelo Rebelo de Sousa coloca-se ao cimo da escadaria da Sala das Bicas, no Palácio de Belém, surpreendendo um a um os portugueses que foram entrando no palácio presidencial, que esteve de portas abertas das 10.00 até às 17.30. E não se faz rogado: dá beijinhos, estende a mão, abraça as pessoas, recebe prendas, tira fotografias, muitas fotografias. Não se cansa o homem. "Há do ponto de vista de afeto uma proximidade muito grande", explica-se. "As pessoas querem contar a sua história, dar o seu testemunho, querem estar próximas daqueles que são os seus representantes."

O anfitrião assiste ao render da guarda, da varanda de Belém, e deixa o convite aos muitos populares que andam pelos jardins. "Vamos então." "Olha, está-nos a convidar", responde para o ar uma senhora que apressa o passo. "Ele disse para a gente ir." E as gentes vão. Como o homem, de 90 anos, com uma foto emoldurada do pai, oficial português que combateu na I Guerra Mundial, que faz questão de mostrar ao Presidente da República.

De manhã diz aos jornalistas que é "fundamental que as pessoas se sintam próximas dos símbolos da pátria", admitindo que possa repetir iniciativas destas durante o seu mandato. E nomeia esses símbolos: "A Bandeira, o Hino Nacional, o Palácio de Belém, o Presidente da República."

Recuperar horas de sono

Na exposição no Chiado, diz que "é uma grande responsabilidade de todos estar à altura" da "esperança" que reconhece nos portugueses. Porque, acrescenta, "a esta esperança implica naturalmente corresponder-lhe, e não é o Presidente da República sozinho, não é o governo sozinho, temos de ser todos a corresponder a esta esperança, para que não haja uma desilusão".

Do Palácio ao Chiado, o ritmo só é travado por quem passa. A agenda preenchida não o assusta. "Uma agenda preenchida supõe também uma componente cultural fundamental." E "embora tudo o resto seja cultura - abrir o Palácio de Belém, ter uma cerimónia ecuménica [inter-religiosa], visitar um bairro como o do Cerco no Porto é cultura - ainda há aquela cultura que se traduz" nas duas exposições que visitou no Chiado. A partir de hoje, garante, vai recuperar as horas de sono.

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