Secretas vigiam extrema-direita dentro da PSP

Detetadas ligações de agentes e chefes da PSP à extrema-direita, como os skinheads ou o PNR. Há nove polícias com processos disciplinares pelas agressões na Cova da Moura. Três já estão suspensos.

Os serviços de informações portugueses têm estado a monitorizar alguns casos de agentes e chefes da PSP com ligações a movimentos de extrema-direita, como os skinheads ou o Partido Nacional Renovador (PNR). O DN sabe que alguns dirigentes sindicais desta força de segurança foram abordados pelos espiões sobre esta matéria, mas também houve oficiais a serem contactados, com o objetivo de colaborarem com as secretas no acompanhamento deste fenómeno que se receia estar a consolidar-se.

Ontem, foi conhecida a conclusão do processo de averiguações da Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) aos incidentes de fevereiro passado, na esquadra da PSP na Cova da Moura, um dos bairros mais sensíveis da zona de Lisboa. A IGAI confirmou grande parte das denúncias das vítimas, jovens do bairro que foram agredidos e injuriados. Nove polícias vão ser sujeitos a processos disciplinares, três dos quais vão ser já suspensos preventivamente, dada a gravidade da sua atuação, por decisão da ministra da Administração Interna, Anabela Rodrigues. Um deles é chefe na esquadra.

Apesar de, em sede da averiguação, meramente disciplinar, da IGAI, não ter sido estabelecida uma ligação entre a extrema-direita e o comportamento dos agentes (o inquérito disciplinar irá aprofundar essa matéria), a situação não deixou de fazer soar o alarme nas secretas.

O caso indiciou atitudes muito graves de discriminação racial por parte dos agentes e abuso violento de força contra os jovens portugueses de ascendência africana. A PGR confirmou ao DN que abriu um inquérito, para investigar estas suspeitas, com origem em "participação apresentada pelos advogados dos detidos" e que se encontra "em segredo de justiça".

O relatório agora produzido pela IGAI será enviado ao Ministério Público e incorporado neste inquérito. Em causa, de acordo com o que foi apurado pela IGAI estão suspeitas dos crimes de discriminação racial e tortura, classificados pelo Código Penal como "crimes contra a identidade cultural e integridade pessoal".

Há também suspeitas de falsos depoimentos por parte dos agentes de autoridade.

"Disseram que nós, africanos, temos de morrer", "vocês têm sorte que a lei não permite, senão seriam todos executados" ou "deviam alistar-se no Estado Islâmico", contou, na ocasião, um dos jovens agredidos. O sociólogo Boaventura Sousa Santos reagiu salientando que estes incidentes "são um problema do Estado de direito e da democracia".

O investigador, que participava numa manifestação contra o racismo em frente à Assembleia da República, nessa semana, assinalou, logo nessa altura, a sua apreensão quanto ao fenómeno da "infiltração das forças policiais por elementos próximos de grupos de extrema-direita, como sucedeu em França e na Grécia".

Fontes da PSP contactadas pelo DN confirmaram a existência de "alguns elementos que se sabe participarem em iniciativas da extrema-direita", mas lembram que se trata da esfera "da vida privada e das opções ideológicas a que todos os cidadãos, incluindo os polícias, têm direito". Por isso, "até que haja provas que essa opção influenciou a isenção que devem ter na sua atividade profissional, não há nada que possamos fazer, a não ser estar atentos. E é isso que fazemos", explicou uma dessas fontes, do departamento disciplinar.

No dia dos incidentes da Cova da Moura, cinco dos jovens foram detidos e o MP pediu a sua prisão preventiva, mas o Tribunal de Sintra libertou-os, com a medida menos gravosa de termo de identidade e residência.

Ler mais