"Se tivéssemos criado uma cerveja Porto nunca mais chegávamos a Lisboa"

Almoço com Tiago Talone, cofundador da Fábrica de Cervejas Portuense

Se fizéssemos este almoço um mês mais tarde, talvez o encontro já acontecesse em casa de Tiago Talone e Pedro Mota. Digo, no restaurante que em breve vai abrir - "em soft opening", frisa o meu convidado -, num espaço de dois pisos integrado na Fábrica de Cervejas Portuense, permitindo almoçar ou jantar com vista para o processo de produção de uma cerveja lançada em abril sob a assinatura Genuinamente melhor! "A regionalidade é a nossa imagem e decidimos usar as características que reconhecemos nas pessoas do Norte: apesar de humildes somos sempre os maiores, somos ótimas pessoas mas temos aquela humilde arrogância. E a assinatura traz essa imagem à cerveja: acabámos de aparecer mas temos mais qualidade, somos melhores, mais inovadores." Quem o lê aqui pode pensar que há uma certa gabarolice associada, mas a bem de um retrato fiel há que explicar que Tiago Talone é um jovem empresário simples de trato, cheio de garra e sim entusiasmado, justamente, com o projeto pelo qual decidiu deixar tudo e mudar de vida. Não foi uma transformação radical, é certo, já que trabalhava no setor cervejeiro, mas ainda assim foi um salto de grande risco. Lá iremos.

Dizia eu que podíamos ter-nos juntado ali mesmo ao lado, na fábrica, mas um atraso valente nas obras que tem provocado alguns ataques de nervos a Tiago e ao sócio e amigo Pedro Mota não o permitiu. Ficámos pelo mais do que tradicional Abadia, um símbolo do Porto e quase sala de reunião da família Talone quando se junta na cidade, colado às paredes da cervejaria de onde sai a Nortada que ali à mesa já é recomendação da casa. E como Tiago é conhecido de sempre, tem ali tratamento especial: mal nos sentamos, já nos espera um belo cesto de pão e broa, manteiga, azeitonas temperadas e coisas boas para forrar o estômago. Para beber, já se sabe o que vai ser... falta apenas definir qual das Nortadas vem para a mesa primeiro - uma escolha que Tiago Talone faz rapidamente. Venha a Porto Lager, estrela da seleção e que até se apresenta em formato generoso (75 cl). "Temos em garrafas de 33 cl e de pressão, mas quisemos ter também esta opção. É a cerveja principal da nossa fábrica e já faz 70% das vendas - as outras são mais experimentalistas."

É inevitável que repare de imediato no rótulo da marca, usando cores bem fora dos habituais vermelho e preto. A disrupção é intencional e tem o dedo do Tiago. Esta veste-se de azulão e amarelo-torrado, entre o mar do Norte e o sol que puxa mais uma bem fresca, e o nome está também intimamente ligado aos ventos que varrem a costa portuguesa - impresso na própria alma de um velejador convicto e empreendedor consciente e com sentido prático. "Nós nascemos para trazer uma oferta diferente aqui - lá fora há uma cultura cervejeira muito mais vasta e variada, em três níveis: as gigantes, que aqui têm mais de 90% do mercado, as regionais, a gaveta em que nos encaixamos, e microcervejeiras. Criámos uma cerveja regional e queríamos ter aquela identificação forte imediata, mas se lhe chamássemos Porto nunca mais chegávamos a Lisboa", ri-se. "E Nortada também é foneticamente simples independentemente da língua que fale quem a pedir."

Ainda teremos tempo para provar uma India Pale, mas por agora dedicamo-nos à Lager, cujo amargor e corpo encaixam na perfeição com o presunto que entretanto se juntou à conversa. Tiago conta-me que tudo começou com uma ideiazinha. Ele e Pedro, ambos ligados ao setor cervejeiro, pensaram lançar um negócio e se o mar os atraía - Tiago faz vela desde pequenino, Pedro caça submarina -, a verdade é que não encontravam aí inspiração viável. Conta que até teria seguido essa carreira - "lembro-me de faltar às aulas às escondidas para ir velejar e acho que ainda sou o velejador mais novo a apurar-se numa prova internacional, em classe Optimist, com 7 anos" - mas entendeu que era uma vida difícil e sem grandes perspetivas de lhe garantir um futuro. Mas ainda veleja sempre que pode - "e quando não tenho tempo para tanto, dou um saltinho à praia e faço kitesurf".

Passados por Londres e outras cidades europeias com uma cultura cervejeira muito mais expressiva do que a de Portugal - "eu sempre gostei muito de cerveja e lembro-me de ir a restaurantes com o meu avô e se não havia Super Bock íamos embora. Era aquela rivalidade com a Sagres, os dois gigantes. E sempre tive muitas conversas com ele, tive pena de que não tivesse chegado a conhecer a nossa" -, lembraram-se então de lançar a sua marca. Fizeram planos de negócios, falaram com potenciais investidores - são hoje 13 pessoas e entidades que compõem o corpo acionista, incluindo o tio de Tiago e ex-CEO da EDP, João Talone, o diretor-geral da Hilti Portugal, António Raab, o suíço Patrick de Saab e António Botelho Moniz - e atiraram-se ao trabalho.

Claro que nada disto foi fácil. Da primeira ideia, em 2012, estava Tiago ainda na Unicer - onde entrara como estagiário aos 22 anos, depois de terminar o curso de Gestão de Marketing, e de onde viria a sair nove anos mais tarde para este projeto -, ao lançamento, em abril deste ano, deram grandes passos. "Éramos dois miúdos, levámos o projeto a várias pessoas e fizemo-las acreditar. Foi quase uma missão impossível."

Antes de avançar, Tiago fez questão de explicar ao avô (das mãos de quem nasceu a Super Bock, a partir de uma fábrica comprada em Esmoriz) e ao presidente da Unicer, João Abecasis, o que queria fazer - e que "nem era propriamente concorrência, porque é uma oferta diferente, além do que nós produzimos um máximo de dois milhões de litros por ano enquanto a Unicer faz 400 milhões". Acertaram a saída e nesse momento o jovem empresário saía definitivamente da sua zona de conforto. "Estive dois anos desempregado, a saber que tinha contas para pagar e um investimento superior a três milhões de euros pela frente - sendo uma indústria, aqui o investimento é feito à cabeça. Enquanto projetava o negócio, como queríamos fazer uma cerveja com muito mais qualidade do que as que existem no mercado português, vender o projeto, encontrar financiadores, durante todo esse tempo senti aquele murro no estômago." Para reduzir despesas, voltou para casa dos pais e fazia uma vida quase espartana que quase ninguém entendia porque Tiago não queria contar nada sobre o seu projeto até confirmar que este tinha pernas para andar - ao ponto de irritar a namorada, médica, "que com uma paciência infinita acompanhou todo este processo" Nessa altura, tinha 30 anos. "Foram tempos duros - estar desempregado, não saber o dia de amanhã... tinha juntado algum dinheiro, mas quanto mais tempo passasse menos tinha -, mas foi giro, porque foi um processo de aprendizagem brutal."

Ultrapassadas as fragilidades iniciais, como a falta de um plano de estrutura acionista que protegesse o controlo dos criadores da ideia mas também os investidores de capital, com um plano estruturado e a operação montada na cabeça, Tiago e Pedro fizeram um evento para captar os investidores. "Nesse dia conseguimos 70% do capital. Juntámo-los na zona industrial do Porto, num ambiente que simulava a futura fábrica, no topo de um edifício, trouxemos cervejas internacionais que eram as referências do que queríamos fazer e correu muito bem." Então começou outro desafio: construir e enfim produzir. E pôr a sua marca à prova - deles próprios, dos acionistas e do público.

Já com o polvo à lagareiro à frente - a cumprir à letra a promessa de que se cortava até com a colher de tão tenro -, bem regado e acompanhado de batatas a murro, diz-me que um dos momentos mais gratificantes foi a assinatura do aumento de capital, em que finalmente as coisas corriam sobre rodas e ele voltava a ter um salário. Tem no entanto, ainda hoje, bem presente que "ser empreendedor é deitar-me sem saber como vou chegar ao fim do dia amanhã: temos 30 pessoas connosco, tenho de lhes pagar salários. É difícil, mas dá-me imenso prazer. Tivemos momentos duros mas nunca perdi a esperança."

Entramos no coração da fábrica, importado da Alemanha "do melhor fabricante do mundo" que se espantou com a qualidade das cubas de aço inox compradas em Oliveira de Azeméis - "ficaram tão impressionados que até me pediram o contacto". "Esta fábrica alemã é quase como uma empresa familiar e no dia em que assinámos acordo com eles passámos a fazer parte dessa família, o que significava podermos usar as fábricas do grupo para testar a nossa cerveja. Foi lá que fizemos a primeira produção, para provar. Foi outro momento espetacular! Chegaram 1500 litros, eu levei uma grade para casa do Pedro, onde jantámos com a minha namorada e a mulher dele, e abrimos a primeira caixa. Nunca esquecerei aquela sensação de abrir a garrafa e dar o primeiro gole."

A primeira prova estava feita e passada. Mas convenceria os acionistas tão facilmente quanto os criadores? O contexto certo era fundamental, por isso organizaram um jantar preparado por um potencial chef do restaurante que queriam integrar na fábrica e criaram o ambiente que imaginavam perfeito para acolher a sua Nortada. "Foi lindo ver a cara das pessoas a provar. A partir daí lançámos a nossa marca e as coisas andaram." Ainda com alguns percalços, como a necessidade de acertar os timings da máquina de engarrafamento, que têm de ser milimétricos, ou reverter o processo de enchimento das garrafas que, como estava originalmente montado, fazia os rótulos descolarem-se quando o líquido entrava. "Foram 15 dias a trabalhar dia e noite, uma prova de equipa espetacular, cheguei a entrar a aqui numa sexta-feira às 7.30 e sair às 20.00 de sábado. E, mesmo antes de entrarmos no mercado, lembro-me de estar na cave a olhar para as grades todas e a pensar: como é que descalçamos esta bota?"

A garrafa que acompanhou a entrada no polvo e na conversa já secou. É tempo de experimentarmos outra opção de Nortada, que os empregados da Abadia apregoam como se fosse da casa. Vem a Massarelos India Pale Ale - todos os rótulos têm nomes dali, da Vienna Lager (Bonfim) à Brown Porter (Miragaia) ou à Imperial Stout (Campanhã) - com a explicação de como surgiu aquele tipo de cerveja: da necessidade de adicionar mais lúpulo, que confere o amargor mas também é um conservante natural, para garantir que a cerveja chegava à Índia colonial em boas condições. Um feliz acaso, digo eu que sou adepta do género, muito apreciado em Londres.

Tiago vai-me explicando que o restaurante da Fábrica Portuense, ali mesmo no centro, entre o Bolhão e o Majestic, "é outro negócio, mas é a principal ferramenta de comunicação da nossa marca. Temos imensa capacidade para casar cozinha e cerveja e fazer menus com a nossa mestre cervejeira" - Diana Canas, de 26 anos, a única mulher nesta categoria, enviada à melhor escola alemã para fazer o curso - e a chef que acabaram por contratar, que tem uma larga experiência mas cujo nome ainda não pode ser revelado. Vinca o projeto de proximidade e de assinatura do Porto que ali quer fazer nascer, razão pela qual quer ter a porta aberta para melhor se entrosar com os clientes: "Quero abrir o restaurante às 10.00 e nem importa se é rentável, porque o que quero é que as pessoas se sintam bem, queiram conhecer e voltem; até podem acabar por beber a nossa cerveja porque estiveram ali e gostaram". Essa proximidade, que existe também na relação com os cafés, bares e restaurantes onde há Nortada - "se um cliente ligar à meia-noite, tenho de o desenrascar" -, impede um alargamento massivo, mas há um projeto para estar em todo o Grande Porto e através de parcerias com grandes cadeias como o El Corte Inglés consegue estar em pontos selecionados do país.

Já com o polvo desaparecido e a Pale Ale bem saboreada, não há espaço para acomodar sobremesa, por isso saltamos diretamente para o café e para o lado mais familiar da vida de Tiago. Diz-me que agora que tudo anda sobre rodas, os seus projetos "são os da empresa". E depois ganhar alguma estabilidade familiar, até porque quer dar primos aos cinco sobrinhos que já tem. "Passaram cinco anos desde que tudo isto começou, a minha namorada, que estava a estudar Medicina, hoje está a trabalhar no S. João e na minha família, que é muito tradicional e católica, eu sou o único entre dois irmãos mais velhos e um mais novo que ainda não se casou. A verdade é que sempre fui o mais diferente em tudo... os meus pais são engenheiros civis, os meus irmãos também, exceto um que é engenheiro do ambiente, mas eu decidi ir para a área de economia."

Na determinação e foco não há dúvida de que é um Talone. "Projetos para o futuro? Vamos sempre pensar em andar e crescer."

Abadia

Couvert

Presunto de porco ibérico

Polvo à lagareiro

Água

Porto Lager

Nortada

Cafés

Total: 56,8 euros

Ler mais

Exclusivos

Premium

Adriano Moreira

O relatório do Conselho de Segurança

A Carta das Nações Unidas estabelece uma distinção entre a força do poder e o poder da palavra, em que o primeiro tem visibilidade na organização e competências do Conselho de Segurança, que toma decisões obrigatórias, e o segundo na Assembleia Geral que sobretudo vota orientações. Tem acontecido, e ganhou visibilidade no ano findo, que o secretário-geral, como mais alto funcionário da ONU e intervenções nas reuniões de todos os Conselhos, é muitas vezes a única voz que exprime o pensamento da organização sobre as questões mundiais, a chamar as atenções dos jovens e organizações internacionais, públicas e privadas, para a necessidade de fortalecer ou impedir a debilidade das intervenções sustentadoras dos objetivos da ONU.