Sampaio da Nóvoa: "Área da Educação é absolutamente essencial para África"

Na linha de figuras de reconhecido valor académico e prestígio político que já foram embaixadores de Portugal junto da UNESCO, o Governo convidou o professor António Sampaio da Nóvoa para o cargo que estava sem titular desde o tempo da troika. Antigo reitor da Universidade de Lisboa, candidato derrotado a Presidente da República em 2016 e ex-assessor do presidente Jorge Sampaio, o futuro embaixador vai ser um dos vice-presidentes da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

Como e quando é que surgiu o convite?

O convite foi feito e, nesta fase, o que posso dizer é que o processo está em curso. Houve uma primeira abordagem há algum tempo e foi concretizado recentemente. Sobre essas matérias mais concretas, são coisas que não me competem estar a dizer mas mais ao Governo e a quem formulou o convite.

Quais são as suas expectativas para o cargo?

As minhas expectativas são duas... são de duas ordens e foi isso que me levou a aceitar o convite: o facto de Portugal ter sido eleito para o Conselho Executivo, o que dá a Portugal um papel significativo na dinâmica da UNESCO e, mesmo dentro desse órgão, o ter sido eleito para vice-presidente. Há vários vice-presidentes e um deles será Portugal, o que quer dizer que isso permite ter um papel importante no reforço da UNESCO e numa agenda multilateral que é muito importante para Portugal...

O ser uma organização da ONU...

A eleição de António Guterres para secretário-geral das Nações Unidas, o reforço do papel de Portugal na UNESCO... Portugal tem hoje a possibilidade e também a responsabilidade de poder ter um papel muito importante nestas agendas multilaterais e no reforço de uma cultura de paz. Esta é um princípio primeiro da UNESCO, através da sua ação nos domínios da Educação, da Ciência, da Cultura, dos diversos setores em que trabalha. Tenho uma expectativa muito grande de poder dar um contributo para o reforço deste papel da UNESCO, que é absolutamente decisivo para os próximos anos e, simultaneamente, para o reforço da posição de Portugal e com o seu compromisso com esta agenda multilateral no domínio da cooperação.

Dentro das suas expectativas e depois dessa análise, há alguma área que considere crucial no exercício do cargo?

Acho que há duas áreas. Concretizando o que disse há pouco, evidentemente que há uma área que é de prioridade da UNESCO, historicamente e que voltou a ser colocada, que é uma intervenção e uma ação em África. África é hoje um continente que, pela pobreza, pelas situações de conflito e de guerra, merece uma atenção muito especial. E provavelmente a área de intervenção na Educação, de construir condições que permitam essa Educação, é absolutamente essencial para África e também para o mundo inteiro.

África que também é fundamental para a política externa portuguesa...

Portugal tem aí também, pela sua história, pelos seus compromissos, um papel muito importante no reforço desta dimensão da UNESCO. Um segundo aspeto que para mim é muito importante, muito significativo, é que a UNESCO tem uma identidade histórica e uma identidade como organização que é muito diferente de outras organizações internacionais como a OCDE ou outras. E é muito importante que esta marca, esta identidade da UNESCO na maneira de colocar os grandes princípios nos domínios da Educação, da Ciência e da Cultura, ganhe uma maior força e ganhe uma maior visibilidade na forma como se discutem essas questões no mundo. Isso é, a meu ver, absolutamente decisivo e para isso é preciso ter pessoas que, no interior da UNESCO, possam construir e dar visibilidade a esse discurso.

No seu caso, de que forma?

Tenho a expectativa de conseguir colocar grande parte do trabalho que fiz nos últimos 40 anos, em Portugal mas também em muitos momentos com a UNESCO, na América Latina, em particular no Brasil, trabalho que fiz em vários domínios, de poder colocar isso ao serviço do reforço desta marca e desta identidade da UNESCO na maneira de discutir os problemas da Educação e, muito em particular - é um dos dos relatórios recentes da UNESCO -, da Educação como um bem comum. E esta afirmação da dimensão da Educação como um bem comum parece-me muito importante nos próximos anos.

Já sabe quando toma posse?

Não. Para já, limitei-me a aceitar o convite e o processo está agora a decorrer os trâmites de decisão.

Ouviu algumas figuras antes de aceitar? Quem?

No meu processo de ponderação, que foi relativamente importante para ver as condições de funcionamento da UNESCO, a situação muito importante da eleição da nova diretora-geral da UNESCO, [a francesa] Audrey Azoulay, e do programa com que foi eleita, o programa com que Portugal se candidatou ao Conselho Executivo... no quadro dessa ponderação tive contacto com algumas pessoas que achei que era importante ouvir, mas obviamente não teria sentido dizer com que pessoas concretas falei para me ajudarem a tomar a decisão de aceitar este convite.

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