Saiba quais os municípios onde se gasta mais em medicamentos

O Alentejo e o Centro, em especial o interior, são as regiões do país onde o gasto em medicamentos por habitante é maior.

275 euros, é esta a diferença entre quanto gasta em média por ano em medicamentos um habitante de Mora (390 euros), no Alentejo, e um morador na Maia (115 euros). Estes são, respetivamente, os concelhos com maior e menor despesa per capita nesta área - que inclui os encargos para o Estado -, sendo que as zonas do interior centro e do Alentejo são as que apresentam valores de despesa nas farmácias que ficam mais acima da média nacional, que no ano passado foi de cerca de 200 euros por habitante.

E se olharmos para a despesa suportada diretamente pelas famílias - os chamados pagamentos out-of-pocket - as tendências geográficas mantêm-se: a média nacional de gastos por utente em 2017 foi de 72 euros, mas a zona Centro (78 euros) e o Alentejo (77 euros) ficaram bem acima desse valor. As famílias algarvias foram as que, em termos de valor per capita, menos pagaram do próprio bolso no ano passado (64 euros).

Segundo o Observatório Português dos Sistemas de Saúde, uma das possíveis justificações para o aumento do endividamento do SNS passa pela despesa com medicamentos, que até subiu entre 2012 e 2016 (passou de 2,19 mil milhões para 2,27 mil milhões), enquanto o orçamento na Saúde encolheu. Mas não será esse um mal necessário, tendo em conta o envelhecimento da população e a maior sobrevivência a doenças como o VIH e cancros, ou há um problema de prescrição por parte dos médicos?

O Relatório Primavera é cauteloso ao reconhecer que a evolução da prescrição, em volume, permite perceber que a maioria dos médicos de família "sustenta as suas decisões em padrões de elevada racionalidade e em níveis de evidência de qualidade elevada", sendo exemplos a prescrição de alguns antidiabéticos, de anti-hipertensores e de estatinas de 2012 a 2018. Mas quando a análise se centra nos valores saltam à vista os medicamentos com encargos mais significativos, "sendo que neste domínio, nem sempre a novidade compagina com racionalidade". "Em particular, e para o ano de 2017, verifica-se alguma homogeneidade nos medicamentos de marca que merecem a preferência de alguns prescritores, alguns deles com reduzido valor acrescentado face aos comparadores do mesmo grupo farmacoterapêutica (gliptina e alguns anti-hipertensores, ou alguns hipnóticos); também pode verificar-se existir consistência na substituição de medicamentos com perfis de eficácia e de segurança similares por medicamentos mais onerosos (associações fixas de anti-hipertensores e de broncodilatadores), o que poderá significar alguma influência das estratégias de comercialização de medicamentos".

Pode verificar-se existir substituição de medicamentos com perfis de eficácia e de segurança similares por medicamentos mais onerosos, o que poderá significar alguma influência das estratégias de comercialização de medicamentos

Tendência que parece replicar-se nos hospitais. A despesa com medicamentos em meio hospitalar, até novembro de 2017, aumentou 7% em termos homólogos, sendo a oncologia, os imunomoduladores, e os chamados medicamentos biológicos, as áreas com maior impacto. Dados que traduzem "quer a orientação da indústria farmacêutica para fármacos destinados a patologias mais prevalentes ('blockbuster'), e para nichos de mercado com preços consideravelmente mais elevados, quer a adoção de uma estratégia politica centrada na agilização do financiamento de novos medicamentos". O peso da factura hospitalar cresceu mais 12,6% nos últimos sete anos, representando atualmente metade da despesa do SNS com medicamentos. Em sentido contrário, a despesa em ambulatório caiu 26%, muito à custa de medidas para reduzir os preços e aumentar a quota de genéricos.

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