Restos mortais do cabo Aquilino chegam a Portugal 56 anos depois

Em 1961, Aquilino Gonçalves morreu numa missão em Angola. 56 anos depois, a cerimónia fúnebre com os restos mortais do militar realiza-se em Portugal

Quase 60 anos depois de chegar a Angola, como militar, os restos mortais do cabo Aquilino Silva Gonçalves partiram esta quinta-feira do cemitério do Sassa, província do Bengo, onde permaneciam desde outubro de 1961, iniciando finalmente o regresso a Portugal.

A exumação dos restos mortais deste antigo cabo do Exército português, do Batalhão de Artilharia 147, foi concluída esta quinta-feira, conforme a Lusa constatou no cemitério abandonado nos arredores da cidade do Caxito, a mais de 60 quilómetros de Luanda.

Os restos mortais deverão chegar sábado ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, seguindo-se as cerimónias fúnebres, 56 anos depois da morte de Aquilino Gonçalves, que fazia parte de uma família de 11 irmãos e que completaria os 78 anos em 2018

No terreno, debaixo de calor tórrido, elementos da funerária, do Serviço de Investigação Criminal, do serviço de Saúde Pública local e da administração municipal do Caxito levaram três horas para concretizar a vontade antiga da irmã do militar, em Portugal.

Às 15:00, já lacrada e devidamente preparada, a urna deixava o cemitério, no carro funerário, com todas as autorizações legais para o efeito.

Os restos mortais deverão chegar sábado ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, seguindo-se as cerimónias fúnebres, 56 anos depois da morte de Aquilino Gonçalves, que fazia parte de uma família de 11 irmãos e que completaria os 78 anos em 2018.

Será sepultado no cemitério de Ponte de São Vicente, no concelho de Vila Verde (distrito de Braga), a sua terra natal, conforme o desejo da irmã, Otília Gonçalves, que durante décadas tentou o regresso dos restos mortais de Aquilino.

O processo do cabo Aquilino Gonçalves foi fechado num tempo recorde de quatro meses, o segundo conduzido por Carlos Rosa, um emigrante português que vive em Angola desde 2009

Para trás fica um cemitério abandonado, ocupado por capim (erva) com mais de um metro de altura e onde permanecem os restos mortais de mais duas dezenas de outros militares portugueses, todos do início dos anos 1960.

O processo do cabo Aquilino Gonçalves foi fechado num tempo recorde de quatro meses, o segundo conduzido por Carlos Rosa, um emigrante português que vive em Angola desde 2009, onde trabalha numa construtora, e que, nos últimos seis anos, também se tem dedicado a seguir o rasto de ex-militares cujos restos mortais nunca chegaram a ser recuperados pelas famílias, em Portugal.

Carlos Rosa explicou à Lusa que foi a "mágoa" que sentiu nos comentários de Otília Gonçalves nas redes sociais, sobre a situação do irmão, que morreu num acidente de viação em Angola, onde estava destacado como militar, no período que eclodiu a guerra colonial, que o levou a envolver-se no segundo processo de trasladação.

Mais um herói que ficou para trás e que agora, esperemos, chegue ao seu destino final e que descanse em paz

"Entrei em contacto com a senhora e prontifiquei-me a ajudar. E foi assim que começou este processo", recordou à Lusa, numa visita ao cemitério do Sassa, tomado pelo abandono.

"Mais um herói que ficou para trás e que agora, esperemos, chegue ao seu destino final e que descanse em paz", desabafa este português, que tomou em mãos o processo de apoiar estas famílias na identificação dos cemitérios, recolha de documentação e, por último, da trasladação, junto da funerária local.

"Veio cá cumprir uma missão, mas infelizmente morreu nessa missão, terá que voltar para a sua casa", conta Carlos Rosa, ele próprio um ex-militar, hoje com 49 anos, que funciona como "elo de ligação" entre Portugal e Angola.

O Estado é que tem de resolver isto, com acordos com Angola, que é um país aberto, também. O Estado português é que tem a obrigação de tratar deste problema, nem é o Estado angolano

Carlos afirma que tem ajudado a resolver aquela que é uma "obrigação" do Estado português, para com os militares que ficaram em Angola, tombados na guerra colonial: "O Estado português vai ter de explicar aos portugueses o porquê desta situação".

A campa de Aquilino Gonçalves foi descoberta em 2005, no cemitério do Sassa, ano a partir do qual a irmã do militar começou a desenvolver diligências no sentido de repatriar o corpo, junto da Liga dos Combatentes e do Estado português,

Sempre sem consequências, até que Carlos Rosa decidiu ajudar: "O Estado é que tem de resolver isto, com acordos com Angola, que é um país aberto, também. O Estado português é que tem a obrigação de tratar deste problema, nem é o Estado angolano".

O primeiro caso, que, a partir de Luanda, Carlos Rosa ajudou a resolver, foi concluído em dezembro de 2017, com a chegada a Portugal, ao concelho de Tondela (distrito de Viseu), dos restos mortais do soldado paraquedista António da Conceição Lopes da Silva, morto em combate em Angola em 1963.

O processo de trasladação de Aquilino Silva Gonçalves custa cerca de oito mil euros, reunidos em parte com donativos, 6.500 dos quais para o Estado angolano e cerca de 1.500 euros para uma funerária, sem qualquer apoio do Estado português

"Sinto-me em paz, sinto que foi a minha última missão e orgulhoso por ter ajudado mais alguém", contou ainda à Lusa, embora angustiado ao saber que vários outros militares, só naquele cemitério, não tiveram o mesmo destino.

O processo de trasladação de Aquilino Silva Gonçalves custa cerca de oito mil euros, reunidos em parte com donativos, 6.500 dos quais para o Estado angolano e cerca de 1.500 euros para uma funerária, sem qualquer apoio do Estado português, segundo a família.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.