Reitores preocupados com cortes na ciência exigem explicações do Governo

Os reitores acompanham com "grande preocupação" a política de cortes na ciência, criticam o Governo por deixar as universidades, "agentes no terreno" na investigação científica, à margem das mudanças de estratégia e exigem explicações para a redução do financiamento.

"O que me preocupa é que se houve uma mudança de política no financiamento da ciência -- e que eu respeito, porque cada Governo tem o direito político de deixar a sua marca -- isso tem de ser feito de forma transparente e as instituições têm que ser avisadas atempadamente da evolução dessas mesmas políticas", disse à Lusa o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), António Rendas.

Sublinhando que qualquer dificuldade criada à ciência e à investigação e à ciência em Portugal é uma dificuldade criada às universidades e mais uma a juntar aos problemas orçamentais que o ensino superior atravessa, António Rendas disse que é preciso explicar afirmações que reconhecem uma diminuição do número de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento atribuídas este ano pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), mas que apontam para um aumento do investimento na ciência, de uma forma geral.

"Era importante saber como e em que condições aumentou. As universidades não têm essa informação e temos o direito de saber o que está a acontecer, porque nós é que somos os agentes no terreno", frisou o presidente do CRUP e reitor da Universidade Nova de Lisboa.

António Rendas afirmou-se "muito preocupado" com o impacto destes cortes no crescimento que a ciência portuguesa conheceu na última década.

"As elites não nascem de geração espontânea. Tem que haver uma massa suficientemente grande para que a qualidade e excelência possam crescer. Essa redução tem que ser analisada e explicada, porque se ela obedeceu a uma mudança de estratégia para a promoção de grupos muito pequenos e competitivos isso tem que ser visto", defendeu.

Para os institutos politécnicos, que não podem conferir o grau de doutor, o impacto do corte nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento é muito reduzido e sente-se sobretudo ao nível dos professores que pretendem obter esse grau académico.

No entanto, o presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), Joaquim Mourato, diz ver agora com "muita dificuldade" a possibilidade de se avançar com a proposta apresentada por estas instituições para a criação de centros de investigação aplicados transversais a toda a rede de politécnicos e financiados com apoio da FCT.

Mas mais do que "uma má notícia" para universidade e politécnicos, Joaquim Mourato entende que o problema tem dimensão nacional.

"É uma má notícia para a ciência e investigação, mas sobretudo para Portugal. Tínhamos um progresso muito interessante nesta área. Reduzir os apoios é não só comprometer o futuro, mas todo o trabalho já feito", disse.

O Ministro da Educação e Ciência lembrou hoje no Parlamento que há mais de dez mil investigadores em Portugal, tentando assim rebater as críticas da oposição, que acusou o executivo de estar a cometer um "cientificídio".

O desinvestimento na ciência, a situação precária em que vivem os investigadores portugueses e a fuga de cérebros voltaram a ser as principais críticas dos deputados da oposição que hoje questionaram o ministro Nuno Crato sobre a polémica em torno do concurso de bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento 2013 que, esta semana, levou à demissão de dois elementos do júri.

Nuno Crato contestou as críticas da oposição, falando em "mitos" e garantindo que "não há abandono da investigação científica".

"Há um mito que é preciso refutar: O Governo não desinvestiu na ciência", afirmou o ministro, sublinhando ainda que "o governo continua a apostar na investigação avançada" e recordando a abertura, no ano passado, de "um concurso de projetos de menor dimensão".

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