Que é feito das searinhas? Presépio tradicional em risco

As luzes e imagens de barro estão a dar lugar às de plástico. Segundo conservadores e restauradores ouvidos pelo DN, é todo um património imaterial que está em causa

O que é feito das figuras de barro que retratavam as várias profissões ligadas ao campo no presépio tradicional português, que o tornavam tão especial? E as searinhas? E o musgo? E a partilha de cortiça entre a família e os vizinhos? A conservadora e restauradora Sara Fonseca não tem dúvidas e diz que "esse presépio está ameaçado. Chegaram as figuras de plástico e as luzes, que nada têm que ver com a nossa tradição. As pessoas acharam que os bonecos de argamassa eram modestos e atiraram-nos fora, mas eram estas as figuras que ajudavam a tornar o nosso presépio tão especial".

Deste faziam parte pastores, rebanhos, cães, lobos, peixes e canastas, no caso do Algarve, ou da matança do porco e dos lavradores, no caso do Alentejo, região mais famosa pelos usos e costumes alusivos à época natalícia, e ainda as fanfarras, as cascatas e os túneis. Peças emblemáticas, mas que têm sido apagadas do presépio português, depois de longas décadas a passarem de pais para filhos.

O presépio português "faz parte de uma rica tradição europeia, mas tem personalidade própria"

"Nunca um presépio alentejano teve uma peça de plástico. Sempre foi usado barro, uma argamassa pobre que era cozida e pintada com as tintas que sobravam da caiança", recorda Sara Fonseca, admitindo que hoje em dia já "é difícil encontrar essas imagens". Nada que a barrística de Estremoz, que recentemente conquistou o selo de Património Imaterial da Humanidade, não resolva, depois de ter desenvolvido várias figuras perante o acelerado crescimento da procura de presépios, que se traduzem hoje num dos ex-líbris da casa da Irmãs Flores.

O artesão Ricardo Fonseca diz não ter mãos a medir na construção de pequenas figuras de barro para compor mais um presépio. "Os colecionadores procuram-nos muito, mesmo fora da quadra natalícia, e querem imagens específicas. São presépios quase feitos por medida", conta ao DN, dizendo que, por isso, os valores variam entre os 150 e os 300 euros.

Sara Fonseca recorda que há uns anos tudo era diferente, as famílias reuniam-se no Dia da Mãe, então celebrado a 8 de dezembro, para fazer o presépio. "Era um dia de partilha, em que até já se comiam doces semelhantes aos da noite da consoada. Íamos para o campo ao musgo, às bagas e à cortiça. Se sobrasse dávamos aos vizinhos que não tinham. Hoje compra-se musgo", comenta, alertando também para o facto de se tratar de uma "planta que está em extinção e que temos de ter cuidado como a tiramos da terra".

Outro detalhe que está a desvirtuar o presépio português tem que ver com a utilização de luzes como recurso ornamental, mas a restauradora alentejana explica-nos que a "iluminação nunca fez parte da tradição", lamentando o fim das searinhas de trigo, cevada ou cizirão, que representavam o bom prognóstico para as sementeiras. "Também se perdeu o hábito de construir coisas com palhas e vime. É urgente ensinar isso aos mais novos", defende.

Em Santiago do Cacém já se começou a trabalhar nesse sentido. O Centro UNESCO de Arquitetura e Arte (UCART), com sede no Alentejo, avançou para a construção de um presépio comunitário juntando dezenas de moradores, naquilo que se traduziu numa espécie de "escola viva do presepismo", no antigo quartel dos bombeiros, projetado pelo arquiteto Rafael de Castro, em 1931, onde existia a capela de Santo António. Para dar corpo ao presépio à moda antiga, foram precisos vários dias de trabalho, onde marcaram presença o arquiteto Ricardo Pereira, a conservadora-restauradora Sara Fonseca e a pintora Raquel Ventura, além de mais de meia centena de pessoas de várias idades. Por ali andou Madalena, de 5 anos, que só conhecia o presépio pela perspetiva da "casinha" que albergava o sagrado nascimento. Não faltou um escultor nem o serralheiro. E lá foram para o campo apanhar cortiça, troncos, bolotas e ervas aromáticas. Já no quartel, com mesas e cadeiras forradas com papel colorido, criaram a paisagem onde viriam a instalar centenas de figuras de barro, todas elas com mais de 50 anos, tendo sido emprestadas por famílias da terra. Foram revelados alguns segredos sobre a arte de fazer uma gruta, montar uma cascata ou como dispor a cavalgada dos Reis Magos.

Segundo alerta José António Falcão, responsável do UCART, "está em risco um património, material e imaterial, que precisa de mais atenção", acrescentando que o presépio português "faz parte de uma rica tradição europeia, mas tem personalidade própria", diz. O dirigente ressalva, contudo, que, afinal, não foi pela concorrência do Pai Natal ou das árvores cheias de bolas coloridas e flocos de neve artificiais que o presépio tradicional viu esmorecer a tradição, mas antes pelo cunho "descartável que lhe tem sido dado" há algumas décadas.

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