Quando abril entra pela casa a dentro do primeiro-ministro

António Costa convidou para tocar nos jardins jovens músicos de contextos sociais desfavorecidos - a Orquestra Geração

Quando abril entra pela casa de um primeiro-ministro, há sorrisos a iluminar os rostos, há tapetes de relva coloridos com contrastantes cravos vermelhos, há música, muita música clássica e historicamente simbólica, a ecoar por todos os cantos. E há muita gente a passear-se pelos jardins, a espreitar a sala de jantar - com mesa de cerimónia preparada para 12 pessoas - e os cenário onde costumam ver o primeiro-ministro da televisão, quando faz as comunicações ao país, a da lareira e uma menor, com uma tapeçaria antiga na parede.

Ainda faltava perto de meia hora para as portas de abrirem ao "povo" no dia em que se celebrava o 42º aniversário na revolução e já uma fila de quase 200 pessoas esperava pacientemente, entre os quais muitos estrangeiros. "Ouvimos muito falar do 25 de abril e decidimos este ano vir assistir às comemorações", diz Dominique Davoine, que é vereador da vila francesa de La Fleche. "A vossa revolução foi extraordinária. Teve cravos. A nossa teve guilhotinas", diz a rir.

Conversa com Carlos Alves, um bancário reformado, ex-aluno do Liceu Francês, que fala a língua fluentemente. Diz-lhes que tem "curiosidade em ver onde vive o primeiro-ministro", mas quer despachar-se para "ainda ir ao desfile na avenida da Liberdade". Adelino Couto veio do Porto com os dois filhos, Santiago, 7 anos e Martim, de 9. "Nos últimos tempos a minha sensibilidade política aumentou e quis ver de perto os sítios onde se faz política", desabafa o pai.

Talvez o sol, o calor, o intenso aroma a primavera, tenham ajudado, mas o que se viveu na tarde de ontem na residência oficial do chefe do governo e nos frescos jardins, tinha muito de invulgar e que surpreendeu os visitantes. "Leve consigo o símbolo da liberdade. Um destes cravos é para si", lia-se numa pequena tabuleta a apostar para uma área de relvado colorido com centenas de pontos vermelhos - os cravos - para onde as pessoas podiam saltar e escolher a sua flor.

Também podiam registar aquele momento de forma original. Junto ao tapete de relva e cravos havia molduras atrás das quais muitos, sozinhos, a pares, famílias inteiras, pousavam para a fotografia. Escrita em baixo, a legenda apropriada: "Residência Oficial do Primeiro-Ministro - 25 de abril, de 2016".
António Costa passou por lá a meio da tarde. Primeiro um pouco constrangido ainda, com o calor e a multidão que se acotovelava para o cumprimentar. Mas, rapidamente, se deixou ir na corrente de emoções calorosas e pousou sorridente para centenas de selfies.

Andando pelos jardins ia recebendo abraços, interrompendo cada passo. Ouviu atentamente a Orquestra Geração, que reúne jovens talentosos de bairros desfavorecidos e que têm tido sucesso em todo o mundo. "A democracia recorda-nos que o poder reside no povo e é exercido em nome do povo. É importante que todos sintam que estes locais de trabalho dos órgãos de soberania não são dos órgãos de soberania, são vossos, são do povo, dos cidadãos - e foi isso que quisemos transmitir abrindo as portas da residência oficial de São Bento neste 25 de Abril", declarou o primeiro-ministro.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.