PS esconde acordo com PCP e Bloco de Esquerda

Só após chumbo do programa de governo da coligação é que Costa irá revelar as propostas concretas do acordo à esquerda

A ideia é esta - e parte do pressuposto de que o Presidente da República indigitará Pedro Passos Coelho para formar governo: o PS não quer mostrar publicamente os pormenores programáticos do acordo que está a negociar com o BE e o PCP antes de se discutir no Parlamento o programa de governo que o líder do PSD terá necessariamente de apresentar. Não tenciona fazê-lo - mesmo que esse acordo já esteja todo devidamente acertado.

Motivo: António Costa quer que essa discussão do programa de governo da coligação PSD-CDS se centre exclusivamente nesse mesmo programa, não sendo contaminada com uma discussão sobre o programa das esquerdas.

Na terça-feira à noite, o presidente do PS, Carlos César, sinalizou na SIC que este seria o procedimento a seguir - e ontem uma outra fonte da direção do PS corroborou a informação ao DN, sublinhando que esta é uma opção de António Costa e não uma visão individual deste ou daquele dirigente.

Ao optar por este caminho - que também permite a PS, BE, PCP e PEV prolongarem as negociações -, Costa está também a reconhecer que cometeu um erro na campanha eleitoral ao fazer aprovar no PS um programa marcado por uma dose inédita de detalhes orçamentais.

Os socialistas mediram o impacto das suas principais medidas económicas, a ponto de estimarem, por exemplo, a criação de 207 mil empregos até ao final da legislatura, um número rapidamente ridicularizado por todos os outros partidos, que recordaram a promessa (não cumprida) de José Sócrates em 2005: a criação de 150 mil empregos.

Na campanha eleitoral, o excesso de transparência socialista fez assim que no centro de todas as atenções tivesse o programa do PS em vez dos outros programas, nomeadamente o da coligação PSD-CDS.

Preocupação no Bloco

Entretanto, estava prevista uma reunião entre as delegações do PS e do BE para hoje, mas os socialistas pediram que o encontro fosse adiado. Segundo soube o DN, o adiamento foi recebido pelos bloquistas com preocupação, até porque chegou a estar marcada uma reunião para ontem que não aconteceu porque o PS quis acelerar as negociações - numa fase mais atrasada - com o PCP.

De acordo com as informações recolhidas pelo DN, neste momento são as questões fiscais a dominar as conversações entre o PS e o BE, em particular a revisão dos escalões de IRS. Há várias hipóteses em cima da mesa, embora ninguém abra o jogo sobre qual a formulação que satisfará a pretensão das duas forças políticas de conferir maior progressividade àquele imposto. Nos programas dos dois partidos estava prevista a criação de mais escalões neste imposto - mas no do PS sem pormenores (o BE defende "a reposição dos oito escalões existentes antes da troika").

Igualmente em discussão está também a questão do salário mínimo nacional. PCP e BE defendem que deve ser imediatamente atualizado para 600 euros, enquanto o PS só admite que esse valor se atinja em 2019. O valor que António Costa reconheceu como possível ainda para este ano foi de 522 euros - montante em que o salário mínimo nacional poderia estar se não tivesse sido congelado (uma imposição da troika em relação à qual Passos Coelho assumiu total concordância). Atualmente, o valor é de 505 euros. Estão assim em causa nas negociações valores para atualizações e o respetivo calendário.

E Cavaco?

As negociações com o PCP parecem estar a decorrer mais lentamente, mas a convicção entre os partidos sentados à mesa é de que qualquer hesitação, dificuldade ou resistência dos comunistas não fará o PCP assumir o ónus da rutura. Seria trágico para o partido, para todos, mas sobretudo para quem rompesse com a possibilidade de entendimento, disseram os interlocutores do DN.

Entretanto, dentro do PS, os que resistem a entendimentos à esquerda fazem por ignorar os apelos que lhes têm sido lançados pela coligação PSD-CDS (Paulo Rangel, por exemplo, falou nos "socialistas de bom senso"), prometendo que dirão o que tiver de ser dito dentro do partido. "Somos socialistas", sublinhou um deles ao DN - no que pareceu ser uma garantia de que as divisões não redundarão em cisão.

Ontem, gorando as expectativas geradas por alguns media, Cavaco Silva não anunciou o que fará agora, depois de ter ouvido em Belém delegações de todos os partidos com deputados eleitos. A comunicação poderá ser hoje. O Presidente da República terá de escolher uma de três opções: indigitação de Passos Coelho, indigitação direta de António Costa ou pedir aos partidos do "arco europeu" (PSD, CDS e PS) que retomem negociações. Especulava-se também sobre a possibilidade de convocar o Conselho de Estado.

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