PS e CDU: os 426 votos de diferença em 2013 aguçam o duelo

Combate autárquico no Montijo. Uma autarquia que é a única socialista na península de Setúbal há 20 anos. Mas em 2013 a diferença com a CDU foi de menos de 500 votos. Atual autarca Nuno Canta entrou em rutura com Maria Amélia Antunes (um marco socialista na cidade) o que pode mudar o cenário. Mas conta com o apoio oficial de António Costa e do partido.

A autarquia do Montijo tem, desde logo, uma particularidade: é a única da península de Setúbal que o PS conseguiu "agarrar", já lá vão 20 anos. Todas à volta preenchem o bastião comunista da região. Mesmo no distrito, só Sines partilha com o Montijo a cor rosa. Mas em 2013, o atual presidente da autarquia, Nuno Canta, contabilizou apenas 28,6% dos votos, ficando com apenas 426 a mais da coligação CDU (que conquistou 26% do eleitorado). Uns resultados bastante mais baixos do que os alcançados em 2009 (48,7%). Cenário que pode até piorar já que durante este mandato, Nuno Canta entrou em rutura com a sua anterior "mentora" Maria Amélia Antunes, também militante do PS e sua antecessora na autarquia.

Da estrutura do partido, o apoio foi público e notório: Nuno Canta recebeu com toda a pompa e circunstância o primeiro-ministro António Costa quando apresentou a sua candidatura há poucos meses. Pedro Marques, ministro do Planeamento e Infra Estruturas - natural do Montijo - fez também parte da comitiva nesse dia. "São aliás vários os membros do Governo que têm demonstrado o apoio à minha candidatura, incluindo secretários de Estado", explica o autarca em conversa com o DN. Já da parte da oposição comunista, a leitura política é outra: "esta é, para já, a única autarquia socialista e por isso estão com medo de a perder porque a diferença de 2013 foi pouca. O PS tem de mostrar que está lá", explica o candidato Carlos Jorge Almeida . "É natural que António Costa esteja a dar a cara mas isso revela ao mesmo tempo alguma fragilidade", explica o também atual vereador.

Quando questionado pelo DN sobre o atual presidente da câmara, Carlos Almeida não hesita em chamá-lo de "Donald Trump da política". Públicos são os "desacatos" que já caracterizaram as assembleias municipais e reuniões de câmara com Nuno Canta a "perder as estribeiras, com um sentido muito pouco democrático", segundo contou ao DN outro dos seus "rivais" de candidatura. Carlos Almeida não hesita em acusá-lo de "xenófobo quando uma vez numa reunião não concordou com uma opinião que expressei e acabei a ouvir um : vá para a sua terra!". Carlos Jorge Almeida vive no Montijo (há pouco tempo) mas nasceu na Moita. Declarações que geraram um movimento no facebook "Somos Todos Montijo" como forma de protesto contra o presidente da câmara. Ironicamente, acabou por ser essa mesma frase que foi escolhida por Nuno Canta como mote da sua atual campanha (ver foto ao lado).

Célebre ficou também o episódio - que resultou numa condenação judicial e no pagamento de uma indemnização de mil euros - de Nuno Canta a agredir um deputado da assembleia municipal "com um jarro". Questionado pelo DN, Nuno Canta desvaloriza alguns destes episódios, acusando a oposição de ser "demasiado infantil", acrescentando que "as divergências de opinião não são só de um dos lados". E argumenta que se "se calhar perco a cabeça a debater-me pelas minhas ideias!". E admite que voltar a uma maioria absoluta do PS é a sua meta para o ato eleitoral que se avizinha.

Cipriano Prisco é o terceiro candidato a apresentar-se às eleições de 1 de outubro, apoiado pelo Bloco de Esquerda (BE). Objetivo? Conseguir eleger um deputado municipal. No programa, o candidato bloquista elege como uma das principais preocupações a recuperação da zona ribeirinha, à semelhança do seu partido "colega" de geringonça. Tal como na preocupação de aproximar as populações das freguesias mais pequenas (da zona Este) às restantes.

No município as opiniões são unânimes, mesmo as que chegam dos quadrantes políticos, ao defenderem que falta uma definição da oferta hospitalar que cabe aos utentes (quer do Montijo, quer de Alcochete). Desde 2008 que o corpo clínico do Montijo se deslocou para o Barreiro, na altura da criação do Centro Hospitalar Barreiro/Montijo, a uma distância de 30 km da cidade. Tal como a revitalização da zona ribeirinha e dos espaços desportivos, em parte devido às más condições do atual estádio municipal. Nuno Canta promete estacionamento gratuito para quem atravesse, de barco, para a outra margem. Promete ainda a revitalização de todas as infra estruturas desportivas, realça a importância da construção do novo aeroporto na base aérea número seis, a requalificação das piscinas municipais, aposta nas ciclovias para bicicletas e pretende ainda a melhoria das infraestruturas escolares.

Já para o candidato comunista, a aposta assenta na "visão integrada de um território que é descontinuado, com algumas freguesias a Este a serem completamente isoladas". Por isso, sugerem a construção do novo aeroporto em Canha (a freguesia a Este mais extensa), aposta na limpeza da cidade e no recentrar a vida do Montijo na zona ribeirinha.Da parte do candidato da coligação PSD/CDS, João Afonso, o advogado aposta na construção de um novo hospital (com dinheiros camarários em parceria com as IPSS), recusa a extensão do metro de superfície Seixal/ Almada (defendida pelo PS e CDU) e propõe antes o "Bus Rapid Transit". "Um autocarro ambiental, vinte vezes mais barato e mais amigo do ambiente", diz ao DN. E não foge ao tema recorrente da requalificação da zona ribeirinha, "inspirada no projeto da Póvoa de Santa Iria".

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