PS admite assinar dois acordos: um com Bloco e outro com PCP

Negociação tem sido feita a dois e não há plano para encontro tripartido. Acordos separados permitiriam ultrapassar divergências

As negociações à esquerda prosseguem e, perante alguns sinais contraditórios que vão sendo dados por PS, BE e PCP, surge uma nova possibilidade no horizonte: ao invés de um acordo assinado pelos três partidos (e também pelo PEV), a solução pode passar por documentos autónomos rubricados por PS+BE, PS+PCP e PS+PEV.

Segundo apurou o DN, a hipótese aparece como alternativa à formalização de um acordo tripartido assinado por António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa - que continua a ser a possibilidade mais forte -, embora haja uma premissa clara: não podem existir contradições nos termos e compromissos políticos dos documentos que pusessem em causa a estabilidade do futuro governo.

A existência de um documento único teria a vantagem de transmitir à opinião pública e ao Presidente da República um sinal político de força e unidade da convergência, embora também exista a convicção de que as balizas políticas, preto no branco em separado, não diminuem o acordo. Seria, de resto, uma forma de ultrapassar algumas divergências num processo de conversações que poderá estar muito próximo de estar fechado - o PS quer estar em condições de apresentar uma alternativa governativa quando for discutido (e chumbado) o programa do governo PSD-CDS.

Com as negociações a decorrer em paralelo, para já, não está marcado qualquer encontro a três (PS, BE, PCP), o que poderá acontecer quando for vencida a fase das reuniões técnicas e a discussão entrar na fase final, ao mais alto nível, com Costa, Catarina e Jerónimo.

César pressiona esquerda

Ontem, o líder parlamentar do PS voltou a colocar pressão sobre os partidos à sua esquerda dizendo que até à discussão do programa do governo PSD-CDS tem de ficar "aclarado" se haverá um executivo alternativo, condição para que os socialistas façam cair a equipa de Passos Coelho.

"Não votaremos nem apresentaremos nenhuma moção de rejeição se não tivermos em simultâneo a garantia de que temos uma alternativa acordada e consolidada", afirmou Carlos César após uma reunião institucional com o novo ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Costa Neves, em que adotou uma linguagem "prudente e responsável" sobre o eventual acordo.

E, subscrevendo a versão oficial do partido de que não haverá uma coligação negativa, justificou: "Nós só nos constituiremos como força política que contribui para o derrube do governo PSD-CDS se formos simultaneamente portadores de uma alternativa responsável, estável, com sentido duradouro e que proporcione aos portugueses um sentimento de tranquilidade e de confiança."

De caminho, o presidente da bancada do PS garantiu que "não está nenhum acordo fechado", embora tenha frisado que existe "alta probabilidade" de PS, BE e PCP se entenderem.

O também o presidente rosa aproveitou a ocasião para sinalizar que as negociações decorrem com normalidade e enviou um recado para dentro de casa, mais concretamente para Francisco Assis: "Como socialista, digo apenas que não acredito que um socialista prefira um governo de direita com o apoio do PS a um governo do PS com o apoio da esquerda."

PCP insiste em moção a solo

Já João Oliveira, líder parlamentar do PCP, reafirmou que até "decisão em contrário", e mediante as negociações em curso com PS e BE, o partido tenciona avançar com uma moção de rejeição própria ao programa de governo. "É a única coisa que posso garantir", declarou.

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.