Professores das escolas do insucesso veem vantagens nos chumbos

Equipa liderada por Maria de Lurdes Rodrigues fez o retrato de 500 escolas.

O estudo, patrocinado pelos Empresários pela Inclusão Social e coordenado pela ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues, integrando também Isabel Alçada entre os autores, chama-se "Aprender a Ler em Portugal". Mas as conclusões vão para além da constatação das dificuldades que muitos alunos têm no domínio da leitura. Enunciam também as suas consequências: uma tendência para a retenção precoce - logo a partir do 2.º ano - concentrada num universo de 500 escolas, definidas pelos autores como "escolas do insucesso"; e uma aparente aceitação dessa realidade como algo de inevitável, com 87% dos professores inquiridos - num universo de pouco de mais de uma centena de escolas entrevistadas - a considerarem mesmo que chumbar alunos destas idades tem algumas vantagens, nomeadamente uma suposta consolidação dos conhecimentos.

A esmagadora maioria dos estudos internacionais e nacionais sobre o tema do insucesso dizem o contrário. E o próprio Conselho Nacional de Educação tem insistido na ineficácia do recurso sistemático à retenção, categoria em que Portugal é recordista na OCDE. Só no 2.º ano de escolaridade, em 2014/15 foram retidos 10,2% dos alunos. Mas para estes professores, diz ao DN Maria de Lurdes Rodrigues, esta é uma das opções entre duas escolhas igualmente más: reter ou passar administrativamente. Metodologias de trabalho alternativas, para tentar mobilizar os alunos para a aprendizagem, raramente são mencionadas pelos inquiridos.

Desconhecimento? "Pode ser desconhecimento mas também pode ser o esmagamento pelas condições reais", diz a ex-ministra. "Admito que o professor conheça os debates mas esteja esmagado por uma turma onde os alunos não aprendem. É verdade que as perceções e atitudes dos professores são essas e provavelmente encontram-se essas perceções noutras escolas, nomeadamente nas escola de sucesso, mas aí a questão não se coloca. A prática mudou. Nestas escolas é possível que essas perceções tenham uma maior repercussão na prática".

A boa notícia, segundo Lurdes Rodrigues, que visitou mais de uma centena de estabelecimentos, é que "a tendência para a retenção não é nenhuma fatalidade. Este foi um trabalho de campo, em que partimos dos dados de 2015 mas continuámos a acompanhar as escolas. E várias delas conseguiram reduzir o insucesso a zero", conta. "Três desses casos estarão esta segunda-feira na Gulbenkian, na apresentação do estudo", acrescenta. De resto, considera, "o facto de a retenção de concentrar essencialmente num universo tão pequeno, 500 escolas, até pode ser uma vantagem, porque torna-se mais viável definir soluções a nível local, com o apoio dos serviços centrais ou regionais do Ministério. Não é uma tarefa impossível", defende.

Nas escolas que conseguiram dar a volta, acrescenta, o elemento decisivo foi "a direção do agrupamento ter chamado a si o problema. Ter assumido o problema como seu e não apenas de uma determinada escola, por causa do contexto em que esta se insere. Muitas das escolas em dificuldades estavam um pouco entregues a si próprias", conta. "Um diretor até ficou admirado quando fomos ter como ele. Tinha cinco escolas ótimas e uma escola de insucesso. Acreditava que o problema tinha a ver com a escola, com a zona onde esta estava, que não era um problema do agrupamento".

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