Primeiros realojamentos terminaram há 15 anos

O realojamento de 248 famílias na Quinta do Cabrinha foi o primeiro do processo de reconversão do Casal Ventoso - o bairro considerado mais problemático de Lisboa no fim do século passado - e ficou concluído há 15 anos.

O problema era ímpar à escala nacional. A expressão do desafio era significativa mesmo em termos europeus. A partir do fim dos anos 1980 e durante a década de 90, diariamente, mais de cinco mil pessoas desciam ao bairro para consumir drogas. Existiam cerca de 500 consumidores residentes a viver viviam em condições extremamente precárias, muitas vezes em barracas.

"O bairro era o hipermercado das drogas, mesmo a nível europeu", lembra Judite Lopes, responsável pelo setor de intervenção social do Gabinete de Reconversão do Casal Ventoso (1996-2001), em declarações à agência Lusa.

O expressivo tráfico e consumo de drogas colou ao nome do bairro a imagem de um formigueiro humano, feito de filas intermitentes de consumidores.

A este cenário juntava-se a progressiva degradação do edificado: um estudo da Câmara de Lisboa divulgado em 1995 revelava que 40% dos fogos não tinham água canalizada, 27% não possuíam esgotos, 10% estavam sem eletricidade, metade não dispunham de "banho" e 42% não tinham cozinha.

A resposta -- que demorou anos a chegar e outros tantos a ganhar forma -- teve de agigantar-se para eliminar o problema e custou mais de 100 milhões de euros. "Não se tratava apenas de realojar famílias", lembra Judite Lopes.

"Havia agregados que viviam do seu trabalho, mas grande parte estava envolvida nos esquemas do tráfico de droga. As famílias eram muito desarticuladas", acrescenta.

A responsável explica ainda que "reconverter uma área habitacional com toda a problemática que o Casal Ventoso continha exigiu uma operação integrada, um plano que, a par do realojamento, previa uma estratégia de intervenção social para combater a toxicodependência, para combater o absentismo e o abandono escolar, e uma intervenção social junto dos idosos e dos jovens adolescentes".

Esta intervenção foi "pioneira" em muitos aspetos, desde o combate à toxicodependência - "com a aplicação de um programa de metadona e o enquadramento sócio-higieno-sanitário" dos consumidores -, passando ainda pela abertura da pré-primária na escola pública e pelo enriquecimento dos currículos escolares, através da introdução do inglês e da informática, da ampliação dos tempos pedagógicos e do acompanhamento na saúde escolar e na alimentação.

"Contámos com o apoio do Programa Urban, da então Comunidade Europeia, e com o contributo decisivo da autarquia, que suportou custos de realojamento superiores a 75 milhões de euros", afirmou ainda.

O realojamento na Quinta do Cabrinha, recordou Judite Lopes, foi "o mais emblemático", por ser "o primeiro momento em que se conseguiu observar que seria possível iniciar um diálogo de vivência mais construtiva com os moradores".

Na opinião de Filipe Santos, presidente do Projeto Alkantara, uma associação de luta contra a exclusão social que trabalha no bairro desde a sua inauguração, o processo de integração destas populações "podia já estar muito mais avançado se não tivesse sido interrompido" quando a câmara mudou de mãos, da presidência de João Soares (PS) para a de Pedro Santana Lopes (PSD).

À Lusa, Helena Lopes da Costa, vereadora da Ação Social de Santana Lopes (2002-2004), afirmou que a melhor resposta que pode dar a estas críticas é a vitória do PSD na Junta de Freguesia de Alcântara nas eleições autárquicas de 2005.

A então responsável explicou ainda a decisão da autarquia de extinguir, logo em 2002, o Gabinete de Reconversão do Casal Ventoso: "Era uma estrutura luxuosa, com administradores bem pagos, com bons automóveis. Em 2002 as pessoas já estavam realojadas, nada justificava que continuasse a existir", afirmou.

João Soares disse à Lusa que essas afirmações são "mentira", argumentando que os elementos daquele gabinete se ocupavam de tarefas que o seu executivo considerava "essenciais para uma boa reintegração das pessoas".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".