Pressionado à esquerda, PS faz tabu com maioria absoluta

O PS quer um "reforço da influência" nas próximas eleições, mas recusa falar em maioria absoluta. Catarina e Jerónimo já disseram que nessa circunstância não assinam acordos

Augusto Santos Silva repetiu ontem numa entrevista à TSF, quase ipsis verbis, o que já tinha escrito em 17 de abril no Público. "Entendemos que a renovação da confiança depositada no PS e a renovação da atual fórmula política passa naturalmente pelo reforço da influência social e política do Partido Socialista", disse ontem. "O PS pedirá ao eleitorado, sem qualquer hesitação ou ambiguidade, o reforço da sua influência e a continuação do seu mandato. Para renovar os acordos que fez, na atual legislatura, à sua esquerda, assim esta o queira. Quanto mais força tiver o PS, melhor o conseguirá - e, assim, respeitando os parceiros de jornada, mas com igual autonomia, há de pugnar pelo melhor resultado eleitoral possível", escrevera há duas semanas o ministro dos Negócios Estrangeiros (e número dois político do governo, substituto oficial do primeiro-ministro António Costa nas suas ausências).

"Reforço da influência" tornou-se assim na expressão-chave para o PS falar dos seus objetivos para as próximas eleições legislativas. Consta também na moção de estratégia que António Costa apresentou para o próximo congresso do partido (de 25 a 27 de maio, na Batalha). "O PS conta com os seus militantes, simpatizantes e eleitores e com todos os portugueses para mobilizar o país para estes desafios. Isso implica, desde logo, reforçar a influência política e social do partido."

Para alguns comentadores - como Luís Marques Mendes -, esta ambição esconde na verdade uma outra, bastante mais concreta: maioria absoluta. Mas em rigor também dá margem ao PS para dizer, caso vença as legislativas sem esta maioria, que nunca a pediu. Ganhar as eleições e ser o maior partido parlamentar já seria uma novidade face a 2015.

Diga-se, aliás, que a única vez em que apareceu a expressão "maioria absoluta" no léxico oficial do PS foi pela voz do próprio Costa, numa entrevista à Rádio Renascença, em abril do ano passado. Para dizer basicamente que o PS negociará à esquerda acordos permanentes após as próximas legislativas, seja qual foi o resultado que obtiver (e não apenas se estiver em estado de necessidade, como em 2015): "Esta solução governativa é uma boa solução com maioria absoluta ou sem maioria absoluta. No final da legislatura, quando houver eleições, mesmo com maioria absoluta, da minha parte, havendo disponibilidade do BE, do PCP e do PEV para renovar este acordo, seria útil que isso acontecesse." A partir daqui a "maioria absoluta" desapareceu para parte incerta. Tal como noutras ocasiões, o PS irá usando expressões alternativas. A primeira é "reforço de influência". Mas outras poderão aparecer.

"Jarras" e "peninhas no chapéu"

Há, além do mais, uma outra razão para a "maioria absoluta" se ter tornado num tabu para a direção do partido. É que tanto o Bloco de Esquerda como o PCP já afirmaram que se o PS alcançar esse resultado não haverá necessidade nenhuma de renovar as "posições conjuntas", nesse ou noutro formato qualquer. "O grande problema é a experiência histórica", disse uma vez Jerónimo de Sousa, entrevistado na Antena 1. Portanto: "Ninguém pense que o PCP poderia funcionar como uma peninha do chapéu [do PS]". Catarina Martins, líder do BE, usaria uma imagem semelhante: "Não servimos para jarras. Não somos elementos decorativos."

Enfim, todos procuram "reforçar a influência". O PS mas também o BE e o PCP, além de sindicatos e centrais sindicais. O que está em causa é ganhar espaço para condicionar o resultado das eleições legislativas, a governação depois - mas também a governação atual. Falta um ano e meio para as próximas legislativas (com "sondagem" prévia nas europeias de junho de 2019) e isso explicará hoje, em parte, um Dia do Trabalhador mais mobilizado e reivindicativo do que nos anos anteriores.

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