Presidente do PS contra ex-socialista apoiado por PSD e CDS

O concelho avança para as próximas autárquicas num combate de socialistas contra socialistas. A médica de família Paula Vilallonga, candidata da CDU, espera que os eleitores vejam nela uma alternativa de "paz"

"Conhecemos todos e ninguém gosta deste lavar de roupa suja em público", lamenta Susete Duarte, da direção da Associação Cultural e Recreativa Grupo Coral Henriquinas (ver entrevista ao lado). Fala do mal-estar no concelho de Vila do Bispo em relação aos desentendimentos e à rutura recente entre os socialistas que integravam a equipa do atual presidente da câmara municipal, Adelino Soares, do PS.
O vereador socialista Afonso Nascimento e o presidente da Assembleia Municipal, Nuno Amado, são agora os cabeças-de-lista da candidatura independente Juntos pela Mudança, que conta com o apoio do PSD e do CDS. Em conjunto com um grupo de militantes do PS daquela concelhia entregaram os cartões do partido, num sinal inédito.
"A vida é feita disso mesmo. Essas pessoas não se identificaram com o projeto do PS para Vila do Bispo e saíram. Eu próprio fiz tudo para que saíssem. Na política não vale tudo", afirma, sem rodeios, Adelino Soares, candidato ao terceiro mandato na câmara. Já Afonso Nascimento explica ao DN que "ao longo dos últimos anos foram vários os acontecimentos que nos levaram a afastar-nos da política praticada pelo atual presidente de câmara, e o facto de os compromissos assumidos para com os munícipes não estarem a ser cumpridos foi o culminar desta situação, provocando a rutura".
Adelino Soares responde dizendo que "quem tem a consciência de a missão ter sido cumprida não está preocupado". Destaca "a redução significativa" da dívida da câmara de 15 para dez milhões de euros; a nova escola da freguesia Budens, "um novo impulso ao parque escolar do concelho que tem permitido que haja muito mais gente, residente ou a trabalhar, que passou a trazer os seus filhos"; a taxa de desemprego "das mais baixas do distrito", apoiada "numa cada vez menor sazonalidade da ocupação no concelho", com um reforço do turismo além da praia, "assente também num turismo ligado à natureza, com as caminhadas, os passeios de bicicleta, a arqueologia, as atividades subaquáticas, com parcerias entre a câmara e a Escola Naval".
Motivo de orgulho para o autarca é o prémio, conhecido no dia 27 de julho, que distinguiu Vila do Bispo como Município do Ano 2017, a nível regional. O galardão foi atribuído pela Universidade do Minho, através da sua plataforma UM-Cidades, que visa premiar as boas práticas das autarquias, com impacto no território, na economia e na sociedade e que promovam a sustentabilidade. Vila do Bispo ganhou com o projeto Evocação das Operações do U-35 em Sagres, apresentado em abril passado, quando se comemoravam os cem anos sobre as operações de um submarino da marinha imperial alemã que, na I Guerra Mundial, afundou três navios nas águas de Sagres e cujos destroços foram descobertos recentemente pela Marinha.
Adelino Soares destaca como "prioridade" para o próximo mandato, caso seja eleito de novo, criação de casas para habitação de longa duração que "ajudem mais a fixação das pessoas" e criar "todas as condições " para proporcionar essa fixação, como "emprego e qualidade de vida". Para arrancar logo após as eleições tem planeada a construção da sede do Clube Recreativo Infante Sagres, um dos mais antigos do concelho, que proporciona diversas modalidades desportivas, e a construção do Espaço Público de Ação Cultural, uma espécie de museu para mostrar a história e o património do concelho. "Mas as pessoas têm de ter noção de que para fazer tudo isto é preciso que o PS tenha a maioria absoluta. Sem isso será muito complicado, será mesmo impossível trabalhar. Sem maioria serão mais quatro anos de conflito", sublinha, assumindo que "seja qual for o resultado" assumirá sempre o papel para que for eleito, seja como presidente ou como vereador.
Afonso Nascimento, empresário de 43 anos, por seu lado, considera que "a maior marca deixada pelo atual presidente da câmara é o total abandono do concelho, além de uma péssima gestão de prioridades e de recursos financeiros do município". Tem como prioridades a "aposta no turismo, não só na promoção mas naquilo que é fundamental, que é a experiência do turista em Vila do Bispo"; a requalificação urbana, dando como exemplo o mercado de Sagres, onde se vende do "melhor pescado do país e quase não tem condições para funcionar, tal o estado de degradação"; e criar condições para fixar a população jovem.
Sem querer entrar em guerras e assumindo uma atitude "muito tranquila e firme nos objetivos" está a candidata da CDU, Paula Vilallonga. Médica de família, 61 anos, já foi presidente da Assembleia Municipal de Serpa, mas há oito anos que se mudou para Vila do Bispo. "Eu escolhi viver aqui e, dada a minha profissão como médica de família, falo muito com as pessoas, sei dos seus problemas e do que gostariam na sua terra", afirma. Faz questão de "não entrar em guerras", como as protagonizadas pelos adversários. "Queremos melhorar a vida das pessoas, além do turismo, através da criação de emprego, da promoção das produções locais, de incentivos ao desporto e à cultura. Sabemos que é possível e são as pessoas que falam connosco sobre essas necessidades. Todos me conhecem e acreditam que podemos ser a alternativa", afirma.

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Rosália Amorim

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