"Preocupa-me que responsáveis tenham medo de decidir"

Jaime Nogueira Pinto sobre Trump: "É um grunho, inteligente, que não sabe nada, mas percebe muita coisa"

O politólogo reeditou esta noite a sua conferência cancelada na Universidade Nova - "Os populismos nos Estados Unidos e na Europa" -, num jantar reservado do grupo Portugal XXI, um think thank que junta uma elite de jovens altos quadros do setor privado o público do PS, PSD, CDS e independentes. A organização avisou logo no início que o convidado, Jaime Nogueira Pinto, não queria falar sobre o episódio de que foi protagonista há duas semanas, mas este acabou por ceder já no final, com uma pergunta indireta da moderadora Rosália Amorim, diretora do Dinheiro Vivo: "O populismo entrou no debate político das universidades?". Nogueira Pinto sorriu e respondeu: "Sabem que li os argumentos da Associação (de Estudantes) que me chamava xenófobo e achei aquilo tudo um pouco histérico. Mas a mim o que me preocupa mais é a incapacidade de pessoas com responsabilidade de decidir tenham medo da decisão. Há decisões que têm que ser tomadas, mesmo que não seja de forma racional. É que eu apanhei as universidades completamente dominadas pelas esquerdas, bastante mais ativas que esta, e não tínhamos medo. Nem era agora que íamos ter".

Durante mais de duas horas entre a sua apresentação e o debate que se seguiu, Jaime Nogueira Pinto, foi falando e passeando tranquilamente entre as mesas. Sapiente e muito irónico. "Donald Trump é um grunho!", declarou, deixando os convivas em suspense. E continuou: "um grunho básico, muito inteligente, um outsider, que não sabe nada, mas percebe muita coisa". Assumindo que votaria no atual presidente dos EUA, cuja eleição, tal como previra, "não foi o apocalipse", comparou Trump ao empresário António Champalimaud, que "primeiro causava choque para depois negociar".

As perguntas foram sucedendo. Se em Portugal há lugar para um "grunho" desta natureza na política, perguntaram. Acha que não, que "desde Sidónio Pais, na sociedade portuguesa não perduram essas personalidades". E é o nosso Presidente da República populista? "Não, é mais um fenómeno social e evangélico, de uma simpatia irresistível". E há partidos populistas a apoiar o atual governo?, perguntava alguém, deixando implícita uma referência ao BE. "Não me parece também, é uma espécie de esquerda caviar disfarçada de algum popularismo (sic)...".

Jaime Nogueira Pinto sinalizou a fonte do aumento das votações nos chamados partidos populistas, como a Frente Nacional, ou à esquerda o Podemos, no facto de oferecerem "às pessoas aquilo que, sendo popular, escapa aos partidos main stream, do sistema". O académico diz que o mundo atual está a viver uma "mudança de paradigma, um tempo de rutura", com o primeiro grande exemplo a vir dos dois mais antigos países constitucionais (EUA com a eleição de Trump e Inglaterra com o Brexit). "Quando os modelos existentes não respondem, as pessoas procuram outras coisas", sublinha. Uma das críticas que aponta é que "a classe política pôs de lado o fenómeno nacional e o nacionalismo é sempre associado ao nacional socialismo alemão, o que é o mesmo que relacionar a democracia com a revolução francesa. Não vale a pena empurrar essas ideias pela porta porque elas acabam por nos entrar pela janela".

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