Portugal recusou negociar os esforços de paz da Alemanha

Berlim declarou guerra a Lisboa no dia 9 de março de 1916, duas semanas após a requisição dos seus navios em portos nacionais

Faz hoje 100 anos que a Alemanha declarou formalmente guerra a Portugal face ao silêncio com que foram recebidas as suas tentativas diplomáticas para evitar o corte de relações bilaterais.

"A primeira reação alemã não é de rutura, mas uma tentativa de negociação" da crise aberta com a requisição, pelo governo português de Afonso Costa, dos navios germânicos que estavam fundeados em portos nacionais e nas colónias africanas, assinala ao DN o historiador Nuno Severiano Teixeira.

Com o embaixador alemão em Lisboa, barão Von Rosen, a manifestar "essa vontade de negociar e a solicitar a reversão da medida" decretada no próprio dia da apreensão dos 72 navios de carga, a 23 de fevereiro, "Portugal não reverteu e o ministro dos Negócios Estrangeiros [Augusto Vieira Soares] não respondeu sequer [...] e deu instruções a Sidónio Pais [embaixador de Lisboa em Berlim] para repatriar os portugueses", lembra o vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa.
A decisão das autoridades portuguesas em requisitar os navios alemães foi feita a pedido da Inglaterra e ao abrigo da aliança luso-inglesa, assinada em 1373. "Foi o que o governo queria, correspondia à estratégia intervencionista de Afonso Costa e é a oportunidade de concretizar a estratégia" delineada para consolidar o regime republicano e manter o império colonial africano - cuja partilha já tinha sido objeto de negociações entre Londres e Berlim e "por duas vezes" nos anos anteriores ao início da guerra, sublinha o académico.

De facto, a vontade de preservar as colónias africanas que faziam fronteira com territórios alemães já tinha justificado o envio de algumas expedições militares da metrópole para Angola e Moçambique. Acresce que em 1914 já tinham existido confrontos entre tropas dos dois países, como o chamado combate de Naulila (sul de Angola), em que morreram dezenas de soldados portugueses.

Contudo, essa situação "nunca foi fundamental para declarar a guerra. Era secundário" quando comparado com o Atlântico, um teatro de operações "central na guerra", regista Nuno Severiano Teixeira, autor de O Poder e a Guerra, 1914-1918 - Objetivos Nacionais e Estratégias Políticas na Entrada de Portugal na Grande Guerra (2006).

As tentativas da Alemanha para evitar a entrada formal de Portugal na guerra iniciada em 1914 - e que a Inglaterra também não queria por motivos políticos e económicos - fizeram-se sentir também por via de Sidónio Pais, num telegrama enviado de Berlim no dia 2 de março de 1916. Segundo o diplomata português, os dois países poderiam evitar a guerra se Lisboa desse garantias de que os navios apresados não seriam entregues à Inglaterra.

Este interesse alemão explica-se com o que Nuno Severiano Teixeira qualifica como "o contexto estratégico" da época: uma guerra submarina desenvolvida pela Alemanha no Atlântico desde "meados de 1915", que impunha "perdas brutais" aos Aliados e que, no início de 1916, se cifravam em 2,2 milhões de toneladas de carga das marinhas inglesa e francesa.

"Havia uma enorme carência de tonelagem do lado aliado" quando, nos portos portugueses, os navios alemães aí estacionados "correspondiam a cerca de 240 mil toneladas." Esse valor "era significativo e tinha importância estratégica" - a ponto de "estar aí a raiz do pedido inglês" para Portugal tomar posse dessas embarcações, refere o professor catedrático e especialista em I Grande Guerra.

"Era uma estratégia de provocação" do governo português, que obteve "vitórias táticas": a primeira, ao levar a Inglaterra "a invocar a aliança" bilateral; no caso alemão, "no sentido de provocar a declaração de guerra que veio a conseguir", destaca Severiano Teixeira.

No final dessa "diplomacia de oportunidades" de Afonso Costa, conclui o ex-ministro da Defesa, "todos os objetivos coloniais portugueses foram atingidos. O império não foi beliscado e ainda vai buscar território" - Quionga, no rio Rovuma - com o Tratado de Versalhes.

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