Portugal não compreende expulsão do embaixador espanhol da Venezuela

"Não compreendemos os fundamentos da decisão porque é muito importante preservar os canais diplomáticos", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, disse hoje "não compreender os fundamentos da decisão inamistosa" que a Venezuela tomou relativamente a Espanha, ao decidir expulsar de Caracas o embaixador espanhol.

"Vejo com muita preocupação, a União Europeia já emitiu uma declaração, concertada entre todos, incluindo Portugal, que é muito clara ao condenar a atitude inamistosa das autoridades venezuelanas", disse Santos Silva à Lusa, à margem de um Fórum Empresarial entre Portugal e o Vietname, que decorre esta tarde em Lisboa.

"Não compreendemos os fundamentos da decisão porque é muito importante preservar os canais diplomáticos, devem ser os últimos a ser abandonados porque permitem a comunicação e a troca de informações mesmo quando há diferendos que nos separam", vincou o ministro.

Para o chefe da diplomacia portuguesa, é preciso "insistir na necessidade de continuar a desenvolver diálogo político na Venezuela porque só há uma solução para superar as dificuldades económicas e sociais, que é superar o atual impasse político".

Isso significa, acrescentou, "que todas as instituições sejam respeitadas nas suas competências e por haver eleições organizadas com tempo e regras de organização e supervisão em que todas as partes se reconheçam".

Questionado sobre a realização das eleições presidenciais até ao próximo dia 30 de abril, uma iniciativa que mereceu a crítica dos ministros dos Negócios Estrangeiros da América Latina, o chamado 'Grupo de Lima', Santos Silva mostrou-se crítico.

"É uma decisão precipitada, marcada por uma instituição que não reconhecemos, a Assembleia Constituinte, e pensamos que a fixação do 'timing' e das regras de organização e de supervisão da próxima eleição deveria ser objetivo de diálogo e acordo político entre as partes", destacou.

O Governo espanhol decidiu hoje declarar 'persona non grata' o embaixador da Venezuela em Madrid, em "estrita aplicação do principio de reciprocidade, depois de o regime de Nicolás Maduro ter feito o mesmo com o embaixador espanhol.

Madrid "lamenta a decisão" adotada na quinta-feira pela Venezuela de expulsar o embaixador de Espanha nesse país, mas "perante medidas desta dimensão" teve de responder "de forma proporcional", disse o ministro porta-voz do executivo, Íñigo Méndez de Vigo, em conferência de imprensa.

Segundo este responsável, a Espanha deseja manter com a Venezuela "relações de respeito, amizade e cooperação", mas as decisões adotadas pelo Governo de Nicolás Maduro "tornam difícil que isso se verifique".

As autoridades de Caracas declararam na quinta-feira 'persona non grata' o embaixador espanhol em Caracas, referindo que o seu país cometeu "agressões contínuas" contra o Governo do Presidente venezuelano, Nicolas Maduro.

"A Venezuela informa a comunidade internacional de que decidiu declarar 'persona non grata' o embaixador do Reino da Espanha na Venezuela (...) em virtude da contínua agressão e repetidos atos de interferência nos assuntos internos do nosso país", segundo uma declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros venezuelano.

Na quarta-feira, o Governo venezuelano havia chamado o seu embaixador em Madrid, após as sanções adotadas pela União Europeia contra sete altos funcionários venezuelanos, nomeadamente o congelamento de ativos e a proibição de vistos para a UE.

Caracas acusa o chefe do Governo espanhol, Mariano Rajoy, de ser um dos principais responsáveis por essas medidas.

As relações entre Espanha e Venezuela estão tensas desde a eleição do Presidente Hugo Chávez (1999-2013), que morreu em 2013, tendo subido ao poder posteriormente o seu afilhado político Nicolás Maduro.

Em dezembro, a Venezuela teve a mesma atitude em relação aos embaixadores do Brasil e Canadá, que posteriormente tomaram medidas idênticas em relação os embaixadores venezuelanos nos seus respetivos países.

A União Europeia já condenou, hoje, "firmemente" a decisão das autoridades venezuelanas de declarar 'persona non grata' o embaixador espanhol e instou Caracas a revertê-la, para manter os canais diplomáticos abertos.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.