Portas aos seus na hora do adeus: "Não percam muito tempo a discutir qual é o lugar de cada um"

Portas diz não sentir nostalgia mas liberdade. Deixa recados a Costa e à "geringonça" e pede a Cristas que seja um "par de mãos seguro".

Paulo Portas bem tentou, mas não evitou as lágrimas que contagiaram muitos congressistas. Na sua última intervenção como presidente do CDS, deixou claro o seu desejo de deixar um partido em "unidade", empurrando para a margem potenciais fações de contestação à sucessora que prefere.

"Os portugueses têm escassa paciência para divisões sem sentido, disputas dentro de aparelhos partidários que nem chegam a interessar. Como dizia Adelino Amaro da Costa, queremos unidade sem unicidade. Preocupem-se com o que o CDS renovado pode fazer por Portugal. Não percam tempo a discutir qual o lugar de cada um nesse CDS renovado", frisou.

Sempre a tentar fintar as emoções, quis deixar uma imagem de força aos congressistas: "Nem me falem em saudade, porque contam sempre com a minha amizade. Nem sentirei nostalgia, mas sim liberdade", afiançou. "Sempre acreditei que é bom político quem é independente politica", assinalou, "não sou eu que dou um passo atrás. É o partido que dá um passo à frente".

O antigo parceiro de coligação, Pedro Passos Coelho, teve direito a uma referência, em relação aos últimos quatro anos: "Está para chegar um primeiro-ministro socialista capaz de reduzir um défice de 11%,que foi o que recebemos, e entregar um de 3%. Tivemos os nossos problemas na coligação, até porque somos pessoas muito diferentes. Mas juntos os superámos, lado a lado fizemos a campanha e ganhámos as eleições, o que não foi coisa pouca."

No discurso de despida, o ainda presidente centrista garantiu que não tem "ressentimentos" em relação ao novo governo socialista, "nem o partido é habitável" por eles. "Ninguém se anima pela falha, pela réplica de erro" e, por isso, sublinhou, "desejo ardentemente que Portugal não se volte a aproximar do abismo".

Mas a atual solução de governo, com um partido que perdeu as eleições a governar, apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda, ensinou uma lição aos centristas "Dirijo-me aos eleitores do centro-direita, tantas vezes tentados pelo chamado voto útil. Centenas de milhares de eleitores estão mais próximos do CDS, gostam mais das ideias do CDS, reconhecem-se nos quadros do CDS, mas que, nas eleições, deixam a sua primeira escolham e migram para a segunda, com medo que o PS ganhe ao PSD. Esse medo deixou de ter razão de ser, o atual primeiro-ministro não ganhou. O que conta não é o partido que fica em primeiro lugar, o que conta é quantos deputados os partidos elegem para formar uma maioria", apontou.

Já prestes a terminar, quase com uma hora de discurso, pelas 13.30 horas, as lágrimas acabaram por invadir o rosto de Portas. Foi na parte em que dirigiu os agradecimentos a toda a sua equipa. Desde os militantes de Aveiro que o receberam como se fosse "um deles", ao motorista com quem percorreu 650 mil quilómetros até que "fomos obrigados a mudar de carro por razões de segurança".

Quase, quase a finalizar, uma palavra para Assunção Cristas, para quem encontrou um elogio e um apelo, indo beber a uma expressão inglesa: "a safe pair of hands", que traduziu como "um par de mãos seguras para tratar bem de Portugal".

O adeus a 16 anos de liderança, já com Pavilhão Multiusos de Gondomar emocionado e de pé, foi assim concluído: "E pronto, finito. Não me perguntem se é um até já ou um até sempre. É um até amanhã. Estarei cá para exercer o meu direito de voto". E àqueles que já antecipam uma candidatura presidencial daqui a dez anos, um alerta: "Qualquer especulação [por um prazo] superior a seis meses é, no mínimo, um atrevimento."

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