Porque é que não deve forçar o seu filho a beijar outras pessoas

Pediatras dizem que beijo é um cumprimento demasiado íntimo para se impor a uma criança e que não é necessário para as regras da boa educação e da simpatia.

Dizer ao Gonçalo, de 4 anos, "dá um beijinho à Maria" pode ser um verdadeiro desafio. Não é muito beijoqueiro, diz a mãe, sobretudo quando não conhece bem as pessoas. "Digo-lhe sempre para dar um beijinho, mas já sei que às vezes não dá", conta Sara Castilho, 32 anos. Com a família mais próxima, não há qualquer problema. Mas se lhe pedem para beijar um parente afastado ou um amigo da família, a situação altera-se. E quanto mais insistem, pior é. "Tento não entrar em conflito e, por isso, não forço muito. Mas faço força para que cumprimente a pessoa, nem que seja apenas com um olá."

A discussão sobre se os pais devem ou não coagir as crianças a beijar outras pessoas foi relançada recentemente pela jornalista e escritora colombiana Ana Hanssen. Na opinião do pediatra Mário Cordeiro, "as crianças não devem ser obrigadas a beijar quem quer que seja, embora devam ser entusiasmadas a cumprimentar as pessoas, seja no prédio onde moram sejam com avós ou amigos". Mas, ressalva, "cumprimentar, que é um ato de cortesia, não é sinónimo da intimidade a que o beijo força". Por isso, um sorriso ou um aceno podem ser suficientes. "Ser educado é uma coisa, ser beijoqueiro é outra", destaca. Até porque, lembra o pediatra, "há crianças que não gostam de dar um beijo a uma pessoa com barba", por exemplo.

Quatro motivos

Ana Hanssen trouxe o tema à discussão, ao fazer um post no site BabyCenter intitulado "Por favor, não peçam beijos aos meus filhos". Para a escritora, existem quatro motivos pelos quais não se deve forçar as crianças a beijarem desconhecidos: o respeito, pois deve ser a criança a decidir como mostrar afeto; porque o beijo é, para elas, algo íntimo e importante; porque os adultos também não gostariam de ser obrigados a fazê-lo e por uma questão de segurança. Esta última razão é a que tem levantado mais polémica. Ana refere a existência de vários estudos que demonstram que as crianças que são forçadas a beijar são mais vulneráveis a sofrer abusos sexuais.

Em declarações ao jornal espanhol El País, Elena Domínguez, psicóloga e especialista em inteligência emocional, afirmou que "não se deve coagir as crianças a darem beijos a estranhos porque isso é forçá-las a superarem uma barreira natural que mantêm com o desconhecido e que as protege dos perigos". Segundo a mesma, a criança pode pensar que deve fazer aquilo que os outros pedem e que estranhos podem exercer controlo sobre o seu corpo.

Ao DN, Mário Cordeiro afirmou ter "algumas dúvidas científicas em relação a essa associação causa-efeito". "Mas concordo que o beijo é um cumprimento mais íntimo do que um aceno. É por isso que sou contra os beijos na boca, exceto numa relação de "amantes". De qualquer modo, é bom frisar que nos abusos sexuais, e isso deve ficar bem vincado, há na maioria dos casos uma relação de sedução que passa por conquistar a criança, dar-lhe mimo e o agressor surgir como um "guarda-chuva" acolhedor", destaca o pediatra.

No entanto, há quem defenda que, quando os pais não fazem força para que a criança beije alguém, estão a contribuir para a sua deseducação. Teresa Paula Marques, psicóloga que se dedica à área infantil, afirma que "na nossa sociedade, faz parte da socialização as pessoas cumprimentarem-se". Se a criança for muito tímida e se mostrar reticente em beijar alguém que acabou de conhecer, a psicóloga sugere que "os pais insistam, passados alguns minutos". Para a psicóloga, "faz sentido que os pais digam à criança que cumprimente alguém que para eles não é estranho, mostrando-lhes que é um ato de simpatia e de boa educação".

Relativamente à questão mais polémica levantada no post de Ana Hanssen, Teresa Paula Marques diz que não conhece nenhum estudo que indique que a criança que é obrigada a dar dois beijos a alguém fica mais vulnerável a sofrer abusos sexuais. "Há uma grande diferença entre a criança cumprimentar e deixar-se tocar por alguém. Isso requer que, no momento certo, os pais conversem com ela sobre o assunto", refere a especialista. E acrescenta: "Muitos abusadores vivem na mesma casa que a criança."

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