Politécnicos querem ser universidades de ciências aplicadas e criar doutores

Conselhos gerais discutem hoje contributo dos politécnicos para o desenvolvimento do país. Marcelo abre a sessão

Os conselhos gerais dos politécnicos querem que estas instituições possam dar grau de doutoramento e que sejam designadas de universidades de ciências aplicadas. A posição conjunta tomada por este órgão vai ser um dos temas do seminário marcado para hoje para assinalar os 40 anos da Constituição, cuja abertura está a cargo do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

No encontro vai ser debatido o contributo dos politécnicos para o desenvolvimento do país. Contributo esse que os presidentes dos conselhos gerais - que não têm poder executivo mas trabalham na orientação estratégica das instituições - consideram ser já mais do que suficiente para que possam conferir grau de doutor aos seus estudantes.

"Os conselhos gerais pretendem, acima de tudo, pôr a discussão na ordem do dia, questionar e debater qual a melhor solução para o país", adiantou ao DN Pedro Lourtie, presidente do conselho geral do Politécnico de Leiria. Segundo o também representante dos presidentes dos conselhos gerais dos politécnicos a diferenciação dos sistemas de ensino superior em Portugal faz-se, neste momento, "essencialmente pela possibilidade legal de concessão de doutoramentos e pelo acesso a determinados financiamentos, além da questão da designação, que internacionalmente não é entendida, e penaliza os politécnicos portugueses".

Ou seja, os politécnicos querem ter a designação internacional igual às das instituições europeias semelhantes: university of applied sciences (universidades de ciências aplicadas). "É importante para a internacionalização, para captar alunos internacionais e para a realização de parcerias entre instituições. Nos países com sistemas binários é assim que são designados e isso ajudava a clarificar", acrescentou Pedro Lourtie. A designação de universidade de ciências aplicadas é a designação usada pela Associação Europeia de Instituições de Ensino Superior e em países como a Alemanha ou a Suécia.

A questão dos doutoramentos é também "uma evolução natural que está a acontecer na Europa. Recentemente foi a Alemanha que evoluiu nesse sentido". Pedro Lourtie acredita que esta é uma penalização para os politécnicos, que deviam ter autorização para conceder grau de doutor, mediante a avaliação da agência de acreditação do ensino superior (A3ES). "O Politécnico de Leiria tem neste momento 84 pessoas a fazer doutoramento nas suas instalações, que depois é conferido por outras universidades portuguesas ou estrangeiras", o que segundo o professor mostra como as instituições politécnicas já estão preparadas para este passo.

E o facto de algumas instituições quererem focar-se nos cursos curtos e outras quererem conferir doutoramentos não é um problema, defende o representante dos conselhos gerais.

"Há politécnicos que têm uma grande prática dos cursos curtos, e outros que têm também uma grande capacidade de doutoramentos, Além disso, a Universidade de Aveiro é uma das instituições que mais cursos curtos [formações que não conferem grau superior] ofereceu, o que mostra que as duas coisas não são incompatíveis."

Os conselhos gerais divulgaram uma tomada de posição há um mês em que defendiam estas duas alterações ao subsistema politécnico. Vão agora aproveitar a conferência de hoje para voltar ao tema, uma vez que o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, começou por se mostrar recetivo a fazer esta discussão, mas posteriormente no Parlamento referiu que não o ia fazer nesta legislatura. "Para nós há razões para se fazer esta discussão, faz sentido e é possível fazer estas alterações", sublinha Pedro Lourtie.

Além destas duas reivindicações, alguns dos politécnicos mantêm a intenção de se tornarem universidades. "O Politécnico de Leiria tem essa passagem no plano estratégico. No entanto, a lei só prevê a passagem de universidades a politécnicos."

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