Polícias dão prazo "até ao final das férias" a ministra. Ou voltam às ruas

Perto de três mil agentes da PSP ligados a três sindicatos desfilaram até ao Ministério da Administração Interna para entregar documento com as suas reivindicações. A ministra estava no Parlamento a falar do SIRESP

O clima de paz entre a ministra da Administração Interna (MAI) e os polícias acabou. Constança Urbano de Sousa, que até desfrutou de algum capital de simpatia no início do mandato, tem até "ao final das férias" para responder às reivindicações de três sindicatos da PSP que organizaram a manifestação de ontem em Lisboa - Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP) e Sindicato Independente dos Agentes de Polícia (SIAP). Se não houver resposta positiva ao documento entregue ao chefe de gabinete da governante, ficou a garantia de que os polícias voltam aos protestos na rentrée política, em setembro.

Em causa estão os atrasos na abertura de concursos de promoção, a indefinição no número de admissões, a demora na homologação das avaliações de 2016, o congelamento dos índices remuneratórios desde 2010, as fracas condições de equipamento e de trabalho, a não atribuição do subsídio de risco, os baixos salários (800 euros no início de carreira), o incumprimento do Estatuto no que diz respeito à passagem à pré-aposentação (só autorizada a passagem a 400 efetivos quando deviam ser 800).

Eram 20.20 quando a delegação encabeçada por Paulo Rodrigues saiu do MAI depois de ter entregado o documento assinado pelos três sindicatos. A essa hora, a ministra ainda estava no Parlamento, onde enfrentou as perguntas sobre o SIRESP, o sistema de comunicações e as suas falhas no incêndio de Pedrógão Grande - um dos equipamentos problemáticos de que as polícias se queixam (ver página 5).

"Entregámos o documento ao chefe de gabinete da ministra. Disse-nos que ia tentar que as questões fossem tratadas o mais rapidamente possível. Mas ele não tem poder de decisão. Não foi a ministra que nos recebeu até porque está no Parlamento. Algumas das questões não dependem só do MAI e então decidimos agora mesmo entregar também o documento ao ministro das Finanças [Mário Centeno] porque não basta dizer que já há condições financeiras e depois manter os problemas. O governo tem de resolver, seja o MAI seja o Ministério das Finanças", afirmou Paulo Rodrigues.

O presidente da ASPP dá pouco tempo para as respostas surgirem. No máximo, "até ao final das férias". Porque o "sinal está dado e o governo percebeu do que somos capazes", garantiu. "Ou há respostas positivas aos problemas ou vamos continuar com as ações de protesto. Cada vez mais os polícias estão unidos. Pode haver muitos sindicatos da polícia mas estão unidos."

A 20 de abril, a ASPP também realizou um desfile de protesto em Lisboa que culminou então com a entrega do mesmo "caderno de encargos" na residência oficial do primeiro-ministro, António Costa, em São Bento. Não tiveram mais respostas e por isso voltaram ontem às ruas, com pelo menos 15 autocarros vindos do Norte do país, mas também de Coimbra, havendo até elementos dos Açores presentes no protesto. "Superou as expectativas", dizia Paulo Rodrigues ao DN, porque as primeiras colunas com largas centenas foram sendo engrossadas ao longo do protesto. Junto ao Ministério da Administração Interna, a coluna dianteira da manifestação tinha à sua frente um cordão de duas dezenas de polícias, numa operação discreta de segurança comandada pelo comandante da 1.ª Divisão da PSP de Lisboa, intendente Paulo Flor. O Corpo de Intervenção não era visível e havia apenas cinco carrinhas da polícia estacionadas na praça.

Como se estava no Terreiro do Paço, ainda houve quem evocasse memórias do mítico "secos e molhados" de 1989 (quando polícias em protesto foram alvo de carga policial pelos colegas do Corpo de Intervenção). Mas o cenário estava muito longe disso. Os agentes que integravam o cordão riam-se com os colegas em luta e havia um ambiente de amena cavaqueira. Cantaram o hino nacional por respeito às vítimas dos incêndios que atingiram Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, onde morreram 64 pessoas e mais de 200 ficaram feridas. Na manifestação ouviu-se Grândola, Vila Morena e a frase "Governo escuta, os polícias estão em luta".

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