Polícia e imigrantes trocam sorrisos. E o ministro agradece

O ministro quer mais migrantes no país, o diretor da PJ defendeu que tenham condições para "serem felizes" em Portugal e que essa é a melhor "prevenção de radicalização"

Sorrisos, trocas de cartões e de palavras sussurradas. Alberto Matos, da secção de Beja da Associação Solidariedade Imigrante não disfarçava a sua satisfação com a intervenção que acabava de ouvir de Luís Neves, o diretor da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária (PJ). Faziam parte de um dos painéis da conferência sobre Tráfico de Seres Humanos, organizada pelo sindicato dos inspetores do SEF e estavam no palco, sentados em cadeiras lado a lado. Naquele momento polícia e imigrantes estiveram em sintonia.

O polícia não foi ali criar alarmes securitários sobre os imigrantes, nem defender expulsões de ilegais para proteger o país. Luís Neves, que dirige a unidade que tem a investigação do terrorismo e do crime organizado, falou de integração e de como ela é crucial, isso sim, para a prevenção da radicalização violenta. "A melhor prevenção quer para o tráfico de seres humanos, quer para situações de radicalização, é a integração dessas pessoas, munidas de documentação e direitos. Saber quem são e acolhê-las de forma rápida, deixá-las ser felizes no nosso país. Sentindo-se integrados esses imigrantes sentem gratidão com o país e isso ajuda a evitar os radicalismos", assinalou o diretor da UNCT.

"Qualquer ser humano que seja estigmatizado pode ter problemas de integração que podem levar a outro tipo de atitudes", frisou Luís Neves aos jornalistas, acrescentando, que "não há qualquer indício no sentido de que os emigrantes venham com tendências radicais dos países de origem".

Ao DN, Alberto Matos reconheceu que "nunca tinha ouvido um polícia a falar assim". O responsável da SOLIM, que revelou os dramas que sofrem os imigrantes ilegais que trabalham na agricultura no Alentejo, muitos vítimas do tráfico de pessoas, diz que "é gratificante" ouvir palavras como aquelas de um dirigente policial. "É esta atitude que permite uma relação de confiança entre os imigrantes e as autoridades e distinguir as vítimas dos criminosos. E sabemos que para deter estes criminosos tem de haver confiança por parte das vítimas".

O ministro da Administração Interna já não assistiu a esta sessão da conferência, mas ficaria, decerto, agradado com esta "cumplicidade" entre a associação de imigrantes e a polícia. Eduardo Cabrita tinha anunciado nessa manhã que o país precisa de mais migrantes e a proximidade entre as autoridades e estas associações será fundamental para um acolhimento seguro.

"Portugal precisa de mais migrantes para combater o problema da demografia e dar uma dimensão global ao papel estratégico do país", assinalou o ministro. "Há quem entenda, infelizmente, noutros países da Europa que os migrantes são um problema. Pois o governo português assume que, para se competitivo, para termos um saldo demográfico positivo, os migrantes são uma solução", reforçou. Esse é um dos objetivos da moção política "Geração 20/30" que será levada ao congresso do PS, nos dias 25 a 27 de maio, na Batalha e já tinha sido também revelado pelo primeiro-ministro, António Costa.

Os "desafios" para o SEF são pois "claros e modeladores da estratégia para a nossa comunidade", como salientou o comentador político e colunista do DN, Pedro Marques Lopes, durante a gravação do programa da TSF "Bloco Central", que decorreu na conferência. O presidente do Sindicato da Carreira de Fiscalização e Investigação do SEF, Acácio Pereira, concorda e foi também por isso que apelou a Eduardo Cabrita que reforçasse o número de inspetores do SEF.

Na sua intervenção, um grito de alerta em relação à escalada do tráfico de seres humanos no nosso país, Acácio Pereira já tinha deixado essa reivindicação. Ficou "satisfeito" com a "compreensão" do ministro, que aproveitou para lembrar que a admissão de 135 em 2017/2018 e dos novos 100 em concurso, "é a maior dos últimos anos".

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