Poiares Maduro cola rótulo de populismo ao governo

Ex-ministro nega que atual governo tenha herdado atrasos na execução de fundos comunitários

O ex-ministro adjunto e do desenvolvimento regional, Miguel Poiares Maduro, colocou o executivo de António Costa no rol de governos que integram partidos "populistas". Numa aula na Universidade de Verão do PSD, que decorre em Castelo de Vide, Poiares Maduro aponta Portugal como um dos quatro casos em que os populistas chegaram ao poder.

O ex-ministro lembrou assim os governos populistas de direita na Polónia e na Hungria, falando depois "no populismo de esquerda, que governa na Grécia" e em "Portugal que é um caso híbrido de populismo". E atirou: "Não gosto de ver Portugal nestes exemplos". Em críticas à geringonça, Poiares Maduro diz que o discurso político do governo transforma-se em populista porque "não apresenta soluções, só apresenta culpados, só quer encontrar bodes expiatórios".

Para Poiares Maduro o governo coloca o combate político à frente do interesse nacional, acusando o executivo de António Costa de insistir numa "narrativa" falsa que aponta que as medidas de austeridade "foram uma escolha e não uma necessidade". Fez ainda questão de contrariar o que considera serem "mitos", garantindo que a desigualdade social, apesar da crise, não aumentou durante o governo PSD/CDS e até desceu.

O antigo governante respondeu também às acusações do atual ministro da Economia que o atual governo se deparou com atrasos na execução de projetos apoiados por fundos comunitários. Poiares Maduro diz que esta acusação "não tem a mínima adesão à realidade", já que "a execução de fundos foi mais do dobro do que a atingida pelo governo anterior no mesmo período", destacando também o facto de "em dezembro de 2015, um mês depois de o PSD ter deixado o governo, Portugal era o Estado-membro com maior execução de fundos."

Poiares Maduro criticou ainda a forma "não- transparente" como António Costa interveio nas negociações para resolver o problema no BPI. Para o ex-ministro esta "cultura" contribui para o "conflito de interesses" e que pode trazer uma "dependência mútua entre o sistema económico e o sistema político".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.