Peregrinos já têm um manual da correta alimentação

Porque há peregrinos que fazem longos percursos em jejum, ou apenas a pão e água, de acordo com as promessas, foi escrito um livro a pedido pela Direção Geral de Saúde

Vinte gramas de proteína por refeição a cada 3/4 horas; Água à temperatura ambiente; nada de bolos, rissóis ou batatas fritas; quem percorrer até 6 km por dia deve ingerir uma média de 2565 calorias diárias; no mínimo oito horas de descanso. Chama-se Manual de Alimentação para Peregrinos, está pronto desde o ano passado, mas só agora será lançado e apresentado ao público. O livro - da autoria de oito professores da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria - parte de um desafio Direção Geral de Saúde, aproveitando a proximidade de Fátima, e fará parte do Programa Nacional da Promoção para a Alimentação Saudável.

Antes do lançamento - agendado para hoje, pelas 16.00, na Biblioteca José Saramago, em Leiria, a nutricionista Cidália Almeida Pereira (que assina este trabalho com os colegas Rafaela Honório, Catarina Lobão, Débora Franco, Elisabete Roldão, Luís Carrão, Vânia Ribeiro e Mónica Sousa) falou ao DN sobre esta experiência.

O convite da DGS não pode desligar-se da proximidade a Fátima, nem tão pouco da Missão de Apoio ao peregrino de Fátima, criada no ano letivo passado, naquela escola superior. Na verdade, qualquer um dos membros desta equipa multidisciplinar (que integra nutricionistas, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas) está já habituado a prestar apoio aos peregrinos, de forma voluntária, em várias etapas do caminho, numa iniciativa que envolve professores e alunos. E daí trouxeram muita matéria para trabalhar a partir dos erros mais comuns no percurso.

A fase mais intensa do trabalho para o livro decorreu entre setembro e novembro. "Inicialmente o desafio apontava apenas para falar sobre a alimentação do peregrino, mas pareceu-nos insuficiente. Sugerimos à DGS inserir um capítulo mais denso sobre a alimentação, mas também uma visão mais integrada do que é o apoio ao peregrino", afirma Cidália Pereira. A ideia foi "dar algumas estratégias, pensando a peregrinação não apenas no momento em que ela está a decorrer, mas nas suas três fases: a preparação, focada no que fazer uma semana antes, durante e no final". Mas também que reunisse informação credível e atualizada. Foi aí que a equipa se deparou com uma dificuldade: não existem ainda publicações que foquem essa vertente para o peregrino. A solução encontrada consistiu em recorrer ao que existe para desportos de longa duração, nomeadamente as caminhadas. "O que nós procurámos foi adaptar essas recomendações ao peregrino", sabendo que existem vários tipos de peregrinação, e que inclusivamente há quem faça o percurso sem ingerir alimentos, em jejum, ou apenas a pão e água, de acordo com as promessas. Há também quem leve na mochila pequenas refeições, ou pare no caminho para as fazer em restaurantes.

Nesta primeira fase o livro estará disponível apenas em formato digital, podendo ser descarregado no site da Escola Superior de Saúde. Porém, no futuro é intenção da DGS imprimir alguns exemplares e fazer a distribuição em determinadas instituições.

"Temos consciência de que na prática nem sempre é fácil aplicar estas recomendações, e tivemos em conta as críticas e sugestões que nos foram chegando", sublinha Cidália Pereira, lembrando que o grupo pretende "testar" com os peregrinos a forma como é aplicável este manual, uma vez que a Missão de Apoio continuará a funcionar em cada peregrinação. Entre as dúvidas apontadas figura a pesagem dos alimentos. O grupo sabe bem que não é exequível "que um peregrino ande com uma balança atrás", mas reforça a importância de estar também subjacente alguma "educação alimentar".

Erros frequentes

Um dos erros mais reportado ao grupo foi "a opção de não fazer as refeições, muitas vezes mediante uma promessa de só beber água e comer pão, por exemplo", lembra Cidália Pereira. Nos pontos de apoio em que o grupo está presente, no caminho para Fátima, não faltam casos de pessoas "que se sentiram mal e precisaram de ajuda precisamente por isso". Há também o exemplo das pessoas que "para evitar as paragens e ir à casa de banho quase não bebem água", o que é completamente desaconselhado. A nutricionista fala da importância de "respeitar a sede", mais do que apontar a quantidade de água a beber.

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