Peregrinos defendem que Igreja deve ter voz política

A Igreja Católica Portuguesa devia ter uma voz política mais ativa, defenderam hoje vários peregrinos ouvidos pela Agência Lusa junto ao recinto do Santuário, no último dia da peregrinação de 12 e 13 de outubro.

"Eu percebo que [os membros da Igreja] têm que ter cuidado para que não digam que estão a tomar partido pela oposição ou que estão a ir longe de mais, mas acho que têm de ter uma intervenção mais forte e chamar à terra este Governo", sublinhou Luís Sousa, que veio de Coimbra para participar na procissão do adeus.

O peregrino, de 55 anos, frisou que o momento atual em Portugal "é um inferno com a crise e as medidas de austeridade" e, por isso, "o povo tem de ter alguém que o defenda".

Rosa Lourenço, de Pombal, disse entender que os representantes da Igreja Católica "devem dar a sua palavrinha", por estar em causa "a dignidade das pessoas".

A Igreja "teria força para travar algumas das medidas [de austeridade]", salientou a peregrina de 50 anos.

Ao seu lado, uma amiga residente no mesmo concelho defendeu uma opinião contrária.

"Deve limitar-se a fazer caridade e não deve misturar as coisas", porque essa missão "já dá muito trabalho" e exige "muita fé e amor", disse Ana Paula Silva, de 48 anos, acrescentando que "as pessoas têm de se habituar a viver com menos".

Outra peregrina, Adelaide Camelo, de 62 anos, sustentou que a Igreja Católica "tem de ter uma voz ativa para dizer basta, porque o povo não pode [com] tanto".

Oriunda do Porto, a católica esclareceu que deve existir a preocupação de "não tomar partidos", mas existe "uma obrigação de, publicamente, alertar o Governo e chamar a atenção dos políticos", já que "está no terreno na ajuda social e sabe o que se passa".

A verdade, afiançou, é que "se não existisse a ajuda da Igreja seria o caos em Portugal", já que efetua "um trabalho insubstituível".

Plácido de Sousa, peregrino de Baião, de 53 anos, defendeu que se a Igreja fizesse frente aos políticos podia ser que mudasse alguma coisa", uma vez que, lembrou, "a Igreja em Portugal tem muita força" e "representa muita gente que está a viver mal".

Na sexta-feira, na conferência de imprensa que antecedeu a peregrinação, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa sustentou que "a arte da política" passa por promover a equidade, "se possível, protegendo os mais desfavorecidos" e que, nesse capítulo, "a Igreja tem uma palavra".

Contudo, frisou José Policarpo, não cabe aos bispos comentar a situação política.

"Não nos peçam que entremos na balbúrdia das opiniões", disse, explicando que não gostaria que a sua voz fosse "mais uma entre a confusão das opiniões".

Na mesma conferência de imprensa, José Policarpo sublinhou que "não se resolve nada contestando, indo para grandes manifestações" e, tão pouco, "com uma revolução", uma vez que os problemas que se vivem em Portugal "foram criados ao longo de muito tempo", criticando a "reação coletiva a este momento nacional, que dá a ideia de que a única coisa que se pretende é mudar o Governo".

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João Gobern

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