Pedro Nuno Santos sobre Orçamento: "Anúncios são feitos pelo Governo"

Secretário dos Assuntos Parlamentares recusa que Mariana Mortágua mande nas Finanças: "Ninguém está nas mãos de ninguém." Líder da bancada do PS também defendeu que só o Governo é que está mandatado para falar

O governante que no Parlamento gere o dia-a-dia das relações com os partidos de esquerda que apoiam o executivo socialista é taxativo, em declarações ao DN: "Os anúncios sobre o Orçamento são feitos pelo Governo." O secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, pretende assim arrumar a polémica à volta do novo imposto sobre património de luxo.

Para este governante, ninguém anunciou medida nenhuma. Nem a deputada bloquista Mariana Mortágua, nem o deputado socialista Eurico Brilhante Dias, que falaram na quinta-feira passada para comentar uma notícia do Jornal de Negócios sobre esse novo imposto. "Este imposto não está finalizado, está longe disso", repete várias vezes ao DN Pedro Nuno Santos. "Nem eu, nem o ministro das Finanças, nem o primeiro-ministro sabemos qual vai ser o limite desse imposto", atirou - ele que amanhã estará sentado ao lado de António Costa no primeiro debate quinzenal depois do verão, onde já se adivinha que este será o prato forte das intervenções da oposição de direita.

No Parlamento, o presidente do PS e líder parlamentar socialista, Carlos César, também retirou palco aos deputados na antecipação de medidas. "Penso que devemos assentar metodologicamente num processo. E o processo é este: sobre a proposta de Orçamento do Estado [para 2017] do Governo falará o Governo; depois de entregue a proposta de Orçamento na Assembleia da República falarão os partidos parlamentares, parceiros sociais e outras instituições que entenderem útil a sua intervenção", disse à Lusa.

O politólogo Pedro Adão e Silva - e antigo membro da direção do PS no tempo de Ferro Rodrigues - apontou ao DN que "estar a falar e comentar-se medidas fiscais de forma desgarrada é um mau sinal", mas que acaba por se compreender tratando-se de um governo que tem acordos de incidência parlamentar. "É preciso dar espaço político para que os partidos defendam as suas propostas."

E aqui o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares recusa que o Governo esteja incomodado com as intervenções de Mariana Mortágua, que colocaram a deputada de 30 anos no alvo do tiro da direita em particular, mas também de outros socialistas. "Só podíamos estar incomodados com coisas que realmente acontecessem - e não aconteceu nenhum anúncio de impostos porque não está concretizado."

Pedro Nuno Santos vai à história política para melhor se explicar. "Não estamos melindrados. E estamos a fazer drama de uma história que é normal em democracia onde nenhum partido tem maioria." Para concluir: "Ninguém está nas mãos de ninguém. Nem o Governo está nas mãos do BE e do PCP, nem o BE e o PCP nas mãos do Governo." Que é como quem recusa que Mariana Mortágua seja a dona das finanças, como tem dito a direita, ou que o BE tenha metido num bolso o PS.

Do seu lugar de politólogo, Pedro Adão e Silva quase se ri com a frase de que Mortágua é a verdadeira ministra das Finanças, recordando que "o BE engoliu o discurso radical sobre Europa" e acabou por aceitar um Orçamento no qual Bruxelas impunha medidas restritivas. Mas, insistiu, esta medida "corresponde ao perfil do BE e do eleitorado do BE, pelo que Mariana Mortágua não sairá beliscada deste episódio.

Quem saiu em sua defesa, num texto em que gasta mais argumentos a rebater os críticos, foi Francisco Louçã que notou (num texto no Público) que "afinal a diaba sempre chegou em setembro". E aí, de uma penada, criticou socialistas (como Sérgio Sousa Pinto), centristas, sociais-democratas e comentadores, para concluir: "No mínimo, na falta da diaba ou mesmo de razões, a velha arma de sempre, uma boa inventona. E depois virá o resto."

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